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De Anitta a Pabllo, como artistas se beneficiam ao declararem os seus votos

A CEO da Mynd, Fatima Pissarra, diz que, hoje, se posicionar sobre assuntos sociais é importante também para a relevância dos famosos

Por FolhaPress 04/08/2022 10h58
A CEO da Mynd, Fatima Pissarra, diz que, hoje, se posicionar sobre assuntos sociais é importante também para a relevância dos famosos Foto: Reprodução

Há pouco mais de dois anos, Anitta era chamada de ignorante por perguntar, em uma live no Instagram, se os ministérios faziam parte do Judiciário. De lá para cá, não só a cantora passou por um processo de politização intenso, como se tornou influente nos debates sobre política e as eleições, até recentemente declarar o voto no ex-presidente Lula, do Partido dos Trabalhadores.

O movimento da artista, uma das mais populares do Brasil e com fama que extrapola as fronteiras do país, reflete um momento em que a política partidária está ficando cada vez mais presente no mundo do entretenimento, e figuras públicas têm declarado de maneira sistemática seus votos nessas eleições de 2022.

Esse é um movimento importante para as campanhas políticas? Sim, mas não só. Fatima Pissarra, CEO da Mynd, empresa que cuida da relação com marcas e publicidades de algumas das mais badaladas celebridades do país, diz que, hoje, se posicionar sobre assuntos sociais é importante também para a relevância dos famosos.

“Acho que [se posicionar] é benéfico para todas as pessoas”, diz ela. “E isso passa por tudo -até mesmo falar em quem você vai votar, pelas suas razões.”

Pissarra afirma que, cada vez mais, “as marcas querem artistas que se posicionem”. “Que falem sobre feminismo, por exemplo, se for uma causa [da pessoa], sobre raça, sobre gênero –que se posicionem e endossem um tema. Isso, sim, aumenta a relevância, com toda a certeza. Não tem uma métrica que diga que a política [partidária] aumente a relevância, mas ser uma pessoa posicionada aumenta a relevância para as marcas.”

Principalmente nas redes sociais -mas também nos palcos-, os artistas também conseguem levar discussões antes restritas a determinados círculos intelectuais a um público mais antenado no dia a dia das celebridades.

Não é à toa que Anitta, mesmo antes de se posicionar a favor do pré-candidato petista, foi citada, por causa de uma crítica à sua tatuagem íntima, pela dupla sertaneja Zé Neto e Cristiano, em um show em Mato Grosso. Na ocasião, eles disseram que não precisavam da Lei Rouanet, ecoando um discurso do presidente e também candidato Jair Bolsonaro, do Partido Liberal, e de sua base de apoiadores.

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O caso gerou um debate sobre o uso de dinheiro público por parte de prefeituras de cidades pequenas e destinado a shows de cantores com cachês entre os mais altos do país. Meses antes, Pabllo Vittar causou frisson ao pegar uma toalha com o rosto de Lula no festival Lollapalooza, assim como Ludmilla, ao fazer o gesto do L com os dedos durante apresentação na Virada Cultural, em São Paulo.

Para se ter dimensão do peso da área do entretenimento na corrida eleitoral deste ano, Fabio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura, o Labic, da Universidade Federal do Espírito Santo, coletou uma série de postagens relacionadas aos nomes dos presidenciáveis. Cerca de 37% de todo esse conteúdo foi produzido por perfis ligados ao campo do entretenimento.

Isso vem acompanhado do crescimento das bolhas de ativistas e influenciadores que debatem pautas políticas como o feminismo e de novas práticas do entretenimento nas plataformas digitais, caso da ascensão de narradores de jogos como o streamer Casimiro, nos últimos quatro anos.

No caso específico do posicionamento político da Anitta, pesquisadores conseguiram dimensionar a quantidade de usuários que a artista mobiliza –e ela vai muito além da política. A artista chama para o debate perfis de fofoca, influenciadores e outros produtores culturais.

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“A gente vê que há usuários de todos os cantos, de todas as correntes ideológicas. Até mesmo alguns atores que não necessariamente falaram sobre a Anitta foram tragados pelo debate, como é o caso do Ciro Gomes”, afirma o pesquisador Pedro Barciela, especialista em análise de redes.

Ele fez um levantamento de como o Twitter se comportou depois da publicação da thread da cantora declarando voto no PT. O gráfico gerado por ele mostra o volume de postagens que continham o termo “Anitta” e em torno da arroba da cantora logo depois da declaração.

Há alguns indícios de que a artista fez sua postagem de caso bem pensado. Primeiro, basta ver a escolha de palavras do tuíte original, que anuncia o início de algo mais amplo. “Quem quiser minha ajuda para fazer ele bombar”, escreveu ela, “é só me pedir”.

Segundo, ela já mostrou poder de fogo na mobilização para convencer jovens a tirar o título de eleitor, uma campanha que rendeu uma inscrição recorde depois do movimento. “Ela é a figura, sem dúvida alguma, que entra nesse debate com o maior potencial de se engajar com outros agrupamentos que traz de sua carreira artística”, avalia Barciela.

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E terceiro, a cantora falou com Lula algumas vezes antecipando que anunciaria seu apoio, conforme mostrou reportagem do jornal O Globo -e a campanha petista sabe que essa aproximação é importante.

Brunna Rosa, que comanda a campanha digital do partido, conta que leva essa discussão do campo do entretenimento e da cultura para a articulação política, inclusive, chamando os influenciadores de líderes digitais. Há também uma lógica de ocupação de territórios embutida nessa movimentação de alcançar esses perfis.

A articulação se dá também com nomes mais regionais e que têm alcance em espaços mais específicos, caso de chefs de gastronomia e blogueiros de moda que são famosos em determinadas cidades.

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Isso se ancora na campanha como um todo do petista, que tem levantado a bandeira das artes como uma oposição ao governo atual, que extinguiu o Ministério da Cultura que Lula promete refazer. No caso de Bolsonaro, ele segue tendo apoio de uma ala importante de cantores sertanejos, gênero musical mais popular do Brasil.

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A dupla sertaneja Mateus e Cristiano, por exemplo, ficou encarregada de cantar o hino nacional e o jingle da campanha, “capitão do povo”, na convenção de Bolsonaro. Durante um show de Gusttavo Lima, o locutor do evento fez um discurso inflamado em que defendeu “Deus, a pátria e a família” -lema do integralismo- e disse que “aqui nunca vai ser o comunismo”.

Ainda que não tenham declarado voto abertamente, Bruno e Marrone, por exemplo, foram nomeados embaixadores do turismo pelo presidente, e Latino já declarou voto no atual presidente, assim como Sérgio Reis. Outros influenciadores, como a ex-vice-Miss Bumbum Andressa Urach, seguida por quase 3 milhões de pessoas só no Instagram, também apoiam o presidente nas redes sociais.

“Eu não vou me calar e aceitar meu país virar um comunismo! Os artistas na grande maioria têm medo de se posicionarem a favor do Bolsonaro, com medo de perder empregos e fãs!”, postou Urach no Instagram.

“Nessa lógica de influenciadores, redes, lideranças, a Anitta é um gigante e fica muito evidente. Essa rede influencia justamente uma comunicação de muitos para muitos”, diz Gonçalves, que defende que hoje há uma democratização maior da comunicação nas redes sociais, em que vários atores têm peso na discussão.

É uma mudança radical para as eleições de 1989, por exemplo, em que Lula também mobilizou a classe artística, cristalizada na gravação com uma série de globais e grandes cantores do jingle conhecido como “Lula Lá”, que foi regravada para a campanha de 2022. A nova versão foi uma surpresa de Janja, mulher de Lula, que tem sido uma das grandes articuladoras da campanha com a classe artística.

Apesar de chamar artistas para campanhas nas redes, como o caso da série de postagens alertando que faltam 70 dias para o primeiro turno das eleições, muitas das postagens se mantêm orgânicas. A postagem em que Anitta bancava de “anitter”, como chamam os fãs dela, para cima de Lula e cobrava a participação do candidato no TikTok, foi uma ideia só dela.

Mas a politização de Anitta é apenas a ponta do iceberg. Assim como ela, Ludmilla, por exemplo, não declarou voto -e foi criticada de “isentona” pelos fãs- na eleição de 2018, e agora aparece em vídeo da campanha do PT. “Foi ruim e foi bom termos esse governo, porque ele abriu os olhos de muita gente”, ela disse a este jornal em 2020. “Agora, eu estou aqui inteirada para, nas próximas eleições, falar sobre isso nas minhas redes sociais.”

Para Fatima Pissarra, a CEO da Mynd, este é um movimento que vem de alguns anos, mas que se intensificou muito recentemente. Ela cita Felipe Neto como um dos pioneiros em obter ainda mais popularidade a partir de posicionamentos políticos. Hoje, diz a diretora, ser influente em um determinado assunto ou causa pode ser mais atraente para uma marca do que ter uma quantidade enorme de seguidores.

“Na formação do Instagram, o foco era a foto. Então, quase não tinha como se posicionar. Agora, com TikTok, Kwai e o vídeo, se abre mais espaço para você se posicionar. Vem de um pouco antes da pandemia isso de marcas buscarem pessoas que se posicionam”, ela diz. “Eu acredito que é um caminho sem volta. Cada vez menos vão contratar por número de seguidores e engajamento e mais por endosso sobre o tema, em como essa pessoa é reconhecida para falar de um assunto.”

Se o posicionamento em relação a temas políticos mais afastados da discussão partidária é uma realidade para as celebridades, os debates sobre voto e eleições se apresentam como uma novidade.

Recentemente, a cantora Luisa Sonza foi a público reclamar de marcas que não querem contratar determinados artistas por terem apoiado ou criticado algum candidato.

Segundo Pissarra, o desabafo de Sonza veio depois de uma conversa entre as duas. “Vira e mexe chega um pedido de marca para não ter pessoas que se posicionam politicamente”, ela diz. “Tem um caso que é um conhecido por todos, quando a Gleici [Damasceno] saiu do BBB e gritou ‘Lula livre’. Durante muito tempo, a gente escutava ‘não queremos contratar porque ela falou ‘Lula livre’. Depois de um tempo, isso foi mudando.”

A CEO da Mynd diz que esses pedidos geralmente vêm de empresas nacionais. “Marcas globais praticamente não pedem isso. Querem a pessoa e pronto. Acredito que outros países já estejam mais à frente nessa discussão. E aí, as marcas locais, marcas ‘de dono’, essas são as que pedem para não ter pessoas posicionadas. Acho que no Brasil ainda existe muito esse cunho pessoal nas decisões.”

Mas Pissara crê que o assunto está em pauta, algo que nunca havia acontecido antes. “Não existia essa discussão. Era nebulosa, uma nuvem. Ninguém tocava no assunto. Até por causa do caso da Gleici. Era uma coisa meio ‘ninguém diz porque vai me prejudicar’. A Luisa falar foi importante para trazer a discussão, assim como a Anitta. Em que afetou as marcas que a Anitta trabalha ela falar que vai votar no Lula?”








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