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Cinema

Suzana Amaral deixou legado admirável e segredos bem guardados

Os primeiros repórteres que entraram em contato com o Sírio-Libanês, em São Paulo, para saber a causa da morte, ficaram sabendo que o hospital não tinha autorização para dar essa informação

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reprodução/Youtube
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Inácio Araujo
São Paulo, SP

Os primeiros repórteres que entraram em contato com o Sírio-Libanês, em São Paulo, para saber a causa da morte, ficaram sabendo que o hospital não tinha autorização para dar essa informação. A situação ficou mais complicada quando se quis saber a idade de Suzana Amaral.

Eis um segredo bem guardado. Pode ter nascido em 1928, pode ter sido em 1932. Ela mesma gostava de dar pistas falsas a respeito. Talvez houvesse nisso o desejo de produzir um paradoxo. Afinal, Suzana, agitada, extrovertida, parecia o oposto da religião meditativa que escolheu seguir: o budismo.

Talvez houvesse ali, simplesmente, o desejo de preservar certa intimidade num meio a que chegou com força, porém inesperadamente, em 1985. Inesperadamente mesmo: não é todo dia que essa profissão exigente abriga uma mãe de nove filhos (aliás, no Brasil, não abrigava muitas mulheres naquele momento).

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O cinema sempre foi um desejo de Suzana Amaral, mas só começou a vê-lo viável com a abertura do curso de cinema da Escola de Comunicações e Arte, na Universidade de São Paulo, em 1967, de onde saiu em 1971 “sabendo que não sabia”, como declarou numa magnífica entrevista a Gabriel Carneiro para o MIS paulista.

Encaminhou-se então para o jornalismo da TV Cultura. Foi transferida tempos depois para o departamento de Produção, onde começou a fazer documentários para o canal. Não estava, ainda, satisfeita. Pleiteou e conseguiu uma bolsa de estudos para os EUA, onde permaneceu durante quatro anos como pós-graduanda na Universidade de Nova York. De lá voltou acreditando que, agora sim, podia fazer filmes.

Foi no exterior que se descobriu brasileira. E lá também conheceu “A Hora da Estrela”, o pequeno romance (ou longo conto) de Clarice Lispector que depois adaptaria e que seria sua estreia de longa-metragem (em 1979, dirigiu “Minha Vida, Nossa Luta”, premiado como melhor documentário no Festival de Brasília).

No Brasil descobriu no teatro a sua Macabéa, ou seja, Marcelia Cartaxo. Não precisou de testes (dizia nunca ter feito testes de elenco), bastou vê-la no palco: a postura e a maneira de a atriz se portar representaram o fim de uma busca até então infrutífera para a personagem central.

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O resultado todos conhecem: “A Hora da Estrela” ganhou os prêmios de melhor filme, direção, atriz (Cartaxo), ator (José Dumont), fotografia (Edgar Moura), montagem (Idê Lacreta) no Festival de Brasília de 1985. No ano seguinte, Marcelia Cartaxo ainda receberia o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim, de onde Suzana saiu com o prêmio da Organização Católica Internacional do Cinema.

Talvez a força da estreia tenha provocado expectativa demais sobre seus trabalhos seguintes. O fato é que nem “Uma Vida em Segredo” (2001), com base em Autran Dourado, nem “Hotel Atlântico” (2009), baseado em João Gilberto Noll, foram recebidos com o mesmo entusiasmo, embora sempre com respeito (e prêmios). São, de fato, mais dignos do que memoráveis.

Havia no primeiro como que um eco tardio de “A Hora da Estrela”, pois tudo gira em torno de uma jovem do campo trazida para a cidade, como Macabea, tão tímida e deslocada quanto. Em “Hotel Atlântico”, o protagonista é masculino e um tanto nômade, mas sobretudo solitário.

O desajuste em relação ao mundo foi uma marca dos protagonistas dos filmes de Suzana, assim como o hábito de trabalhar adaptações literárias nas quais não buscava a literalidade dos textos, e sim tentava extrair o essencial.

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Um método mais do que compreensível para uma autora que via a câmera como um objeto mágico, por seu poder de captar o que escapa aos olhos habitualmente. E que acreditava na necessidade de nunca fazer duas coisas ao mesmo tempo: um passo de cada vez, um movimento de cada vez.

Essa era sua maneira de escrever: captar recursos, encontrar atores, desenvolver com eles longos diálogos (de três meses para os atores centrais), de levá-los a ser o que ela queria e que eles descobriam.

Uma calma no método que talvez contrariasse seu modo de ser pessoal. Contraste que enuncia esse seu jeito um tanto secreto e não deixa de ser uma ironia final: terá nascido em 1928? em 1932? Com quantos anos morreu? Serão mesmo essas datas corretas? Qual a causa de morte? Que importa? Perdemos a simpática, alegre, talentosa e jovial Suzana.

As informações são da FolhaPress

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