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Literatura

Livro-reportagem sobre tragédia de Brumadinho traz histórias difíceis de contar, diz autor

A obra conta um dos maiores desastre com rejeitos de mineração do país, a partir da investigação da Polícia Federal

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Mariana Fraga
Jornal de Brasília/Agência UniCEUB

“Brumadinho: a engenharia de um crime”. Assim os jornalistas Lucas Ragazzi e Murilo Rocha nomeiam o livro-reportagem sobre o rompimento da barragem da Mina do Feijão, em 25 de janeiro deste ano, que deixou 270 vítimas entre mortos e desaparecidos. A obra conta um dos maiores desastre com rejeitos de mineração do país, a partir da investigação da Polícia Federal, além de entrevistas com especialistas, pessoa envolvidas, vítimas e familiares. O livro também relembra a tragédia de Mariana, que completou quatro anos neste mês, e apontou as semelhanças entre o rompimento das duas barragens de Minas Gerais.  “Esse livro é uma denúncia e um registro histórico de uma tragédia que não podemos esquecer”, disse Ragazzi, em entrevista para a Agência de Notícias.

Você já estava participando da cobertura da tragédia de Brumadinho pelo jornal O Tempo?  De onde surgiu a ideia de transformar a cobertura essa cobertura em um livro?

Eu estava morando em Brasília pelo jornal o tempo como repórter de política. Quando aconteceu a tragédia de Brumadinho. Não pude estar presente fisicamente em todos os dias da cobertura na cidade, mas eu ajudei muito na cobertura fazendo o diálogo com a Polícia Federal para a investigação, para ministério público e com fontes. Em abril, eu estava almoçando com um dos delegados e ele foi contando os bastidores, contando os rumos da investigação e eram coisas que ele pedia para não publicar no jornal ainda porque estava em curso de investigação. Aí pensei: “poxa, isso dá um livro. Tem muita informação boa e coisa diferente da cobertura do dia a dia da tragédia e ele gostou da ideia”. 

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Eu comuniquei ao Murilo Rocha, que na época era o meu chefe e editor executivo do jornal O Tempo, para ser autor do livro junto comigo. A gente tomou um café com o delegado, que na época era o Rodrigo Teixeira, ele era o superintendente da Polícia Federal em Minas Gerais, e a gente fechou essa ideia de fazer um livro-reportagem, contar as histórias da investigação, dia a dia sobre bastidores. Começamos no dia 15 de abril e entregamos o livro no dia 23 de setembro. Foi um tiro curto, madrugadas adentro, madrugadas em claro com muita leitura e muita entrevista, a gente está lançando esse livro reportagem agora e eu estou muito satisfeito com o resultado final.  

Como foi o processo de apuração para a produção do livro?

 A gente passou a acompanhar de perto as investigações, ler relatórios, ler material, fazer muitas entrevistas com os integrantes da Força Tarefa da investigação e foi nascendo aos poucos. Para a gente não ficar muito preso na investigação também, com é um livro-reportagem, a gente fez a nossa própria investigação, a nossa própria apuração. 

Fomos atrás de personagens, vítimas, de familiares, de gente da mineradora, das consultoras. Entrevistamos um professor lá dos EUA, que a TÜV SUD, a consultora da barragem, usou um estudo dele para falar que mesmo a barragem não cumprindo o requisito de segurança, ela era viável. Mas o professor disse de forma exclusiva para a gente que a tese dele nunca afirmou nada sobre fator de segurança de barragem, como a TÜV SUD colocava e essa foi uma apuração que na época a própria Polícia Federal pediu para a gente enviar a entrevista para eles porque eles não tinham conseguido desse professor e acabou que o livro também ajudou na investigação.

Quais foram as  a dificuldades no processo de apuração e escrita do livro? 

Eu cito duas dificuldades que a gente teve. O presidente do inquérito, o delegado Luiz Augusto Pessoa, foi uma das principais fontes do livro e é uma pessoa muito correta, tem que exaltar isso no sentido jurídico, porque a gente teve muito respeito com as informações sigilosas e os segredos de justiça. Então, a gente teve acesso aos documentos, muitas vezes nessa impossibilidade de publicar e como jornalista, é difícil a gente guardar isso do jornal. No entanto, a gente pensava sempre no livro e nessa responsabilidade de apenas ter acesso quando não pudesse embaraçar as investigações, quando não pudesse cometer uma ilegalidade. 

Outra dificuldade foi linguajar técnico. Às vezes, nem só do direito, mas também da engenharia. A gente teve que recorrer não só aos delegados e aos peritos da PF, mas também fontes de fora como engenheiros e especialistas em geotecnia para entender alguns processos, para entender termos que tratavam nos relatórios, nas trocas de emails internos da Vale e da TUV SUD. A gente procurou professores de Engenharia de Minas, de Geologia. Então foi um trabalho de entender para conseguir dar a informação correta, traduzida para que o grande clube entendesse.    

Como foi entrar em contato com os familiares da vítimas ? 

Foi um trabalho muito delicado porque e a gente prezou muito pelo respeito à memória e ao luto dessas famílias das vítimas. Então a gente sempre se aproximava de uma forma e falava: olha, a gente está contando a história desse crime, que vai ser muito importante para o futuro, para a gente contar e não deixar isso esquecer. Mas tiveram familiares que pediram para não participar, ainda dói muito. Teve familiar que se abriu completamente e contou histórias muito trágicas, muito difíceis de ouvir, de contar. Tiveram fontes que choravam de lá e a gente chorava de cá.  

Eu cito uma de uma família que perdeu o irmão e pode enterrar só o pé do irmão. Ela disse: “Meus pais não sabem que é só pé, eles acham que lá estava todo o corpo ali. Mas eu não tive coragem de contar porque eles sofrem muito”. Depois da entrevista, a gente ligou para a pessoa e perguntou se gente realmente podia usar a história no livro já os seus pais dela não sabiam. Mas aí a pessoa responde que sim, que seria importante para entenderem o tamanho da dor dos familiares. Acho que os capítulos que a gente conta essas histórias é até uma homenagem e faz com que a histórias dessas vítimas não seja esquecida e marca o tanto de dor que esse crime causou.

Você contextualiza com o rompimento da barragem de Mariana? Em sua apuração, você identificou semelhanças com as duas tragédias?

A gente abre o livro argumentando: é inaceitável ter ocorrido  Brumadinho, em pouco tempo depois do que ocorreu em Mariana. Os paralelos entre os dois crimes são muito recorrentes, a gente tem que voltar em Mariana muitas vezes. Tem um capítulo dedicado à investigação de Mariana sobre o que aconteceu e a que ponto que está hoje a questão jurídica de Mariana. Como que a Vale atuou depois de Mariana até Brumadinho. Temos capítulos dedicados a isso para entender mesmo um panorama, um cenário completo dessa tragédia de Brumadinho. 

As semelhanças entre os dois rompimentos são incontáveis. A negligência, o sistema de omissão. A administradora da barragem de Mariana era a San Marco, mas era controlada pela Vale e pela Anglo American. As semelhanças são muito grandes, incluindo personagens. O mesmo diretor técnico da barragem de Mariana também atuava nessa mina de brumadinho. O próprio crime também é igual. Eu acredito que a San Marco  os diretores nem foram indiciados por falsidade ideológica, como em Brumadinho foi, mas a gente vê várias semelhanças no processo de licenciamento e gestão daquelas barragens. Eu acho que o livro expõe bem isso para entender como isso aconteceu de novo.    

Por que é um crime?

No processo de produção do livro reportagem de Brumadinho foi importante a gente não ter uma postura de caçar bruxas. É claro que foi um crime que ocorreu e a gente remete a isso explicando como foi esse crime, mas também a gente teve o cuidado de respeitar a investigação, o que prega a constituição e a lei. As pessoas devem ser responsabilizadas por isso como diz a lei, sem exacerbar por coletivismo. Então, é um livro que tem um certo cuidado para não sair fazendo pré julgamentos. A revolta é muito grande, mas a gente também não pode muito externar isso livro.

Não tomamos um lado. Como foi contado pela perspectiva da Polícia Federal o foi indiciado por falsidade ideológica, documentos falso e pelo crime de homicídio, é um título que condiz com a realidade dos fatos. Eles foram indiciados por um crime, não é uma opinião nossa que foi uma engenharia de um crime. É um fato. Se a justiça vai tomar uma ação e vai punir esse crime, a gente não pode dizer, mas foi indiciado pela polícia.


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