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Folhetim "Outro Lugar na Solidão"

Um plantão sem fim

Folhetim – Outro lugar na Solidão – Capítulo 3

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Por: Marcos Linhares, Adriana Kortland e Marcelo Capucci

– Droga! Ontem a gente ficou naquele – “Alô, tá me ouvindo? Vai pra perto do modem! Melhorou? Oi! Vou tentar pelo FaceTime! Que isso? Agora, tá ocupado…” Irritado, cansado, ansioso, Giacomo olhava para o celular quando notou que, depois de três mordidas, havia esbarrado o sanduíche, primeira refeição em 10h, no próprio jaleco.

O chefe da UTI Geriátrica, pessoa pela qual quase todos procuravam para buscar respostas para quase todas as perguntas do hospital, havia perdido a conta das horas extras, dos plantões sucessivos e de todo o esforço para se manter íntegro diante de sua equipe. Aquele misto de experiência e empatia que gerava confiança imediata nos colegas já não colaborava com o crescimento do seu ritmo de trabalho, pois este já não acompanhava o da chegada de ambulâncias. O gerontólogo de formação já não atendia somente os pacientes com os quais tinha contato e pelos quais havia se dedicado a anos e anos de estudos, os idosos. A dinâmica do hospital começava a lhe perturbar, porque, naquele dia, por exemplo, ele perdera a conta de quantos homens e mulheres abaixo dos 60 entubara desde o início do plantão.

– Parabéns, Giaco. É hoje, né? – Disse Téo Silva, com voz abafada, e reconhecido apenas pela simpatia de sempre até no meio daquele caos, devido à quantidade de máscaras, óculos e outros equipamentos de proteção individual que usava. Parecia um astronauta prestes a decolar.

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– Hein?! – Respondeu Giacomo, perplexo, saindo daquela nuvem de pensamentos pessimistas que lhe abatera.

Enquanto esperava que os paramédicos desembarcassem, com muita dificuldade, mais um paciente, desta vez um cidadão obeso de mais ou menos uns 34 anos, dentro da viatura. Téo foi à sala dos médicos para se sentar um pouco. Como tomar água e ir ao banheiro eram as últimas coisas a se fazer antes de ir embora, os profissionais aproveitavam qualquer brecha nos atendimentos para relaxar a coluna ou a cabeça. Para isso valia uma espiadela na TV ou jogar conversa fora. E isso Téo fazia bem, e aproveitou pra continuar:

– A Suzana Fonseca, enfermeira chefe, me disse toda empolgada que há exatamente quarenta anos você começava a sua carreira de médico, bem aqui, um postinho de saúde que foi virando este hospital, bem bacana.

– Ah… nem lembro, respondeu, levantando o cenho, sem tirar os olhos do celular.

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– Depois de um plantão desses, ninguém lembra, né, Dr.?! Mas, parabéns! Somos o que somos também por causa das brigas que comprou… e a gente sabe…

– Obrigado. Mas devo agradecer a vocês, jovens médicos, que nos ajudam a oxigenar a profissão com sua postura, dedicação, tecnologia…

Téo encarou o elogio como mais um daqueles incentivos. Afinal de contas, o médico mais experiente do hospital entrara naquele ambiente mais novo que ele, que acabara de comemorar suas 26 primaveras.

– Um abraço!

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Giacomo recebeu os cumprimentos do colega sem grande entusiasmo. Ele não sabia direito se estava gostando de comemorar 40 anos de Medicina em 64 de vida. Mas olhou por cima dos óculos o colega que voltava para o plantão e refletiu:

– Realmente, são muitos anos de entrega, e esse rapaz me fez lembrar do meu tempo de residência nesse tal postinho de saúde. Espero que ele consiga uma carreira tão longeva. Parece fazer por merecer. Mas, enfim…

A reflexão o trouxe de volta à realidade e ele precisava comprar outra briga: a falta de EPIs e insumos em sua ala. Segurando o celular, colocou a máscara no rosto com apenas uma das mãos, mastigando a última batata, quando o telefone tocou… Era ela… Um retorno inesperado.

Atendeu e antes de emitir um tímido “alô”, foi interrompido pelo Diretor da Unidade Pública de Atendimento Médico, o Engenheiro de Produção, Pablo Fukushima, que entrou na sala dos médicos berrando seu nome:

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– Giacomo, Giacomo… que história é essa de escala na UTI? A recepção do Pronto Socorro tá cheia de socorristas e não temos nem macas pra receber os pacientes porque você dispensou os funcionários antes mesmo de desocuparem as macas com os doentes que chegaram mais cedo nas ambulâncias.

O Dr. retirou calmamente a sua máscara, expondo os ferimentos nos malares, causados pelos óculos de proteção instalados no seu rosto, bateu o telefone abruptamente sobre a mesa e disse:

– Primeiro, os liberei porque já estavam trabalhando há 16 horas. Segundo, não desocupamos as macas porque é desumano colocar pessoas no chão… Agora, colocar pessoas sobre outras que já estão no chão, que já está lotado, é insanidade. E terceiro, saia da minha frente porque preciso atender meus pacientes.

Ao mesmo tempo em que Giacomo saía furioso, Suzana Fonseca, a chefe da enfermaria central, entrou no refeitório, sorridente, pronta pra dar um abraço de “parabéns” quando foi ultrapassada pelo médico que saiu se paramentando com seus EPIs. Fukushima começou a escrever para o prefeito, Giacomo Modena Brecchia, pai do médico desaforado que o deixara falando sozinho no minúsculo refeitório.

Suzana não disse nada, mas olhou fixamente para o gadget esquecido. Enquanto isso, o chefe encobria o teclado do seu telefone, escrevendo:

“Precisamos falar pessoalmente. O número de luvas não deu nem para o gasto. Seu filho tá uma arara, e não consigo mais esconder esse pepino. Preciso falar com o Sr. e com o idiota do Jamil o mais rápido possível! 09:00h?”

Fukushima saiu sem se despedir, e Suzana não segurou a curiosidade, despudoradamente chegou mais perto para dar uma espiadela no celular que ficara abandonado sobre a mesa:
Nonata: Boa noite, Giacomo. Que triste! O que é isso? Quem é ele?

Giacomo: Gostaria de conversar um pouco com você. Tem tempo?

Seu coração disparou de ciúmes e ,antes que fosse convencida pelo desejo de pegar o aparelho para ler mais, Giacomo voltou a tempo de guardá-lo no jaleco, dizendo:

– Desculpe-me pelo mau jeito, Suzana. Esse tal Fukushima me tira do sério. Obrigado pelas congratulações. Você também é responsável por meu sucesso aqui.
Apressado, Giacomo recolocou a máscara e ao dar as costas ouviu:

– Quem é Nonata?

CONTINUA NA PRÓXIMA TERÇA-FEIRA


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