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Folhetim "Outro Lugar na Solidão"

Folhetim “Outro lugar na Solidão”: Entrevista com Marcos Linhares e Marcelo Capucci

Confira a entrevista com os escritores do folhetim “Outro Lugar na Solidão”

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“Os Três Mosqueteiros” ou “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. “Engraçadinha”, de Nelson Rodrigues. Com a humildade de saber que é impossível se unir a esses clássicos da literatura universal, o Jornal de Brasília, pelo menos, tem a pretensão agora de se unir a eles no gênero literário. Essas obras citadas foram originalmente lançadas como folhetins. Um tipo de literatura que estava esquecida, mas que, neste peculiar ano de 2020, no meio da pandemia da covid-19, o JBr resolveu reeditar.

O folhetim “Outro Lugar na Solidão”, escrito por Marcos Linhares, Marcelo Capucci e Adriana Kortland, teve seu último capítulo publicado ontem nas páginas do jornal. Com muito orgulho, o JBr trouxe de volta o gênero, com uma história atual, que mistura todos os ingredientes do drama do novo coronavírus a uma história de amor entre um casal de médicos maduros. Na entrevista abaixo, dois de seus autores falam da experiência do ressurgimento do folhetim:

Como foi a experiência de escrever nas páginas de jornal um folhetim?

MARCOS LINHARES – Foi uma experiência para nós muito emocionante. Retomar, como bem disse o Jornal de Brasília, “uma novidade de 200 anos”. E não consigo entender por que parou. E, neste momento de reinvenção dos jornais impressos, quem sabe não seja um bom caminho. E o processo nosso foi uma coisa fantástica. A gente tinha uma base, a gente planejou as grandes cenas do folhetim, mas, pelo caminho, aconteceu o que já era de se esperar: certos personagens foram ganhando um contorno dramático maior e outros acabaram não trilhando o caminho esperado, acabaram não tendo um impacto maior. E a gente foi construindo a história com uma preocupação em fazer ali uma ficção que dialogava com a nossa realidade. Então, a gente tem ali tudo o que está acontecendo agora. Havia uma preocupação em tornar tudo verossímil.

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Quando, por exemplo, tem um momento em que vai ser dado um tratamento ao personagem que no início da história filma o seu próprio drama com a covid-19, que faz uma live mostrando esse drama, quando ele está se recuperando, a Suzana, que é enfermeira-chefe do hospital, ela vai prestar o atendimento e tem a preocupação de dialogar com a irmã, que é fisioterapeuta, e passar os exercícios pós-pandemia que ela vai fazer. Então, a gente teve a preocupação de pesquisar isso junto aos fisioterapeutas para mostrar efetivamente quais são os exercícios que têm que ser feitos. Então, houve todo um trabalho de não fazer de maneira apressada, apesar de ter prazos, compromissos, com o tamanho que a gente dispunha da página do jornal. Também quando tratamos de investigação policial, do devido processo legal, em relação à prática de perícia forense, em relação a prazos processuais. Foi tudo isso muito pensado. A gente tinha prazos, tinha que entregar, mas a gente tinha também que fazer um trabalho que respeitasse a inteligência do leitor.
E a história, além disso, trata também um amor mais maduro, entre pessoas mais velhas…

MARCOS LINHARES – Isso também foi maravilhoso. Duas pessoas que se entregam para o amor no meio desse drama todo. E que conseguem enfrentar as suas mazelas. Todos nós temos grandes mazelas familiares. Aqui e acolá, a gente é marcado por isso. Então, há várias reviravoltas durante o decorrer do romance. E é muito interessante como a gente tem de tudo um pouco. Não tem só dor, tem amor, tem descoberta. Foi muito bacana.

Essa não foi a primeira experiência de escrita conjunta de vocês, certo?

MARCOS LINHARES – Na verdade, já é a quarta experiência. Nós agora vamos retomar um projeto que tínhamos parado para escrever “Outro Lugar na Solidão”. Trata-se de um romance sobre Maria Firmina dos Reis, que é considerada a primeira mulher brasileira a publicar um romance, uma negra do Maranhão, uma grande escritora, personagem fantástica. E a gente está construindo uma trama que se passa no passado e no presente em que Maria Firmina é nossa personagem principal. E aí a gente traz questões atuais, como feminicídio, questões indígenas. A gente já começou a escrever, e as discussões estão bem acaloradas.

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Como se deu a construção do trabalho? Os capítulos eram feitos em conjunto?

MARCOS LINHARES – Alguns, eu escrevia. Outros, o Capucci. Outros, a Adriana. Outros foram escritos em conjunto. O Capucci é muito bom na questão da continuidade. Para alertar que antes havia sido dito isso, que precisava agora ser coerente ao que fora dito antes. Debatíamos os três para botar a história de pé. Um mandava, o outro mexia. O outro complementava. Um outro discordava. Então, um exercício também muito legal de construção coletiva. Não era um texto meu, era um texto nosso. Mas, no final, sempre que entregávamos o capítulo, estávamos os três satisfeitos. E uma outra coisa legal é que nas nossas redes sociais, nós colocamos músicas, o Marcelo Capucci é músico, então trazia essas músicas que foram criando uma trilha sonora para o folhetim. E ele se apaixonou por uma das personagens, a Suzana, que tinha a identidade secreta de Crystal. Ele se encantou pela Crystal. Se tivesse mais uns quatro capítulos, a Nonata ia perder o posto de protagonista…

Uma das coisas mais interessantes é que a atualidade, o noticiário que estava nas demais páginas do jornal se encontrava também naquela página de ficção. Histórias de corrupção na saúde, negação da covid-19, os dramas familiares. Era grande mesmo essa preocupação de contar uma história possível dos nossos tempos?

MARCELO CAPUCCI – Em primeiro lugar, é preciso agradecer muito ao Jornal de Brasília por essa oportunidade. Primeiro, pela importância de nutrir uma cultura literária. Então, ter tido o espaço do Jornal de Brasília para publicar um texto nessa extensão, é fantástica. E já é o nosso quarto trabalho juntos. Mas houve alguns aspectos importantes com relação a esse trabalho. Primeiro, escrever dentro de um formato que tinha alguns compromissos. Havia um espaço que precisava ser respeitado, um número fixo de caracteres para cada capítulo. Um prazo para entregar. Isso ajudou a consolidar uma quarta linguagem entre nós três. Não é fácil escrever a seis mãos. Acho que com “Outro Lugar na Solidão”, a gente conseguiu consolidar uma linguagem. Eu fazia esse trabalho de dar continuísmo à narrativa e, em muitos momentos, eu não sabia quem tinha escrito determinadas passagens. Talvez a gente faça mesmo depois uma versão estendida, aprofundando algumas histórias, alguns personagens. Mas sobre a conversa com a realidade, a gente não queria ali naquela página ser o noticiário. O nosso foco era uma história de amor, de médicos idosos que estão ali enfrentando a pandemia e, ao mesmo tempo, enfrentando seus dragões particulares. Veja a Nonata, uma mulher de 64 anos, e linda, lindamente descrita pela Adriana nas cenas de amor. Fica um legado muito importante, de um jornal que se interessa pela formação de plateia e pela força que tem a leitura no nosso país e um legado de uma história.

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Ao final, não sabemos lá o que irá acontecer com a pandemia…

MARCELO CAPUCCI – A gente não deu fim lá à situação do coronavírus. A gente não sabe o que vai acontecer. Ao final, eles já discutem lá três anos depois ainda estudante e se movimento em torno dessas questões. E a gente sabe que há outros vírus por aí. Há 300 mil vírus não catalogados no planeta. É uma loucura! E a gente está exposto a isso tudo. A gente espera que tudo isso passe…

Um folhetim é uma novela. Talvez seja o avô da telenovela. E, como acontece nas novelas, as histórias inicialmente imaginadas vão sofrendo modificações ao curso de quando elas vão sendo escritas. Isso aconteceu?

MARCOS LINHARES – Aconteceu muito. A gente recebeu algumas cobranças de leitores para crescer determinadas histórias. Uma escritora aqui de Brasília, Débora Bianca, pediu, por exemplo, que a gente não matasse o rapaz que faz a live com o enterro do irmão e com seu próprio drama no primeiro capítulo. E a ideia inicial não era voltar a ele. Ele entraria ali somente mesmo no início para pontuar o drama. E, com o pedido da Débora, nós voltamos a ele depois. E ele simbolizava milhões de brasileiros que estavam desamparados. Crescemos também o personagem do Téo, um garoto que vence um monte de adversidades, um médico negro, que entrou na universidade por meio de cotas, que simbolizava a importância de a gente não ser omisso. As pessoas vão vendo os mal feitos e se acomodam. A parte policial também foi ganhando um contorno que a gente não previa no início. Tanto que, uma hora, a gente teve mesmo que dar uma parada: espera, e a história de amor?

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A história completa vai prosseguir nas páginas do site do Jornal de Brasília. Mas, além disso, vocês já começaram a pré-venda do livro?

Sim. Teremos a edição digital e impressa, fiel ao que saiu no jornal, que vamos lançar nos próximos dias. A edição digital você acha no site escritoresbrasileiros.com.br. E, na sequência, vamos publicar a edição impressa. E iremos preparar depois uma edição maior, em que aprofundaremos as tramas, as histórias, os personagens.

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