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Folhetim "Outro Lugar na Solidão"

Cuidado, desvio!

Folhetim – Outro lugar na Solidão. Capítulo 6

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Por Marcos Linhares, Adriana Kortland e Marcelo Capucci
Especial para o Jornal de Brasília

Uma chuva fina caía na madrugada quando o motorista do caminhão viu a camionete do ano dando seta pra entrar num matagal. Ele achou estranho, mas como recebera ordens para acompanhar o carrão logo na entrada da cidade, não discutiu.

Quase atolando em meio à soja úmida, apagou as luzes, desceu da boleia, caminhou com dificuldade até a traseira do 3X4 e abriu os cadeados da carroceria, observando o cara com jeitão de capataz ordenar:

– Rápido, rápido. Vamos tirar um pouco menos que a metade e levar direto pra cidade vizinha… O prefeito já recebeu o mesmo valor por 50% dessas máscaras!

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Ensopado pela garoa, o mesmo homem, que usava camisa de seda florida com botões abertos, que expunham vários cordões de ouro, trouxe um envelope para o motorista.

Sem levantar o olhar, disse:

– Entrega esse envelope pro seu patrão e não se esquece de pedir sua parte, que já tá aí… Esquece tudo que viu e ouviu aqui hoje, ok?! Diz pra ele que o Jamil mandou agradecer. Tchau!

Sem olhar para trás, Jamil deu partida e, ao ligar o rádio, teve os tímpanos quase perfurados pela canção que tanto lembrava Layla: “Perfídia”, na versão de Altemar Dutra. Era uma das poucas músicas genuinamente brasileiras que o descendente de árabes escutava com frequência. Normalmente cantarolava músicas na língua de seus ancestrais, mesmo sem conhecê-la e sem saber o que falava. Para ele, um sujeito simples do interior, cada compasso daquele bolero fazia renascer em sua memória os melhores momentos de sua vida.

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Ele dirigia e viajava no ritmo da canção, até que seu telefone tocou, denunciando a face do Diretor do Hospital Municipal em sua touch screen. Era Pablo Fukushima:

– Jamil, já está com a carga?

O capanga do prefeito respondeu sem abaixar o som:

– Tudo em ordem e a caminho, Doutor.

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Sem delongas, desligou o aparelho e aumentou o som, arrepiando-se da cabeça aos pés, sem saber se era pelo frio da noite chuvosa ou pela lembrança das inúmeras vezes em que teve aquela mulher em seus braços e aquela música em seus ouvidos:

“Amei… como ninguém te amou, querida
De ti o menor gesto adorei
Esquecido da própria vida
Perfídia… mandaste em troca, não esqueci
Das rosas, das orquídeas e das violetas
Que eu dava a ti
Distraída no ambiente luxuoso
Em que sempre vivias
Tu deixaste que murchassem minhas flores
Meu buquê de fantasias.

E agora… que adoras a quem te magoa
Perdoa pelo bem que eu te quis
Perdoa e serás feliz… feliz.

Parou no acostamento da estrada deserta e ficou ali por um tempo, ouvindo a música e imaginando sua presença quente.

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Layla, por sua vez, sempre se recusou a escutá-la ao seu lado. Ela detestava melancolia. O momento com ele tinha uma única finalidade, a de esquecer o mundo, o casamento arranjado, as máscaras e trejeitos que colecionou durante a vida de casal, de primeira dama, de mulher fina, e toda a esteira de compromissos que acumulou apenas para sustentar imagens.

Jamil era o oposto de seu mundo. O tosco neto de imigrantes libaneses, que mal sabia localizar a pátria ancestral no mapa, que falava errado e se vestia mal, cujo primeiro perfume na vida tinha sido ofertado por ela, exatamente aquele homem — que ironia da vida! — reunia as qualidades que a faziam feliz. Como era bom se aninhar em seus braços, sentir o desejo puro por cada poro, ser amada sem pudor, e fazê-lo igualmente. Além de sua pele de ímã, Jamil tinha uma intuição animal que a excitava. Ele não precisava de muito discurso ou entendimento. Jamil observava pessoas, animais, cenas, e não falava nada. Nenhuma troca. Ele silenciava o vivido para depois dizer exatamente o que estava acontecendo. E acertava. Seu estar (selvagem) no mundo a fascinava. Ser a sua eleita era o especial da vida. Ser a sua eleita na cama, degustar sua paixão era o eterno. Por isso, quando aquela música infernal jogava em sua cara a mais crua verdade: ela era aquele texto!, Layla se desfazia em culpabilizações. Detestava ser como era, mas era! E, quanto mais tinha certeza de que nunca deixaria seu marido por Jamil, mais detestava a música que a revelava cristalinamente; por acaso, a preferida de seu amante. Por ter certeza de que tudo ficaria como estava, ela se desmanchava na cama, para que ele nunca partisse, ou pior, a trocasse por outra.

Muito do romance era vivido na imaginação dos dois. Os encontros eram raros. Havia tanta coisa a planejar, esconder, disfarçar e tudo tinha que ser perfeito. Giacomo não perdoaria qualquer traição, ainda mais com seu capataz de estimação.

No começo do romance, quando ainda era jovem, Jamil chegou a sonhar que ela talvez se separasse, enviuvasse e o elegesse publicamente como seu marido. Com o passar do tempo, quando entrou nos meandros da família Brecchia, ele se deu conta do ridículo de seus sonhos. Ela jamais se rebaixaria à sua classe social. Depois de várias tentativas frustradas de deixá-la – e a saudade doía –, Jamil compreendeu que seria impossível, mesmo na idade avançada em que ela estava.

Altemar atacou:

“Distraída no ambiente luxuoso em que sempre vivias,
tu deixaste que murchassem minhas flores…”

CONTINUA NA QUINTA-FEIRA


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