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Cinema

Mostra “Cinema Urbana” começa nesta terça-feira (8)

Mundialmente reconhecida por seu plano urbanístico e edificações modernistas, tombados pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade, Brasília é sede de segunda edição brasiliense de mostra internacional de filmes de arquitetura

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Com o tema “Memórias em Construção”, Cinema Urbana, nesta edição, tem por objetivo promover o debate acerca da noção do patrimônio e dos processos de construção da memória na sociedade contemporânea. Fluxos migratórios, turismo em massa, aumento da população nos centros urbanos e novas formas de sociabilidades permeiam as narrativas dos filmes selecionados.

O evento, que acontecerá de 8 a 12 de outubro de 2019, vai ocupar o Cine Drive-in, os Institutos Federais do Recanto das Emas e de Samambaia e, no Setor Comercial Sul, o Museu Correios, o Corredor Central e a CAL – Casa da Cultura da América Latina da UnB. Além da exibição de filmes, serão realizados painéis temáticos, palestras com pesquisadores [brasileiros e estrangeiros], e intervenções artística e urbana em espaços públicos, tudo com entrada franca.

A escolha do Setor Comercial Sul, como área para a realização das principais atividades da programação, além de emprestar ao projeto uma identidade singular, “se deu por potencializar a reflexão sobre a cidade, ao possibilitar diferentes propostas e vivências da urbanidade brasiliense”, ressalta Liz Sandoval, diretora artística da mostra.

Dos mais de 500 filmes inscritos, de 55 países além do Brasil, ficou a cargo da curadoria a escolha dos 63 longas e curtas-metragens a serem exibidos. “A quantidade e a qualidade surpreenderam os curadores e demonstram o interesse nessa interface entre arquitetura e cinema”, aponta Liz. A orientação curatorial quis trazer um repertório amplo do cenário urbano mundial.

Serão apresentados, entre convidados e selecionados, documentários, ficções e experimentais, filmes que falam sobre as sobrevivências de povos, lugares, memórias, desejos, formas de vida e de sonhos”, comenta Liz. Dos selecionados, 57 participarão de sessões com caráter competitivo e os vencedores, anunciados no encerramento, receberão troféu cedido pela Fundação Athos Bulcão.

Com a realização do projeto, detalha Liz: “afirmamos nossa crença na potência do cinema em apresentar as cidades em narrativas que compõe o imaginário e formam o conjunto de suas memórias”. Entre os selecionados para a mostra competitiva, convidados e homenageados, Cinema Urbana exibe paisagens que, no seu conjunto, apresentam a pluralidade dos espaços do mundo, lugares que pouco vemos e pouco sabemos a respeito”

Para estreia da programação da mostra, no Museu Correios, dia 8 de outubro, Cinema Urbana presta homenagem a um dos artistas ícones da Capital Federal, ao exibir o curta Athos. Com roteiro e direção de Sergio Moriconi, o documentário apresenta vida e obra do artista visual Athos Bulcão.

Uma segunda personalidade das artes, também homenageada, e que, igualmente ao anterior, faz do centro urbano de Brasília um museu ao céu aberto é Burle Marx. Para ele, a mostra reservou uma sessão especial dia 10 de outubro (quinta-feira), às 21h, no Cine Drive-In – parceiro desta edição da Mostra e por ela reverenciado – quando será exibido o documentário “Filme Paisagem – Um Olhar Sobre Roberto Burle Marx”, de João Vargas Penna. O média-metragem faz passeio pela arte e personalidade do paisagista, pintor e escultor Roberto Burle Marx, que apresenta suas ideias e lembranças numa sucessão de paisagens sensoriais. O filme ficará em cartaz por uma semana no Drive-In.

“Ao lançar o tema e provocar a discussão a respeito do patrimônio e da memória, fomos, de fato, surpreendidos pela urgência do tema da sobrevivência. Na programação, há exemplos de vários modos de sobrevivência. The Hive (Polônia, Jeremi Skrodzki, 2018) mostra uma comunidade que vive da terra e de seu cultivo numa área verde que resiste no centro de Varsóvia. As reconstruções e os novos usos dados aos edifícios abandonados ou destruídos aparecem em Reko City (Alemanha, Jörn Staeger, 2017) e em Dreaming Squares (Irlanda, Paddy Cahill, Shane O’Toole, 2018).

A sobrevivência é a tática para superar as precariedades das condições de vida em cidades imensas, mostrada na série Born and Raised in the Ghetto (Johan Mottelson, 2018) e na Índia, em Abridged (India, Gaurav Puri, 2019), que nos mostra como a população ocupa e vive os espaços sob as pontes e viadutos. Sobrevivências também são um modo de imaginar ficções nos gestos cotidianos, vistos em Cabeça de Rua (Brasil, Angélica Lourenço).

A necessidade cada vez mais crescente no mundo contemporâneo de uma tomada de partido, as escolhas limitando-se a somente duas opções, num apagamento da sutileza e da hesitação, é trazida em Aporia (Itália, Salvatore Insana, 2019), filme experimental que investiga o momento da hesitação, e seu reflexo no corpo inserido num espaço genérico.

Para dar luz à produção em linguagem experimental, mais relacionado à vídeo-arte, o projeto realiza a Cabine Urbana na Galeria de Bolso da Cal/UnB. Exibidas em looping, sessões acontecem das 14h às 19h, todos os dias da mostra, em uma estrutura distinta da sala de cinema. “A intenção é provocar outros modos de ver cinema, de maneira a transformar a fruição do espectador”, sugere a diretora artística.

Cinema Urbana, em seu escopo geral, traz o debate sobre valorização da memória na construção de uma identidade coletiva e que estimule a preservação do patrimônio [arquitetônico e cultural] e da cidadania. Com isso, e após análise do material recebido, a organização chegou a quatro painéis temáticos de debates, sendo: Esquecimentos e afloramentos das ruínas nas cidades, Im/Ex-pressões do corpo urbano, Memórias que se constroem para lembrar ou para exibir; e Deslocamento e pertencimento, no vazio ou no caos.

Concomitante aos debates, acontecem apresentações de 25 trabalhos, entre projetos de arquitetura e artigos científicos, dos mais de 50 submetidos à seleção de um comitê científico. Este formado por professores-pesquisadores da UnB, UFRJ, UFRB e da FAUP (Universidade do Porto, em Portugal). A intenção é “ampliar o acesso ao saber arquitetônico e urbanístico, usualmente tão restrito às salas de aulas”, explica Liz.

Ainda, atrelada à vasta programação dedicada à produção cinematográfica e vertentes, o Coletivo Transverso traz para Cinema Urbana sua Visita Sonora. Uma experiência imersiva por ruas, becos e praças do Setor Comercial Sul. Participantes, guiados por um mapa, transitam pelo local e são surpreendidos por áudios, transmitidos via fone de ouvido, enquanto são levados a observar detalhes da paisagem urbana, por muitos pouquíssimo explorada. A visita acontece em um horário não comercial, portanto, quando o SCS está vazio de sua habitual agitação cotidiana. Patrícia Del Rey, integrante do Transverso, arrisca dizer que se trata de um “cinema urbano imersivo onde a personagem, no caso o participante, está presencialmente inserida na cena”.

Um dos destaques da edição 2018 e que “não poderia deixar de voltar neste ano”, assume Thay Limeira, diretora geral do projeto, é a sessão ao ar livre que desta vez ocupa o Corredor Central da quadra 04 do Setor Comercial Sul, lugar de grande movimentação popular. Para a realização desta sessão, ações de mobilização estão sendo feitas em parceria com Coletivo MOB e No Setor, criando diálogo com a comunidade local.

Essa ocupação prevê a construção de mobiliário urbano, na parceria com o IFB campus Samambaia, para compor a sala de cinema ao ar livre. A sessão exibirá uma programação de curtas-metragens e acontece na sexta-feira, 11 de outubro, a partir das 19h, com entrada livre.


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