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Cidades

Rede de colégios passa do seu auge à crise profunda

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Manuela Rolim
Especial para o Jornal de Brasília

A ascensão meteórica da rede Alub, que começou como cursinho pré-vestibular e chegou ao ensino regular, deu lugar a um cenário de dificuldades financeiras. A realidade atual de um dos colégios mais conhecidos do DF é marcada por quadro de funcionários reduzido, pagamentos atrasados e professores e alunos insatisfeitos.

O sucesso da instituição teria desandado pouco tempo depois que o presidente do grupo, o carioca Arthur Mário Pinheiro Machado, foi preso pela Polícia Federal em abril do ano passado. O empresário foi detido no âmbito da Operação Rizoma, um desdobramento da Lava Jato, que investigava crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção por meio de fraudes que geraram prejuízos aos fundos de pensão. O esquema gerou, pelo menos, R$ 20 milhões em propinas.

Desde então, o Alub vai de mal a pior. O cursinho tem cinco unidades abertas nas asas Sul e Norte, Taguatinga, Ceilândia e Gama. Segundo um professor de uma das escolas, que prefere o anonimato por medo de represálias, a situação da empresa é crítica. “Tudo começou a desandar no segundo semestre de 2017, quando Arthur comprou o Alub. Ele é um investidor e está usando a empresa como fachada”, afirma o professor, funcionário do local há pouco mais de dois anos.

Segundo o docente, os problemas são diversos. “O número de alunos despencou, o valor da hora/aula está estagnado e 30 professores foram demitidos em dezembro do ano passado e não receberam a rescisão contratual. Muitos estão brigando na Justiça pelos seus direitos”, relata. Segundo ele, a proposta feita pela empresa foi dividir o pagamento da rescisão, com a primeira parcela somente para abril deste ano. “Isso é um absurdo, sem falar do assédio moral e das perseguições que estão havendo lá dentro”, acrescenta.

Ainda de acordo com ele, em agosto de 2017, a folha de ponto foi alterada sem aviso prévio. “Antes, a folha era contabilizada do dia 1º ao dia 31, mas, de repente, passaram a fechar a partir do dia 15. Com isso, ficamos sem receber os 15 dias trabalhados em julho do ano passado. Até hoje, não vimos a cor desse dinheiro. Além disso, o pagamento das férias dos funcionários também está atrasado, assim como o nosso FGTS”, conta.

Falta material básico

A dificuldade financeira também afeta os estudantes, destaca o professor. “Falta copo, papel higiênico, cartolina e todo o tipo de material básico para trabalhar. Tem que sair do nosso bolso. Não temos recursos para dar aula. É claro que os alunos sentem a diminuição da qualidade”, afirma um professor.

Ele garante que a indignação é unânime. “É um desrespeito total com o professor e com os alunos. Para a empresa, somos um boneco. O dono não tem nenhum compromisso com a educação, o compromisso dele é com a corrupção”, dispara.

O professor de física George Casanova, 29 anos, já não faz mais parte do quadro de funcionários do Alub. Ele foi demitido no dia 19 de dezembro de 2018, depois de dar aula em todas as unidades da rede. Hoje, está desempregado. “Quando fui dispensado, me oferecem uma proposta vergonhosa, com valores muito abaixo do que eu deveria receber. Obviamente, não aceitei o acordo e, agora, vou procurar a Defensoria Pública. O próprio coordenador me confessou que existem vários CNPJs pendurados no grupo”, conta.

George questiona ainda os motivos apontados pela empresa para a demissão: falta de assiduidade e de pontualidade e indisponibilidade de grades. “Isso foi o que o Alub disse para justificar o desligamento, mas não condiz com a realidade. Tive apenas uma falta e foi justificada. Além disso, na ausência dos meus colegas, era sempre eu quem cobria. Tenho certeza de que a demissão foi por caráter político. Eu não era bem quisto pelo coordenador porque votei diferente dele”, relata o professor.

Versão Oficial

A rede Alub enviou nota ao JBr. Confira na íntegra: “É fato conhecido a situação econômica por qual passa o Brasil. Apesar dos sobressaltos econômicos, a Rede Alub continua transparente, ética, com bases de ensino cada vez mais sólidas para enfrentar qualquer que seja a dificuldade. Foram esses alguns dos atributos que construíram a história da Instituição e serão estes os atributos que ajudarão o Alub a continuar oferecendo ensino de qualidade aos brasilienses. Estamos reestruturando a Rede Alub, diminuindo custos, revendo estratégias, olhando para dentro de nós e melhorando a eficiência, tornando a empresa viável de novo. Somos a maior referência em preparação no Distrito Federal, mesmo com as mudanças implacáveis do mercado. Nesse processo, às vezes, precisamos nos despedir de antigos amigos e grandes apoiadores em vários setores. Não é fácil, dói, mas é necessário. Temos uma responsabilidade com as centenas de famílias para assegurar que o sonho de cada uma delas persista. Esse é o nosso objetivo. A nota é mais de pesar que de explicação, pois sabemos que nesse processo ficam mágoas. Mesmo assim, só podemos ter um coração cheio de gratidão e apreço pelos trabalhos prestados pelos amigos que saíram. Em suma, estamos fazendo uma releitura profunda e precisamos assegurar que os que ficaram terão um empresa sólida e confiável”.

 


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