Manuela Rolim
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“O que tenho que fazer para as pessoas me deixarem em paz? Tenho que ser evangélica? Tenho que me vestir de homem? Como eu tenho que me comportar para não apanhar ou passar vergonha na rua? Não quero mais ser agredida simplesmente por existir”. O relato é da travesti Natalha Silva Nascimento, pouco mais de um mês depois de ser espancada na Rodoviária do Plano Piloto. Aos 33 anos, a autônoma e professora de matemática foi vítima de um funcionário da pastelaria Viçosa na época.
Esse é o quarto caso de agressão física e psicológica registrado desde o início do ano, segundo a Secretaria de Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedestmidh). Ainda de acordo com a pasta, no primeiro trimestre de 2017, o número de ocorrências de injúria preconceituosa sobre sexo e gênero chegou a 27. No mesmo período do ano passado, foram 16 casos.
Moradora da Estrutural, Natalha conta que o fato ocorreu na madrugada do dia 26 de abril, por volta das 5h. “A agressão verbal já vinha acontecendo. Toda vez que eu passava pelo local ouvia piadinhas dos funcionários. Cheguei a acreditar que eles iam cansar um dia, mas não”, lembra.
No dia da confusão, a professora estava à espera de um ônibus para casa. Diariamente e sempre no mesmo horário, ela passava pela rodoviária depois de mais um dia de trabalho. Quase sempre, ignorava as provocações dos funcionários da pastelaria, mas resolveu questioná-los naquele dia. “Me revoltei e fui tirar satisfação. Estava esgotada, no meu limite. Perguntei por qual motivo faziam aquilo. Um deles se escondeu atrás da máquina de fritar pastel e outro me disse ‘jogo piadinha quantas vezes eu quiser, seu viado'”, conta Natalha.
Em seguida, ela reagiu cuspindo no rapaz. “Ele disse que ia me bater e veio. Deu um soco no meu rosto que me derrubou no chão. Quando puxou meu cabelo, não tive mais forças para me proteger. Recebi vários chutes e fiquei com o corpo todo roxo e inchado. Meu peito está dolorido até hoje”, lamenta. Natalha acrescenta que pessoas a defendiam, em especial moradores de rua. Por outro lado, muita gente ria enquanto era espancada.
Segundo ela, um mendigo a levou para o ônibus, mas ela fez questão de voltar à Viçosa. “Não tinha como deixar o episódio passar em branco. Comprei um café para o morador de rua que tinha me ajudado e escutei o mesmo funcionário dizer ‘eu vou te matar, seu viado desgraçado. Vou arrancar sua cabeça’. Nesse momento, o gerente apareceu e perguntou o que eu estava fazendo ali. Imediatamente, o mendigo me tirou de lá”, disse.
Dentro do coletivo, Natalha teve que enfrentar outro desafio: o julgamento dos passageiros. “Minha roupa estava rasgada e suja. Cheguei em casa e me tranquei. O sono não veio e a fome não chegou. Tampouco fui trabalhar. Um vazio tomou conta de mim. Só tive coragem de procurar a delegacia dois dias depois “, conclui.
Saiba mais
- Um protesto está marcado para o próximo sábado, por volta das 15h, na Viçosa da Rodoviária. Além disso, uma audiência pública também foi marcada para o dia 3 de julho com todos os envolvidos no caso.
- Sobre a ocorrência da Natalha, a delegada-chefe Glaucia Cristina da Silva, da Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual ou contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência, afirma que a 5ª DP instaurou termo circunstanciado, encaminhado à Justiça. Provavelmente, o acusado foi autuado por lesão corporal, pois a Lei 2.15/98, que tipifica a homofobia, até hoje não foi regulamentada.
Caso registrado na 5ª DP
Natalha registrou ocorrência contra D.C.A, de 21 anos, na 5ª Delegacia de Polícia (Área Central). “Depois de muito refletir, percebi que não tinha motivo para me esconder. Não tinha feito nada contra ninguém, não tinha matado, agredido, roubado e ferido ninguém. Fui tão bem tratada pelo policial que me senti um ser humano de novo”, afirma. Ela também fez exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML).
Essa não é a primeira vez que a professora foi vítima de preconceito. “Meu corpo carrega várias marcas”, afirma. Em 2013, ela teve os pulsos cortados com faca por um aluno de 16 anos. Na época, a professora morava em Águas Lindas de Goiás (GO). “Ele ligou pedindo ajuda. Disse que não tinha para onde ir e eu o coloquei dentro da minha casa. Enquanto eu fazia a comida, ele pegou uma faca e disse para eu deitar no chão. Eu reagi e me cortei feio. Depois de muita luta corporal, consegui ajuda do vizinho. Passei um tempo internada e me mudei para o DF por medo”, lembra.
Agora, a professora adotou outra postura. “Eu não nasci para apanhar, não vou me calar mais. Desejo que a Rodoviária seja um ambiente de paz e que esse funcionário se eduque para o mundo atual. Espero que a justiça seja feita. Se eu tivesse errada, estaria presa com certeza”, conclui.
A agressão chegou ao Conselho Distrital de Promoções e Defesa dos Direitos Humanos. Segundo o representante do órgão, Michel Platini, ontem foi realizada uma reunião com os proprietários da pastelaria. “Seis propostas foram apresentadas aos donos. Umas delas pedia um curso de formação para os funcionários da marca, inclusive com a presença da Natalha. No entanto, não conseguimos avançar nesse sentido. Estamos chocados com o caso”, afirma.
Funcionário foi demitido pela Viçosa
O Conselho de Direitos Humanos trouxe ainda dados de pesquisa realizada pela Ong Estruturação. Segundo o representante Michel Platini, no ano passado, houve queda de 20% no número de casos de preconceito. Ainda assim, o cenário é assustador. “Mais de 51% da população LGBT disse que já sofreu algum tipo de discriminação física e verbal”, destaca Platini.
O coordenador de diversidade LGBT da Sedestmidh, Fávio Brebis, ressalta outros três casos registrados este ano. “Um rapaz gay foi ofendido em um ônibus e duas meninas lésbicas agredidas em uma festa. Essa fobia precisa ser exterminada da sociedade. As pessoas não vão voltar para o armário. O respeito vem acima de tudo”.
Procurada pelo Jornal de Brasília, a Viçosa afirma que demitiu o funcionário dois dias após o ocorrido. Segundo a proprietária da empresa, Patrícia Rosa Calmon, a agressão aconteceu no horário de lanche do empregado, que trabalhava das 22h às 6h. “Ele já estava nos dando problemas. Esse episódio foi o estopim. Vamos acatar as sugestões do conselho de Direitos Humanos, mas precisamos que nos informem detalhes do curso de formação. Não admitimos preconceito na empresa”, afirma