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Cidades

O vírus dói mais para quem tem fome

Famílias em situação de vulnerabilidade no Sol Nascente relatam ao JBr como reagem à pandemia. A solidariedade é marca forte na batalha contra a covid-19

Vítor Mendonça

Publicado

em

Fotos: Vitor Mendonça
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O medo do vírus e da fome

Famílias em situação de vulnerabilidade contam como lidam com a pandemia e a falta de renda

“Estou com medo”, admite Daniele dos Santos Damasceno, de 40 anos, avó de João Miguel, 3, a quem considera como filho. Ela cuida dele desde o nascimento. Em uma área de cerca de 20 m², a manicure e o neto dividem espaço com roupas, duas camas, um armário que faz as vias de despensa, com poucos mantimentos, e um banheiro apertado. “Procuro manter tudo limpo e tenho lavado constantemente o chão”, afirma a mulher. Não há cerâmica para facilitar a limpeza.

Em áreas de vulnerabilidade social, os prejuízos da pandemia do novo coronavírus vão além da ameaça à saúde. No Sol Nascente, a doença simboliza ameaça de empregos, ao dinheiro do mês, que já são escassos em algumas regiões, e ao abastecimento de suprimentos para famílias. Para sete delas no Trecho 3, localidade mais vulnerável da cidade, a preocupação de como terão de lidar com o isolamento social é constante.

O pequeno João Miguel está no grupo de risco da nova doença que atinge o Distrito Federal há um mês. “Ele tem bronquite asmática”, detalha Daniele. O rendimento para comprar os remédios do neto vem dos serviços que costumava fazer como manicure no centro de Ceilândia para algumas clientes. “Conseguia tirar uns R$ 150 por mês. Mas se não fossem as doações que recebemos, não sei como faríamos”, explica. As atualizações de como está a cidade frente à covid-19 são atentamente ouvidas todos os dias por um “radinho” vermelho, em cima de uma cabeceira no centro do quarto.

O celular ajuda a manter a criança dentro das quatro paredes da residência. “Essa é a única diversão dele por aqui. De vez em quando ele vai brincar lá fora, mas estou lavando as mãos dele a toda hora.” O sabão, no entanto, já está acabando. A água vem da vizinha, Esmeralda dos Santos Damasceno, 73, sua mãe, que também está no grupo de risco. A idosa está gripada.

A matriarca da família recebe a reportagem na casa ao lado, mas procura manter a distância. Na geladeira, o sustento está contado para alguns dias, apenas, com pequenas quantias de arroz e algumas frutas. Com uma máscara no rosto, quando perguntada sobre os cuidados para evitar o contágio da covid-19, Esmeralda diz que evita pensar demais na pandemia. “Se não eu fico doente”, se justifica. Daniele explica que a senhora, que tem depressão, não sai de casa pelo receio. Ali, vive com outra neta menor de idade. Outros parentes, no lote de trás, ajudam a manter a renda da casa.

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Empregos suspensos

Para Maria de Lourdes da Silva Ferreira (foto), 59, que mora no Sol Nascente há mais de 15 anos, a reciclagem é a fonte de renda da casa. O serviço como catadora, no entanto, está suspenso temporariamente, uma vez que as cooperativas que recebem a coleta seletiva e que compram o material recolhido estão com as atividades paradas. “Eu tenho muita amizade na rua, então se falta alguma coisa, explico minha condição para os vizinhos e eles me ajudam. Um dá um feijão, outro dá um óleo, outro dá um frango. Vamos nos virando”, explica.

Nos últimos três meses, ela tem notado a diminuição no valor de venda dos recicláveis que arrecadava nas ruas. O rendimento que antes variava entre R$ 500 e R$ 550, em fevereiro, caiu para R$ 395. Em março, o faturamento baixou para R$ 245, um decréscimo de pouco mais de 50% do que costumava garantir anteriormente com o trabalho.

“Não tenho dinheiro para comprar o álcool, então vai no sabão caseiro mesmo. E a toda hora vou lavando e usando luva nas mãos para trabalhar, mas agora tenho ficado mais em casa. […] Creio em Deus que tudo isso vai passar para voltarmos a trabalhar e “botar” a vida para frente. Para a gente que é acostumado a acordar cedo para ir trabalhar, é difícil, mas é melhor não sair para evitar a doença do que sair e acontecer [de pegar o novo coronavírus]”, defende a senhora, também do grupo de risco. A paraibana da cidade de Itaporanga tem hipertensão.

Com Mônica Custódio, 33, a situação não é diferente. A mãe de três crianças trabalhava como babá para algumas clientes no Sol Nascente enquanto a situação ainda era estável na capital. Agora, estão todos dentro de casa. “Meu marido está fazendo alguns bicos de pedreiro, mas tem pouco serviço por agora”, declarou. “Ainda temos comida por aqui, graças às doações que recebemos, mas o gás já acabou”, acrescentou.

A educação dos filhos tem sido o desafio atual. As aulas que começaram a ser transmitidas pela TV Justiça na última segunda-feira (6), entre 9h e 12h, ainda não passam na televisão de Mônica. “Minha antena tinha parado de funcionar, então tive que arranjar outra, mas ainda não pegou o sinal”, explicou.

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“Precisamos ainda mais de doações”

As doações são recolhidas e redistribuídas por Celma Pedro, a dona Celma, como costumam chamá-la na região. “Nesse tempo de coronavírus tem muita gente desempregada mesmo, então toda ajuda é bem-vinda. Já precisávamos de doações antes, mas agora precisamos ainda mais”, afirma. Ela é uma das líderes comunitárias do Sol Nascente e idealizadora da ONG Vida, que ajuda mais de 200 pessoas. “E ainda tem gente se cadastrando porque está ficando difícil pra todo mundo. Veio gente até de Águas Lindas de Goiás me procurar”, ressaltou.

Doações de alimentos e outros tipos de materiais como roupas, colchões, geladeiras e fogões são recebidas por dona Celma. Tudo é muito bem-vindo. O contato para mais detalhes sobre a situação no local e outras formas de contribuição para as famílias do Sol Nascente pode ser feito pelo número (61) 99176-9068, ou pelo facebook da ONG Vida.


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