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Mulheres produzem sabão caseiro para ajudar comunidade de Brasília a combater covid-19

O sabão tem ajudado pessoas como a vendedora ambulante de doces Neiderlan Ramos de Jesus, que sentiu na pele o impacto em seu orçamento por causa da crise

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A cerca de 20km do Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente Jair Bolsonaro, em uma das regiões mais carentes do Distrito Federal, três mulheres encontraram um meio de produzir sabão caseiro para ajudar a comunidade local a combater a covid-19 em um território que já convive diariamente com a falta de outros itens básicos, como água potável e rede de esgoto.

Katia Cristina, Cãdance Costa e Marisa Araújo produzem juntas cerca de 200 litros por semana de produtos para higiene. Sabonete, sabão e detergente. Tudo é distribuído entre 100 famílias que vivem na Cidade Estrutural, região do Distrito Federal que abrigava, até poucos anos atrás, um aterro sanitário e que hoje é o lar de cerca de 40 mil habitantes.

Na região, ao menos 13% das casas não têm acesso à rede de água da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) e 38% não têm esgoto. Já são mais de 700 casos de covid-19 na comunidade, todos dependentes de apenas um posto de saúde.

As mulheres aprenderam a fazer sabão há dois anos, mas até a pandemia, nunca tinham aplicado efetivamente a nova habilidade. “Só agora, percebemos que podíamos ajudar com o sabão, mas tínhamos de agir rápido”, diz Marisa, dona do quintal onde foi instalada a fábrica do sabão solidário. O grupo passa horas fazendo os produtos com materiais doados e reciclados.

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Uma vez por semana, realizam uma peregrinação em busca de restos de frutas e óleos na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do DF (Ceasa). Elas também colhem folhas de mamona e outras ervas pelos terrenos baldios próximos de suas casas. “Dessa terra emana o mel. Tudo o que precisamos, conseguimos aqui mesmo”, diz Cãdance, que também é responsável também pelo cadastramento manual dos moradores interessados em receber o sabão.

Mãe de quatro filhos, Marisa conta que a necessidade de fazer os produtos não veio só pela prevenção, mas também para ajudar na redução de gastos das famílias.

“Eu mesma gasto muito sabão lavando roupa para quatro filhos, as coisas ficam mais caras com o isolamento”.

O sabão tem ajudado pessoas como a vendedora ambulante de doces Neiderlan Ramos de Jesus, que sentiu na pele o impacto em seu orçamento por causa da crise. Com as escolas fechadas na pandemia, grande parte de sua renda ficou comprometida. Em consequência, não conseguiu completar a obra em seu telhado. Subiu apenas as paredes do cômodo. Para fugir do frio, tem dormido em uma barraca, em cima da cama, com sua filha de três anos, Eleonora.

“O sabão veio em boa hora. Toda vez que saio com a minha filha, lavo a roupa na volta, são três trocas por dia, gasto muito dinheiro com sabão”.

Parte do desafio é a entrega dos produtos. O sabão solidário é distribuído de casa em casa e funciona para elas como uma maneira de ouvir os moradores e entender os problemas da comunidade. O mais agudo deles é a falta de água potável. Esse é o caso de Fernanda Maria, mãe de seis filhos, moradora de Santa Luzia, região ainda irregular dentro da Estrutural. Ela pega água de uma vizinha, que cede a torneira. Quando não consegue, coleta de um poço local. “Ás vezes, a água está muito suja e com cheiro de esgoto, cheiro de podre, é só olhar a cor.”

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O sabão doado ajuda a higienizar a casa e a economizar, mas, para ela, a prevenção contra a doença se torna praticamente ineficaz por causa da qualidade da água. “Com essa água, vai prevenir do quê? É a mesma coisa que ficar com a mão suja.”

A professora titular de infectologia da USP Ana Sarah Levin explica que qualquer sabão serve para a higienização, mas que só isso não basta para evitar a contaminação. “Se eu mexo no nariz, na boca e encosto em algum lugar e, depois, outra pessoa toca esse mesmo local, ela pode se contaminar. Por isso, esterilizar o ambiente é mais trabalhoso e menos eficaz que higienizar as mãos.”

Outra beneficiária do sabão, Maria Antonia da Silva, com um neto de três anos, Jairo Caleb, deficiente físico, faz a higiene frequentemente. A dona de casa explica que não tem calçado adequado para a criança, que anda com os pés na terra.

“Eu lavo muito os pés dele, já que não tem sapato. Meu irmão está com corona e tenho muito medo que o menino pegue também”, diz.

O sabão doado é item indispensável para a família de quatro filhos, que não tem renda desde o começo da pandemia. “Meu marido é grupo de risco e também tem medo, não está saindo de casa”.

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O projeto, que começou como solidário, tem um futuro comercial. “Agora, a gente precisa ajudar, mas um dia vamos vender sabão, é uma forma de termos nossa autonomia”, diz Cristina, que pensa em adotar o nome “Alquimia do Sabão” para o negócio e garante que o sucesso do produto está no amor que dedicam durante a produção. “Aqui esquecemos todos os nossos problemas, além de ajudar, a gente se diverte também.”

Estadão Conteúdo




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