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Maioria dos estudantes da UnB apresenta sintomas de problemas como a depressão



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Jéssica Antunes
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Atividades acadêmicas são a principal fonte de sofrimento de alunos da Universidade de Brasília (UnB). Estudo inédito da recém-criada Comissão de Saúde Mental e obtido com exclusividade pelo Jornal de Brasília indica que mais da metade dos estudantes têm algum sintoma que poderia levar ao suicídio, e coordenadores não se sentem preparados para lidar com os problemas. A pesquisa foi realizada após casos serem registradas em ao menos cinco departamentos da instituição.

A universidade acaba de entrar para a 16ª posição entre as melhores instituições da América Latina, conforme a organização britânica Times Higher Education (THE). Para os alunos, o status de excelência é motivo para mais preocupação com a pressão. Pelos corredores da instituição, cartazes apontam para a necessidade de discussão sobre a saúde mental dos estudantes, pouco institucionalizado.

Questionário disponibilizado aos coordenadores dos cursos constatou que a maioria não se sente preparada para lidar com problemas de saúde mental dos estudantes. Metade disse que não houve pedido formal de ajuda. Quando chegam, se referem, exclusivamente, à vida acadêmica.

Aos estudantes de graduação, foram cinco perguntas abertas com respostas anônimas. Ao todo, foram 4.026 respostas. Para os graduandos, as principais fontes de sofrimento são ligadas à universidade, com termos como “prazos”, “ciência”, “aula”, “professor”, “cálculo” e “monografia”. Depois, constam problemas de saúde mental. Quase metade dos alunos afirmaram ter ansiedade ou depressão. Outros 12% dizem ter distúrbios alimentares.

Também foram questionadas as estratégias para lidar com esses sofrimentos e indicam que poucos buscam por especialistas e não têm estratégia efetiva de enfrentamento. As respostas mais citadas foram: religião (14,59%), choro (14,8%), tratamento profissional (11,05%), aceitação (8,47%). O uso de álcool e outras drogas foi apontado por 1,52%. Mutilação, por 0,15%.

Estudantes de pós-graduação também foram alvo do estudo. A pesquisa, enviada por e-mail, obteve 637 respostas e 73%, consideram que fatores dentro da universidade os desmotivam a seguir com o curso. A maioria não sabe o que fazer quando se formar e acreditam que professores não contribuem para o crescimento profissional. Para 80%, não há qualquer preocupação da instituição com a saúde mental.

Carga horária pesada, ansiedade e dificuldade para dormir foram apontadas como situações frequentes aos pós-graduandos. Os discentes tiveram que classificar afirmações como “sempre”, “às vezes” e “nunca”. Alguns dos sintomas são classificados como fatores de risco de suicídio. Pior, 15% dos entrevistados disseram que pensam em se matar todos os dias. Outros, apontam o acesso a meios letais, abuso ou dependência de substâncias, descrédito de atenção profissional e dificuldade de acessos a atendimentos.

Rayra Paiva Franco/Jornal de Brasília.

Estudantes reclamam de pressão excessiva

Ingrid Leite entrou na UnB em 2016, para aquilo que ela sempre quis: Letras-Tradução Francês, mas não vai concluir o curso. Ela teve que trocar a escolha e culpa a própria instituição por não conseguir se manter naquilo que sonhou. Há três anos, ela enfrenta uma depressão e Síndrome de Borderline, e não encontrou nenhum tipo de amparo na graduação. Pelo contrário, teve o quadro piorado.

Em surto, Ingrid tentou tirar a própria vida. Quando uma aluna de ciências sociais se matou, em junho, recebeu oito ligações de pessoas achando que era ela. “É pressão o tempo todo. Pressão para aprender sozinho, pressão para recuperar matéria não dada por professor, pressão para manter as notas altas porque senão você não consegue nada aqui dentro. Isso adoece as pessoas. Não é normal chorar, sofrer, querer morrer por conta da faculdade”, conta.

Para ela, falta empatia em toda a universidade. “Pessoas são diferentes, têm experiências e necessidades diferentes. Professores fingem que não enxergam e têm métodos de ensino ultrapassados que nos prejudicam. Dá vontade de jogar tudo para o alto e vejo isso em vários cursos”, considera.

Ela conseguiu vaga no Centro de Atendimento e Estudos Psicológicos (Caep) graças a um encaminhamento de uma professora da área de psicologia, mas afirma que o acesso normalmente é difícil. “Não há preocupação institucional com a saúde mental dos estudantes. No máximo há grupos de alunos ou coletivos que promovem rodas de conversas. Professores não se envolvem. Parece que aqui não é lugar de conversar sobre isso. Seria incrível que tivesse na UnB um grupo de terapia”, acredita.

Estudante da UnB diz que não há qualquer amparo para problemas de saúde mental. Foto: Rayra Paiva Franco/Jornal de Brasília.

Demanda reprimida

Acadêmica de Pedagogia, Fernanda Andrade, de 22 anos, criou no ano passado o Coletivo de Saúde Mental da Faculdade de Educação após pesquisar sobre o tema para o Trabalho de Conclusão de Curso. “Descobri que o período universitário é de vulnerabilidade emocional e a UnB não se preocupa com isso. Criamos para desenvolver, por meio de perspectivas educativas, meios para ajudar os alunos com conscientização”, explica.

Apesar de ser de um departamento, eles são buscados por outras áreas: “Tentamos suprir uma demanda que não é atendida”. Para ela, os problemas de saúde mental podem ser desencadeadas principalmente pelo tratamento. “Nota não é a principal coisa da nossa vivência na universidade. Também fazem parte as relações humanas. A situação está caótica”, diz, apontando três suicídios de estudantes no último mês.

Instituição diz ter suporte, mas Caps ficou só no papel

Em 2015, o Instituto de Psicologia da UnB deliberou proposta de implementar um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)–Docente Assistencial, uma proposta que completa seis anos. A unidade funcionaria no Caep na Asa Norte. Reuniões formais chegaram a acontecer entre a Secretaria de Saúde e a Universidade.

A pasta diz ter “interesse e disposição para implementar a unidade” e formalizou o ato à reitoria em 13 de março deste ano, por meio de ofício. No entanto, não se sabe qual é o andamento dentro da instituição, que não respondeu especificamente sobre isso à reportagem. “A UnB tem todo interesse em estabelecer parcerias para o apoio mútuo com o GDF e precisa atuar dentro dos limites de sua missão institucional: ensino, pesquisa e extensão, com foco no exercício acadêmico”.

Segundo a UnB, além do Caep, que atende cerca de mil pessoas e é vinculado ao Instituto de Psicologia, há atendimentos sobre o tema em outros setores, como a Diretoria de Desenvolvimento Social, o Serviço de Orientação ao Universitário e o Decanato de Ensino de Graduação.
Está em fase de estruturação o Núcleo de Estudos, Pesquisas e Atendimentos em Saúde Mental e Drogas (Nepasd), voltado principalmente para estudantes.Um grupo para atendimento a situações de risco emergencial foi criado e acompanha casos urgentes.

Mapeamento propõe estratégias

A Comissão de Saúde Mental foi instituída por um ato da reitoria da Universidade de Brasília (UnB), em novembro de 2017. A intenção é propor políticas de atenção à saúde mental e sofrimento psicossocial de estudantes. Ela é formada por representantes da Administração Superior, decanatos e unidades acadêmicas.

O mapeamento inédito e exclusivo elaborado pela comissão chegou a propostas de protocolo de atendimento, desenvolvimento de ferramentas de melhoria das relações. Também estão previstas questões de flexibilização de horários e currículo, valorização de atividades culturais e esportivas, acompanhamento psicossocial durante o curso, além de campanhas de prevenção ao suicídio.

“As propostas serão submetidas ao Conselho de Direitos Humanos e à administração da UnB. O estudo deve orientar as atuações em termos acadêmicos e administrativos para reduzir, se for o caso, situações em que a universidade pode estar contribuindo para gerar ou agravar”, explica Paulo Cesar Marques da Silva, chefe de gabinete da Reitoria e componente da comissão.

 

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