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Brasília

Grupo de alunas da UnB recebeu 10 denúncias de estupro em menos de um mês

Arquivo Geral

17/05/2017 7h00

Atualizada 18/05/2017 12h54

Foto: Breno Esaki

Jéssica Antunes
jessica.antunes@jornaldebrasilia.com.br

“O que tem hoje na Universidade de Brasília que mudaria ou impediria as situações que mataram Louise e Ariadne? Nada”. A fala, carregada de indignação, é de uma estudante de 21 anos que faz parte de um coletivo de mulheres que ocupa uma sala de aula do Instituto Central de Ciências Sul há três semanas. Elas criaram o Centro de Convivência de Mulheres, que tem a finalidade de enfrentar a violência e acolher as vítimas. Não é para menos. Elas contabilizam dez casos de tentativa de estupro de abril a maio e denunciam apologia ao crime em parada de ônibus.

A estudante fazia referência à Louise Ribeiro, 20 anos, aluna de Ciências Biológicas vítima de feminicídio praticado por Vinícius Neres em março do ano passado, e à advogada Ariadne Wojcik, 25, encontrada morta em novembro, em Mato Grosso – antes, ela deixou um relato de assédio por parte de um voluntário da UnB. “Abusadores intimidam e vitimam as mulheres da universidade. Assédio acontece o tempo todo. Nesse espaço, feito por mulheres e para mulheres, há incentivo à denúncia”, afirma a universitária do coletivo feminino.

Às 19h de segunda-feira passada, o coletivo recebeu a décima reportação de tentativa de estupro. No banheiro feminino, um homem teria entrado, observado e ameaçado uma mulher pelo topo do box que ela usava. Na semana passada, também no banheiro, uma menina teve de se trancar por quase uma hora para se esquivar de um homem que batia na porta com uma faca.

Saiba mais

  • Segundo a Polícia Militar, o policiamento ostensivo no campus Darcy Ribeiro é realizado com um trio de ciclistas, motopatrulhamento e com viaturas.
  • A atuação ocorre em estacionamentos públicos e nas adjacências, mas os recentes casos têm ocorrido dentro do campus, o que, segundo a corporação, torna um problema bem mais amplo.
  • A orientação é que o estudante não opte por caminhos com pouca iluminação ou áreas afastadas e com pouca circulação de pessoas. Nos outros campi, o policiamento é reforçado com patrulhamento de viaturas e a pé.
  • De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, a pasta não identificou qualquer registro de estupro na universidade e imediações no período de janeiro a abril deste ano e neste mesmo período do ano passado.

O coletivo pretende dar visibilidade e cobrar providências aos “recorrentes casos de violência contra a mulher”, como assédio, agressões físicas e verbais, estupros e feminicídios que ocorrem no ambiente universitário. O grupo é composto por meninas de diversos cursos, que, por segurança, preferem não se identificar. Elas estariam sofrendo ameaças de outros alunos. Segundo a Universidade, a sala ocupada abrigaria oito turmas de cinco unidades acadêmicas. Parte foi realocada, parte suspensa.

Na semana passada, uma parada de ônibus do campus do Gama foi alvo de uma pichação com apologia ao estupro. “Viva ao estupro coletivo” foi escrito no topo da estrutura de concreto, junto com ameaças nominais a duas estudantes.

Nas redes sociais, uma delas se manifestou: “Eu, que disse que não ia abaixar a cabeça para homem machista, abaixei e chorei, chorei de medo. Medo de ter que ir para a faculdade, de ter que aceitar que eu teria que conviver com isso… Não é brincadeira, não é mimimi, é falta de respeito, covardia, é machismo, ignorância”. A 20ª DP apura.

“É um absurdo que esse tipo de coisa aconteça em plena universidade. A pichação é crime, a ameaça é crime, o estupro é crime. Precisamos cada vez mais lutar contra o preconceito, misoginia e machismo”, afirma Iara Maria, 22 anos, estudante de Engenharia Civil.

Outros crimes são constantes

Estudantes contabilizam pelo menos 15 carros arrombados nos estacionamentos do campus Darcy Ribeiro, no Plano Piloto, desde a semana passada. Somente na manhã de ontem, pelo menos três casos foram registrados – dois confirmados por um oficial de segurança da instituição. No período da noite, porém, é quando acontecem mais casos e a insegurança é ampliada pela iluminação precária em muitos pontos.

“Eu não pego matéria à noite e escolhi o curso pensando nisso. Sempre tem assalto”, reclama Caroline Castelo Branco, graduanda de Jornalismo de 27 anos.

“À noite é mais perigoso. É quando temos mais notícias de roubos de carros, assaltos e ataques às mulheres. A visibilidade é ruim. Nos últimos tempos a vigilância e a iluminação melhoraram um pouco, mas, como os casos ainda acontecem, precisa melhorar”, opina Jorge Luis, estudante de Desenho Industrial de 23 anos.

Versão oficial

A Universidade de Brasília foi notificada de somente três dos casos de tentativa de estupro neste ano. É o que afirma o prefeito Valdeci da Silva Reis. “Para nós, é de fundamental importância que registrem ocorrência. Quando isso acontece, procuramos acolher as pessoas e dar assistência como papel da universidade”, explica. De acordo com ele, a Diretoria da Diversidade trabalha no enfrentamento desses crimes e o perfil dos agressores é mapeado a partir de denúncias. A instituição foi informada sobre o caso da pichação no Gama, mas, por ser crime, é a polícia quem investiga.

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