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Cidades

Desdobramentos finais do caso Rhuan

Laudo confirma que Rhuan levou 12 facadas. Ele sentia dores ao urinar há anos, já que teve o pênis decepado. Criminosas poderão pegar até 57 anos de prisão

Willian Matos
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Na manhã desta terça-feira (11), a Polícia Civil do DF (PCDF) concedeu entrevista coletiva para dar os desdobramentos finais da morte bárbara do menino Rhuan Maycon da Silva Castro, 9, esquartejado pela própria mãe, Rosana Auri da Silva Candido, 27. Rosana e a companheira, Kacyla Priscyla Santiago Damasceno Pessoa, 28, serão indiciadas ainda hoje e poderão pegar até 57 anos de prisão.

Detalhando o ato

O delegado-adjunto da 26ª Delegacia de Polícia (Samambaia Norte), Guilherme Souza Melo, relembra detalhes do crime ao contar que a morte foi totalmente praticada em casa. As criminosas esperaram Rhuan dormir. Rosana, mãe dele, acertou a primeira facada nas costas, viu o garoto cair de joelhos no chão e depois deu outros 11 golpes no tórax, de frente para o filho. Rosana contou, em depoimento, que conseguia ouvir o barulho da faca saindo dos ossos após cada movimento.

Em seguida, ela esquartejou, decapitou Rhuan e retirou toda a pele do rosto dele, com o propósito de fritá-la. Colocou a cabeça em um balde. Tentou assar as partes do garoto em uma churrasqueira para amolecer a carne, desprender dos ossos e descartar no vaso sanitário, mas não conseguiu. Também não teve êxito ao tirar os olhos do garoto. A mãe disse, ainda, que comprou a faca por R$ 14,90, dois pacotes de carvão (para a churrasqueira) e um martelo, pensando na trituração dos ossos depois do esquartejamento.

12 facadas

O perito médico-legista do Instituto Médico Legal (IML), Christopher Diego Martins, confirmou que Rhuan levou 12 facadas, e não quatro, como dito pelas mulheres inicialmente. “A causa propriamente dita da morte de Rhuan foram os ferimentos com arma branca e a decapitação, sendo que no pescoço ainda havia sinais vitais. A cabeça foi totalmente removida em vida, ou logo após a morte, quando os tecidos ainda têm reação vital”.

Perito (centro) esclareceu como o crime aconteceu, com base em perícia feita pelo IML. Foto: Willian Matos/Jornal de Brasília

O perito confirma que Rhuan teve o pênis decepado bem antes do crime que o matou. Christopher explica, clinicamente, a gravidade do ato. “Um marco anterior à morte, confirmado por meio do estudo de cicatrizes e de sequelas, foi a emasculação (remoção do pênis) e a castração (remoção dos testículos). Ambas foram feitas de forma artesanal e resultou em sérias consequências para o indivíduo (Rhuan) ainda em vida. Com a amputação do pênis, a uretra se retraiu e se formou uma fístula da uretra até a derme (pele) era por esse caminho muito estreito que o menino conseguia urinar durante este tempo. Ele só urinava sob alta pressão e isso retira a qualidade de vida, além de fazer do caso algo cruel e doloroso”, contou o médico-legista.

Sem benefício

Na manhã do dia do crime, dia 1 de junho, Kacyla Priscyla, companheira e cúmplice de Rosana, foi tentar sacar um benefício que ela recebia pela guarda da filha. Porém, não conseguiu, porque o provento havia sido suspenso há quase um mês. O delegado Guilherme Melo aponta esse como um dos possíveis motivos para o crime. “Talvez este tenha sido um dos motivos que as levaram a matar a criança”, afirmou. “Escolheram matá-la nesta noite porque no dia seguinte já se mudariam do local para fugir”, prosseguiu.

Possível motivação religiosa

Dada a gravidade, a singularidade e o ineditismo do crime, a Polícia Civil decidiu ir a Rio Branco, no Acre, de onde Rosana e Kacyla são naturais. Lá, o delegado Guilherme Melo apurou, entre outras coisas, que o crime pode ter sido motivado com base em questões religiosas. “Descobrimos indícios que o crime pode ter, sim, motivação religiosa. Elas, inferidas por espécies de visões divinas ou demoníacas, podem ter praticado a morte por conta disso”, afirmou.

“Elas confessaram algo nesse sentido, e parentes e pessoas ligadas a elas relataram que houve uma transformação de personalidade das duas nos últimos cinco anos”, continuou o delegado, citando que a Justiça do Acre considerou esse fanatismo ao dar a guarda das crianças aos pais. “A Justiça do Acre, quando concede a guarda aos pais das crianças, na sua fundamentação, cita fanatismo religioso. Nos depoimentos das testemunhas, cerca de 15, todas elas relataram que as autoras [do crime] tinham um forte fervor religioso que determinava suas ações”, concluiu Guilherme.

Apesar da “veia” religiosa das mulheres, de alguns relatos e da formação evangélica delas, o delegado afirma que não é possível tachá-las em alguma religião — na evangélica, por exemplo. “O fanatismo não tá vinculado, especificamente, a nenhuma igreja, embora elas tenham formação evangélica. Essas atividades, atitudes e rotinas eram criadas por elas mesmas com base em interpretações próprias da palavra bíblica, das ‘revelações’ que tinham e dos ‘sonhos proféticos’. Portanto, não há uma vinculação específica a um segmento religioso”, conta. Rosana e Kacyla passaram tempos se intitulando pastoras.

Apesar de se dizerem pastoras, Kacyla e Rosana não congregavam em nenhuma igreja. Foto: Reprodução/YouTube

De cidade em cidade

Rosana e Kacyla fugiram juntas do Acre há cerca de quatro anos e levaram os filhos consigo. O fizeram, porque, segundo visões religiosas das mesmas, elas se amparavam em palavras bíblicas para se vingar dos pais e das famílias paternas das crianças, deixando-os longe deles. Em seguida, passaram por diversas cidades do país. “Nós apuramos que elas foram para Maceió-AL, Trindade-GO, Caldas Novas-GO, Anápolis-GO, Aragoiânia-GO, Goiânia-GO, e aqui para o DF. Em Aragoiânia, apuramos que elas praticaram furto a residência na qual elas viviam. Este fato será remetido à Justiça goiana”, comentou o delegado Guilherme Melo. O pai da filha de Kacyla recuperou a guarda da filha após o crime.

Possíveis vítimas de roubo das mulheres fazem buscas por elas nas redes sociais. Foto: Reprodução

Espancamento na cadeia

Após a prisão das duas criminosas, boatos contavam que elas foram espancadas na prisão, fato desmentido pelo chefe da investigação, André Carlos. “Quando estávamos em Rio Branco-AC, alguns parentes vieram nos perguntar se elas foram espancadas dentro do presídio. Imediatamente, o Dr. Guilherme entrou em contato com o diretor do presídio e, efetivamente, nada disso ocorreu. Elas estão isoladas, sem contato entre elas e nem mesmo com outras presas”, esclareceu Carlos.

Penas e indício em cinco crimes

A investigação sobre como o caso se deu está concluída — pelo menos os fatores fundamentais. Rosana Auri da Silva Candido e Kacyla Priscyla Santiago Damasceno Pessoa serão indiciadas em cinco crimes. São eles:

  • Homicídio qualificado por motivo torpe e impossibilidade de defesa – pena máxima de 30 anos;
  • Tortura, pelos maus tratos a Rhuan – pena máxima de 10 anos, somados agravantes;
  • Lesão corporal gravíssima, pelo decepamento do pênis e dos testículos de Rhuan – pena máxima de 10 anos, somados agravantes;
  • Ocultação de cadáver, uma vez que elas colocaram partes de Rhuan na mala para se desfazer do corpo – pena máxima de três anos;
  • Fraude processual, por terem lavado o local do crime com água sanitária antes da chegada da Polícia Civil – pena máxima de quatro anos.

A Polícia investiga ainda denúncias de furtos que elas teriam cometido na cidade de Aragoiânia-GO. Se condenadas, podem pegar mais quatro anos de prisão.

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