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CSI Brasília: saiba como a polícia desvendou triplo homicídio bárbaro

João Paulo Mariano
redaçã[email protected]

O caso é digno de episódio final de uma dessas séries que investigam crimes. Envolveu crueldade, ciúme, vingança, esquartejamento, investigação e facadas. Muitas facadas. Apenas uma das três vítimas recebeu exatamente 149 delas. Com quatro meses de árdua investigação, os policias da 21ª DP (Taguatinga Sul) elucidaram o crime descoberto a partir da ossada encontrada na região da Boca da Mata, em Taguatinga.

O início do episódio

As investigações começaram quando a delegacia recebeu o aviso de que um homem foi encaminhado ao Hospital de Taguatinga, após ser socorrido próximo ao Pistão Sul. Mais tarde, constatou-se que ele era Maurílio Bastos dos Santos Júnior, 29 anos, e que foi morto com 149 facadas. Seu pescoço quase foi separado do corpo.

Pelas imagens do circuito interno de comércios da região, é possível perceber que os criminosos esfaqueiam o homem por aproximadamente 15 minutos antes de o abandonarem ali. Os acusados são Marcelo Augusto dos Santos Silva, o Zoio, 25 anos, Reginaldo Augusto de Laura, 21, e Tiago Almeida da Silva Conceição, o Da Lua, 21.

O crime intrigou o delegado-chefe da 21ª DP, Raimundo Vanderly, junto à equipe de investigação. Como câmeras da região também flagraram o momento em que a vítima sai correndo de um barraco, perto do caminho do metrô, na Boca da Mata, foi possível entender como as coisas teriam ocorrido.

Local do crime, na região da Boca da Mata, em Taguatinga. Foto: PCDF/Divulgação

Cenas da investigação

Simultaneamente à investigação da morte de Maurílio, a delegacia começou a receber ligações avisando que a mulher dele também havia sido morta, naquela mesma noite. Com essa pista, o delegado Vanderly e sua equipe foram para a rua e obteve mais informações com vizinhos. Todos moravam em barracos invadidos na Boca da Mata.

Munidos de informações de denúncias anônimas e de testemunhas, já era possível ir atrás dessa nova vitima. Porém, se houve uma morte, onde estaria o corpo? Na região apontada como o local do assassinato, nada foi encontrado. Até cães foram utilizados na tentativa de encontrar os restos mortais da mulher.

Quase um mês depois, mais precisamente no dia 10 de janeiro deste ano, um dos assistentes de Vanderly, um daqueles personagens que não desistem facilmente de um caso como este, encontrou a prova do crime: um corpo em decomposição, parcialmente enterrado. O cadáver estava próximo ao barraco de onde Maurílio foi flagrado saindo na noite em que foi morto. A suspeita é de que, com as chuvas, o buraco foi afundando. Assim, o corpo, que estava enrolado em um tecido, pôde ser encontrado. Em uma reportagem do Jornal de Brasília publicada há aproximadamente um mês,  a identidade da mulher já tinha sido adianta.

Leia mais: 
Ossadas humanas são sinônimos de mistério e o caminho para esclarecer crimes

A partir daí, foi a vez da turma do laboratório começar a trabalhar com toda a expertise que envolve química, física, paciência e muita atenção a cada detalhe. Depois de alguns dias, por meios das digitais colhidas, foi possível saber que a dona daquele corpo era, de fato, a mulher de Maurílio (foto abaixo). Raquel Rodrigues dos Santos (foto abaixo), 32 anos, foi morta com aproximadamente 35 facadas. A autópsia identificou todas as perfurações.

Quebra-cabeça humano

Porém, outro fato havia inquietado a equipe policial. A poucos metros do local onde o corpo de Raquel foi abandonado, uma perna com uma tatuagem de caveira mexicana também foi vista. Após mais buscas, foram encontradas outras partes que pareciam ser do mesmo corpo. E agora, a quem pertenceriam aqueles pedaços de gente? Mais uma vez, o pessoal do laboratório entrou em cena para montar esse “quebra-cabeça humano”. Para piorar, faltavam algumas partes – até hoje, os braços seguem desaparecidos.

Sem digitais, devido à ausência de membros superiores, o jeito foi recorrer ao banco de dados da Polícia Civil. Por uma mistura de sorte, astúcia e inteligência do roteirista, havia o registro de um homem com uma tatuagem de coroa na perna.

Para a surpresa da polícia, o dono daquela perna era Tiago Almeida da Silva: um dos três homens que teriam matado Maurílio e Raquel. Um exame de DNA feito com a mãe dele eliminou o restante das dúvidas.

Agora, havia chegado o momento em que a equipe se reunia e o delegado Vanderly terminava de ligar os pontos. Seria um exercício de reconstruir as ações e atitudes dos acusados. Ligar o presente ao que se sabe sobre o passado.

Revelação

Era a noite de 13 de dezembro de 2017. Em um dos barracos da invasão da Boca da Mata, em Taguatinga, Maurílio e sua companheira, Raquel, se desentenderam com Reginaldo e seus amigos, Tiago e Marcelo Augusto. Os dois filhos de Raquel estavam ali mesmo naquele barraco e, provavelmente, viram tudo o que ocorreu.

A motivação da briga é apontada como ciúme, já que Raquel teria tido um caso com o Reginaldo. Maurílio, ao ver a mulher ser esfaqueada, tentou correr. Porém, não conseguiu fugir sem levar alguns golpes. Ferido, saiu correndo da Boca da Mata até um mercado que fica no Pistão Sul. Ele até tentou subir na grade desse estabelecimento, mas foi alcançado pelos algozes.

O corpo do homem foi deixado ali mesmo, sangrando, e quase sem vida. No barraco onde tudo ocorreu, Raquel, provavelmente, já tinha falecido. Os acusados resolveram enrolar o corpo dela em um saco plástico e o enterraram. Em seguida, entraram em uma Kombi amarela – informação indicada por testemunhas – e levaram as duas crianças até familiares de Reginaldo no Entorno.

Atenção: imagens fortes

Traição

Até aí, os três acusados estavam unidos. Porém, Tiago começou a falar demais sobre o caso. O jeito encontrado pelos demais foi fazer uma emboscada para dar a ele o mesmo destino das vítimas anteriores. Um dia depois dos assassinatos de Maurílio e Raquel, a terceira vítima foi esquartejada e enterrada em um buraco próximo onde Raquel foi encontrada.

Prisões

Com o caso desvendado por meio das provas, era hora da prisão, que demorou mais que o previsto pela dificuldade de localização dos autores (fotos abaixo). Porém, no último dia 20, Reginaldo foi preso em Luziânia (GO). No dia seguinte, sábado (21), Marcelo Augusto foi detido no mesmo município. Os dois já tinham passagens pela polícia. O primeiro por roubo e Maria da Penha, e o segundo por furto e tráfico.

Ambos estão no Complexo Penitenciário da Papuda. Segundo o delegado Raimundo Vanderly, eles não resistiram à abordagem e vão ser ouvidos nas próximas semanas. Para ele, devido à quantidade de provas, não há dúvidas do envolvimento de ambos nos crimes.

“O requinte de crueldade foi muito grande. São pessoas perigosas e sem respeito nenhum pela vida alheia. Precisam permanecer fora do convívio social”, salienta o delegado. Vanderly se surpreendeu com a conduta violenta dos dois jovens, apesar da pouca idade.

Próxima temporada

Nos próximos episódios dessa investigação, Reginaldo e Marcelo devem ser julgados por triplo homicídio qualificado e podem pegar de 12 a 30 anos de cadeia, se forem condenados. Já para o time de investigadores, mais casos devem ser desvendados. Até porque existem suspeitas da ligação dos assassinos com outros crimes. Cenas para uma próxima temporada.

 

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