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Cidades

Colégio Militar afasta professor

Major Cláudio foi retirado da sala de aula após debater sobre a violência policial e o fascismo

Olavo David Neto

Publicado

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O afastamento de um professor do Colégio Militar de Brasília (CMB) gerou revolta entre estudantes da instituição. Identificado apenas como major Cláudio, como é também apresentado aos alunos, o doscente comentou em vídeo-aula veiculada na terça-feira (2) os protestos que tomam o Brasil, assim como o que ele classifica como diferentes tratamentos entre manifestantes antifascistas e conservadores. Em live na quarta-feira (3), o comandante do CMB anunciou o afastamento de Cláudio e a instauração de um Processo Administrativo.

A aula sobre migração no continente europeu foi interrompida para abordar a atual conjuntura política do Brasil. “Vocês devem ter acompanhado os dois protestos”, começou o major. “Uma senhora branca, falsamente com uma bandeira do Brasil nas costas (…) patriota de araque que ela é, e com um tremendo taco de beisebol”, descreveu. Segundo ele, não houve ação da polícia, ao contrário dos protestos antifascistas. “Os outros manifestantes foram tratados a bomba de gás lacrimogêneo”, denunciou.

Ele encerrou a interrupção no conteúdo da aula com um alerta aos alunos. “Então [foram] dois pesos e duas medidas. Tá? Para vocês refletirem em que mundo de escuridão a gente está se metendo”, finalizou Cláudio. Segundo Ana Paula*, aluna do 9º ano da instituição, a repercussão da aula entre os colegas foi boa. “Ele basicamente abordou sobre um tema muito importante na aula, retirou o tempo dele pra nos alertar sobre uma coisa que está tomando o mundo hoje. Todos gostaram da aula e foi uma chuva de comentários positivos”, relatou a estudante a.

Ainda segundo disse a docente ao Jornal de Brasília, “o major Cláudio é um ótimo professor; passa exercícios e ensina a matéria para valer”. Uma rede de apoio ao discente foi criada nas redes sociais através da #JustiçaparaMajorCláudio. “A política pra abordagem desses temas a maioria requer alguma autorização”, lembra a aluna. “Só que ele foi o único professor que falou sobre isso”, ponderou a estudante.

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Quanto às denúncias, Ana Paula lamenta que tenham ocorrido, mas acredita que se baseiam na ignorância. “Teve pessoas falando que ele legalizou o fascismo na aula. Eu acho muito difícil um professor em pleno século XXI fazer isso, ainda mais mais de Geografia”, desabafou. Indicada como denunciante, uma outra aluna do 9º ano publicou fotos com críticas ao professor no Instagram. “Como é que major do Exército defende ato que queima babdeira [sic] do Brasil?”, questionou. Uma segunda imagem mostra o rosto do major sob a frase “Professor defende ATO TERRORISTA”. Contactada pela reportagem, a aluna não se manifestou.

Disciplina militar

O decreto nº 4.364/2002, que institui o Regulamento Disciplinar do Exército (R-4), nos itens 57 e 59 do Anexo I da legislação, classifica como transgressão “Manifestar-se, publicamente, o militar da ativa, sem que esteja autorizado, a respeito de assuntos de natureza político-partidária” e “Discutir ou provocar discussão, por qualquer veículo de comunicação, sobre assuntos políticos ou militares, exceto se devidamente autorizado”, respectivamente.

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Apesar disso, a proposta pedagógica do CMB – disponível no portal da instituição – traz como primeiro objetivo o capacitar os docentes ao desenvolvimento de valores “familiares, sociais e patrióticos”, com ganas de forma um “cidadão patriota, cônscio de seus deveres, direitos e responsabilidades”.

Comandante incentiva denúncias

Segundo o próprio Colégio Militar, os professores são instruídos a “Desenvolver no aluno a visão crítica dos fenômenos políticos, econômicos, históricos, sociais e científico-tecnológicos, ensinando-os, pois, a aprender para a vida, e não mais, simplesmente, para fazer provas”.

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O comandante do Colégio Militar de Brasília, o coronel de cavalaria Carlos Vinícius Teixeira de Vasconcelos realizou uma transmissão ao vivo para pais e colaboradores da instituição. Segundo ele, o caso é “episódico, pontual. E assim será tratado”, além de criticar a postura do professor. “Nesse momento de grave crise, de pandemia, nosso foco deve ser melhorar esse processo de aprendizagem”, disse o militar. De acordo com a fala, o colégio se dedica apenas a uma “educação de qualidade, com aulas atrativas”.

Ele confirmou que o discente faz parte dos quadros do CMB, e que a atitude comprometeu “o nome do Colégio Militar de Brasília e até da própria instituição Exército”. Também incentivou outras denúncias do gênero, desde que feitas no foro correto. “Peço que reportem esses problemas para que possamos evoluir”, finalizou o coronel. Além de afastado das aulas, o major Cláudio responderá a Processo Administrativo “para apurar responsabilidades”, segundo o comandante.

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Procurado pelo JBr, o Exército repassou os questionamentos à Seção de Comunicação Social do Departamento de Educação e Cultura do Exército, que não se manifestou até o fechamento desta reportagem.




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