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Brasília

Após reencontro, mãe e filho desembarcam em Brasília para primeiro Dia das Mães juntos

Arquivo Geral

07/05/2019 21h42

Atualizada 08/05/2019 9h47

Sueli Silva e seu filho, Ricardo Araújo, chegam a Brasília para primeiro Dia das Mães juntos. Foto: Vítor Mendonça / Jornal de Brasília.

Ana Karolline Rodrigues
ana.rodrigues@grupojbr.com

Juntos pela primeira vez desde 1981, Sueli Silva, 56 anos, e seu filho, Ricardo Araújo, 38 anos, chegaram a Brasília na noite desta terça-feira (7) para passarem o primeiro Dia das Mães juntos. Há 38 anos, ele foi retirado de sua mãe na porta do Hospital Regional do Gama (HRG). Com grande ajuda de investigações da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), Sueli conseguiu reencontrá-lo na última semana, em João Pessoa (PB), onde Ricardo mora. Em tom de grande emoção, ambos não esconderam o sorriso no rosto ao desembarcar no aeroporto de Brasília. “Valeu a pena tudo que passei”, comemorou Sueli.

Questionado sobre como estava se sentindo, Ricardo disse que só conseguia agradecer. “Só gratidão a Deus mesmo. Tudo foi muito especial, fui encontrado por ela e estou muito feliz. Agora vamos nos conhecer, foram 38 anos, né”, afirmou. Sem passagem de volta, o filho de Sueli agora pretende conhecer a família e diz só ter expectativas boas pela frente. “Deus levou minha mãe adotiva há seis meses, mas agora me deu essa”.

Sueli e Ricardo não esconderam o afeto ao chegarem juntos em Brasília. Foto: Vítor Mendonça/Jornal de Brasília

Ao falar sobre Sueli, ele destacou a palavra “guerreira”. “Passar tudo que ela passou, com a força que ela passou, não é para qualquer um. O que ela deixa é essa mensagem de não desistir nunca”, disse.

Hoje, após o primeiro encontro de Ricardo com a irmã, Júlia Christina Gomes Silva, 23 anos, a família garantiu que agora o domingo de Dia das Mães “será completo”.


Ao chegar em Brasília, Ricardo já conheceu sua irmã, Júlia, filha de Sueli. Foto: Vítor Mendonça/Jornal de Brasília

Roubado em Hospital

Como o Jornal de Brasília expôs no mês passado, Ricardo foi roubado, ainda recém-nascido, no dia 11 de fevereiro de 1981 por um casal que Sueli conhecia. Ela, que, junto com os quatro irmãos, foi deixada pelo avô em um orfanato em Corumbá de Goiás ainda quando tinha 9 anos, cresceu no abrigo sofrendo diferentes formas de abusos por parte de membros do local. Segundo Sueli, um casal que trabalhava no chamado Instituto Corumbá que sequestrou a criança naquela data.

Por depender financeiramente da vida que tinha no orfanato, a mulher contou que, após perder o filho, continuou vivendo naquele ambiente por necessidade. Porém, assim que conseguiu uma independência financeira, tirou os irmãos do local e passou a procurar pelo filho. Em 2013, ela enviou uma carta pedindo ajuda à PCDF. No dia 8 de abril deste ano, ela recebeu a resposta de que o filho foi encontrado.

Orfanato e abusos

Com toda uma história marcada por superação, esta nova etapa da vida de Sueli é mais um dos pontos em que ela acredita que “valeu a pena esperar pela hora certa”. Órfã de mãe e abandonada pelo pai, a mais velha de cinco filhos precisou cuidar dos irmãos no orfanato no qual foi deixada ainda com 9 anos.

No local, aos 13 anos, ela foi abusada sexualmente pelo filho da administradora do abrigo. Logo em seguida, ficou grávida pela primeira vez. “Eu fui molestada sexualmente e não foi uma vez, foram pelo menos umas três vezes. E, então, veio uma gravidez. Aos 14 anos, saí do orfanato e vim para Brasília e fiquei escondida na casa de uma família em Sobradinho”, contou. Já vivendo na capital, Sueli teve um relacionamento amoroso com um rapaz e engravidou do filho. “Comecei a estudar e na escola conheci um menino com quem fiquei em um relacionamento por três meses e engravidei. Eu já estava morando na casa de um casal no Guará, que eram funcionários do orfanato, mas ela [a dona da casa] não aceitou. Mas eu tive a gestação normal”, relembrou.

Dois dias após o parto, Sueli recebeu alta no HRG e saía do hospital com o filho, até então chamado Luiz Miguel, quando encontrou o casal que iria buscá-la. “A pessoa que estava no banco da frente, que era quem cuidava de mim, desceu do carro e pediu para segurar meu filho e disse que eu tinha que dar um telefonema. E eu liguei para a dona do orfanato, que disse que eu não iria criar essa criança. Mas eu disse que já tinha uma filha e iria cuidar dele. Ela disse que um já era suficiente e eu não iria ter outro, não deixou mais eu falar e desligou. Quando eu cheguei no carro, a senhora que estava segurando meu filho não estava mais com ele”, relatou.

Com o passar do tempo, Sueli conseguiu um emprego da área de serviços gerais em uma creche. Passando alguns anos, ela subiu de cargo e conseguiu tirar os irmãos do orfanato. “Eu entrei lá fazendo faxina e saí como diretora. Tirei meus irmãos de lá e todos ficaram morando comigo, foram estudar. Hoje, graças a Deus, todos estão formados e eu sou pedagoga em formação, mas já estou aposentada”, disse, em lágrimas.

Investigações

De acordo com o delegado Murilo de Oliveira, da 14ª Delegacia de Polícia (Gama), responsável pelo caso, as investigações para encontrar o filho de Sueli, que hoje tem 38 anos, se dão desde 2013. “Independente dessa responsabilização penal dos envolvidos, o que a motivou foi uma busca por resposta sobretudo humana. Essa senhora fez um pedido de socorro em 2013 por meio de uma carta de próprio punho. A investigações prosseguiram ao longo dos anos, com muita dificuldade, mas no final conseguimos encontrá-lo”, afirmou.

“Ela teve seu filho subtraído de forma covarde por um casal enviado a mando da dona do orfanato. Foram muitos anos de investigação, afinal não tinha nenhuma chave de pesquisa, não sabíamos para onde a criança teria sido levada nem para quem teria sido entregue. Nem mesmo a data de nascimento dele nós poderíamos confiar, porque certamente naquela época eram feitas por declaração junto aos cartórios, então facilmente a pessoa criaria uma data e colocaria como nascido naquele dia”, acrescentou o delegado.

Conforme explicou Murilo, uma das investigações apontavam para a existência de um porteiro que trabalhava no prédio do médico que realizou o parto de Sueli e que também era amigo pessoal da dona do orfanato. Este porteiro, contou o delegado, tinha uma esposa que morava no Gama na época do sequestro.

“No final de 2018, conseguimos constatar um óbito de uma mulher no interior da Paraíba com o mesmo nome da suposta esposa. A partir desse momento, todas as investigações foram direcionadas para esse município de Arara. Foi confirmado que esta senhora teria estado no Gama na época dos fatos, que o homem era realmente o porteiro que imaginávamos e que este casal teria um casal de filhos. Quando foi questionada a idade do filho mais velho, eles falaram 38 anos. E, a partir, daí os indícios foram válidos”, disse.

Segundo Murilo, os envolvidos no crime que ainda estão vivos não podem mais ser detidos pela época em que o sequestro ocorreu. “Em razão da data em que os fatos ocorreram, muitos deles já tinham a punibilidade extinta, ou seja, não eram alcançados pela lei, seja pelo decurso do tempo, porque nós estamos a falar de mais de quatro décadas, ou até mesmo por conta da morte dos principais atores envolvidos”, disse.

De acordo com Sueli, o casal que criou o rapaz não é o mesmo que o sequestrou. Questionada pela reportagem sobre o que sentia em relação a atual família de Ricardo, ela disse respeita o sentimento do filho pelos pais de criação. “Ele tem amor pela família que o criou, inclusive eu não tiro isso jamais, porque ele criou afeto e eu respeito muito isso”, afirmou.

Para a mãe, neste momento, não há palavras que possam expressar sua emoção. “Eu não consigo dimensionar, não tenho como medir o sentimento. Hoje eu olho ao meu redor e só tenho uma conclusão: valeu a pena ter esperado”, comemorou.

Família de Sueli unida em Brasília. Foto: Vítor Mendonça/Jornal de Brasília


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