Douver Barros
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“Desde que me entendo por gente, sofro constrangimentos, injúrias e humilhações. Isso já atingiu minha autoestima e feriu muito meu orgulho”. O relato é do estudante Ricardo Vaz, 23 anos, que diz se preocupar com a quantidade de semelhantes agredidos friamente, simplesmente por serem quem são. “As agressões verbais começam, por vezes, em casa. Depois, pioram no convívio em sociedade”, argumenta. Esta é a primeira reportagem de uma série do Jornal de Brasília, previstas para esta semana.
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No Distrito Federal, a Lei 2.615/ 2000, que trata da discriminação provocada pela orientação sexual, aguarda a regulamentação do Governo de Brasília. O texto é de co- autoria de Rodrigo Rollemberg, de quando ainda era deputado distrital. Cobrado pela comunidade LGBTS, o governo limitou-se a dizer ao JBr. “que estuda a regulamentação da lei”.
Ricardo prevê que a lei não deve diminuir atos preconceituosos. “Acredito que, primeiro, isso aumente o ódio e a intolerância, mas sou extremamente a favor da regulamentação”, diz o estudante.
A organização da Parada do Orgulho LGTS de Brasília identificou, por meio de pesquisa, que 51% dos 357 entrevistados já sofreram algum tipo de discriminação. Mas a proporção já foi pior: em 2007, era 64%. A lei distrital foi uma das principais reivindicações do ato que levou cerca de 20 mil pessoas à Esplanada no último domingo.
Desde cedo, o DJ e produtor de moda Danillo Costa, 24, entendeu que precisava seguir um caminho específico para blindar-se de críticas e ataques. Foi a partir disso que ele resolveu percorrer o segmento da moda “por ser uma área que aceita melhor” os homossexuais. “É muito difícil ser julgado pela roupa que usa, pela voz fina, pelos trejeitos”, lamenta.
“Os preconceituosos não deixarão de ser assim pela existência de uma lei, mas a gente precisa desse respaldo. Talvez os ataques tenham reduzido porque as pessoas perceberam que temos voz. Por isso, é importante continuarmos tendo uma representatividade na TV, para que a sociedade perceba que isso é absolutamente normal”, acrescenta Danillo.
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Punição e conscientização
Doutoranda em sociologia pela UnB, Valdenízia Peixoto destaca rumos para o combate ao preconceito. “A curto prazo, a tipificação criminal. É preciso uma lei que puna o crime e o enquadre em LGBTFobia. A médio e longo prazo, é preciso levar às escolas a discussão sobre gênero e sexualidade. Isso descontrói uma visão machista e misógina”, defende. “Nenhuma lei se sustenta sem uma transformação cultural da sociedade”.
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Agressões e deboche constantes
Chave de pescoço e empurrões foram algumas das agressões sofridas pelo estudante Ícaro Andrade, 25 anos, em uma casa noturna de Taguatinga, em novembro passado. Ele comemorava o aniversário de uma amiga na companhia de colegas quando foi surpreendido por um segurança – , segundo ele, por estar abraçado a um amigo. “Como eu percebi que se tratava de homofobia, não me calei. Foi a partir disso que começaram as agressões”, lembra. Ele registrou ocorrência e se submeteu a exames no IML.
“O delegado foi bastante atencioso comigo. O chato é você dizer que foi agredido por ser homossexual e colocarem somente um registro de agressão, não sendo específico”, critica. “Eu apanhei por ser gay e vários apanham por esse motivo todos os dias, fora os que morrem”. Após as agressões, Ícaro afirma ter saído do local de cabeça erguida mesmo sob risos dos seguranças. “Falei o que eles precisavam ouvir”.
Engana-se quem pensa que há preconceito apenas nos setores mais conservadores. “Percebo que, se eu tivesse trejeitos afeminados, a atitude das pessoas seria outra. Há um preconceito velado de quem diz aceitar a homossexualidade, mas não a exibição afeminada. Ou seja, um gay com comportamento heterossexualizado sofre menos preconceito”, argumenta o intérprete de Libras Gustavo Lopes, 26.
Saiba mais
O papa Francisco afirmou, no último domingo, que gays merecem o pedido de perdão por terem sido marginalizados.
Ataques devem ser registrados na Delegacia de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual ou contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência (Decrin), da Polícia Civil do DF.