Francisco Dutra
francisco.dutra@jornaldebrasilia.com.br
A dona de casa Cristiane dos Reis, 34 anos, perdeu o marido, Daniel Domingues, 34 anos, em janeiro deste ano. O companheiro saiu de casa para comprar leite e não voltou mais. Morreu, vítima de uma bala perdida em uma batalha de gangues. Na falta do esposo, para a jovem desempregada o programa DF Sem Miséria seria o alívio necessário para garantir a alimentação dos cinco filhos. Só que não. A família de Cristiane passa fome. O benefício que deveria ser paga pelo Governo do Distrito Federal está atrasado em três meses.
A angústia da moradora de Sobradinho II é partilhada por outras 61.289 famílias cadastradas no programa social. O sentimento se mistura com a revolta, pois todas acreditaram na promessa do GDF de que o pagamento seria regularizado. O benefício, que complementa o Bolsa Família vem atrasando desde o ano passado.
O Buriti já anunciou sucessivas datas e cronogramas de regularização. Mas até agora, nada passou dos discursos para as câmeras e holofotes. Em uma conta aproximada, o GDF deve R$ 27,9 milhões.
“Tenho dois aluguéis e quatro contas de luz sem pagar. Não estamos almoçando. Minha filha desmaiou na escola, de fome. Falta de respeito do Governo. Foi falado na campanha, prometeram depois e até hoje, nada. Não têm palavra. Preferia que falassem logo: Se vire! Por que prometem o que não querem cumprir?”, desabafa Cristiane.
A dona de casa sobrevive às dificuldades com a caridade e compreensão das pessoas. A senhoria vem aliviando a cobrança do aluguel. Cristiane recebeu uma doação de pele de frango. Com o pouco gás que ainda possui, improvisa soluções para driblar a fome. A viúva não está esperando o GDF mudar de postura e começou a procurar um emprego. Mas neste tempo de crise, as portas não se abrem.
“Quem matou meu marido está comendo, tomando café da manhã todo dia. Cadê o governo que não vem olhar minha família? Estou prestes a ser despejada, minha família está passando fome. Onde está o governo?”, questiona ela.
Até cesta é racionada
1. O calvário da família de Cristiane levanta outras dúvidas sobre os programas sociais. Em fevereiro, a dona de casa buscou uma cesta emergencial em um Centro de Referência da Assistência Social (Cras). Recebeu a ajuda, mas ouviu que só poderia pegar uma nova cesta em 2017, pois não seria possível solicitar mais de uma no mesmo ano. Fica a pergunta: uma família pode superar a situação de vulnerabilidade em um mês?
2. O marido da dona de casa teria trabalhado por vários anos com carteira assinada. Mas nos dois últimos antes da morte só conseguiu ocupação em obras, sem registro. Por isso, quando foi buscar a pensão no INSS, Cristiane ouviu um sonoro “não” do Poder Público.
Nova promessa é pagar tudo até o fim de julho
A indignação pelo atraso do DF Sem Miséria levou mais de 100 famílias cadastradas a unirem forças em grupos pelo Whatsapp e Facebook. Teclando mensagens digitais, elas preparam um protesto para mostrar nas ruas a revolta com o descaso do governo.
Mãe de sete filhos, a diarista Dalvina Ferreira, 41 anos, viu o beneficio encolher de R$ 400 para R$ 100, por mês. Com a queda, ela se viu forçada a abandonar o aluguel na Expansão do Setor O e buscar um quarto no Pôr do Sol. A mudança levou Dalvina a perder o emprego e se juntar ao mais de 270 desempregados do DF.
Pelo “zapzap”, a diarista troca informações e desabafos. “Estamos nos organizando desde março. É uma situação de muito desespero. Prometeram que pagariam todo dia 15. Não cumpriram. Prometeram pagar os atrasados. Não cumpriram”, conta a dona de casa Andréa Cristina, 34 anos, moradora do Recanto das Emas e mãe de três filhos.
Segundo o secretario de Trabalho e Desenvolvimento Social, Joe Valle, a nova promessa do governo do Distrito Federal é esta: todas parcelas atrasadas serão pagas até o final de julho. “O governo está atrasado. Reconhecemos isso e estamos batalhando para colocar tudo em dia, junto com a Secretaria de Fazenda. Pagamos a parcela de junho na semana passada, mas ainda faltam três”, argumenta Valle.
As parcelas pendentes são referentes a fevereiro, março e maio deste a no. Por outro lado, o secretário afiança que os pagamentos para as instituições conveniadas estão regularizados. O repasse do governo é de, aproximadamente, R$ 5 milhões, ao mês.