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Brasília

Uso simultâneo de remédios convencionais e fitoterápicos traz riscos à saúde

Arquivo Geral

13/11/2009 0h00

A sabedoria popular oferece receita milagrosa para tudo. Para cada caso – dor de cabeça, inflamação na garganta, prisão de ventre -, um chá é recomendado. Eles parecem inofensivos, mas os especialistas alertam: é preciso tomar cuidado com essas fórmulas. As plantas medicinais possuem princípios ativos que podem ser prejudiciais à saúde quando combinados com certos remédios. Em casos extremos, podem levar pacientes à morte. As reações dependem de que parte da planta é utilizada na receita, da temperatura e da concentração do chá, dos componentes do medicamento e do estágio da doença. Para evitar sustos, os pacientes devem informar o consumo das soluções caseiras ao médico desde a primeira consulta.


O problema é que esse não é um hábito muito comum entre os pacientes. A farmacêutica Ivane Graciano constatou que 149 diabéticos, cardíacos e hipertensos da terceira idade utilizam plantas medicinais e não avisam ao médico. A conclusão está na dissertação de mestrado Prevalência do uso de fitoterapia em pacientes do Programa de Geriatria do Hospital Universitário de Brasília. A pesquisadora entrevistou 180 idosos e revelou no estudo que os principais efeitos causados pela combinação entre as receitas caseiras e os fármacos são intoxicação, envelhecimento acelerado, alteração das características e dos efeitos dos medicamentos.


Ivane exemplifica: os diabéticos tomam remédios para diminuir a quantidade de açúcar no sangue. Se eles tomarem o chá conhecido como pata-de-vaca – popularmente “receitado” para a doença -, sentirão fome e tremedeira porque a planta provoca queda ainda maior na taxa de açúcar do sangue. Caso mais grave seria a combinação da varfarina, princípio ativo presente na aspirina, com chá de boldo, utilizado “para tornar mais ralo o sangue”. Em vez de aumentar a coagulação, a mistura colocaria o paciente em risco de ter uma hemorragia.


CONSCIÊNCIA

“As pessoas precisam adquirir uma nova postura e parar de acreditar que se algo não faz bem, mal não pode fazer”, afirma Ivane. Descobrir que os pacientes substituíam o uso do medicamento pela planta era o maior receio da pesquisadora. Ela descobriu que eles não abandonam os remédios convencionais, mas todos os 180 entrevistados mantém a combinação. Eles alegam que se sentem mais dispostos assim. A pesquisa mostrou ainda que apenas 52 dos entrevistados acreditam na cura pela fitoterapia. A procura por intervenções terapêuticas é um hábito passado a cada geração e de fácil acesso, pois as plantas podem ser compradas no supermercado ou colhidas no quintal.


Luzia Tolentino, 64 anos, tem problemas de labirintite, pressão, colesterol, artrose e hérnia. A senhora toma os remédios gincobiloba, propranol e forasemida e bebe chá de camomila à noite. “É ótimo para relaxar e dormir, mas pela manhã fico sonolenta e isso afeta o meu trabalho”, explica. Segundo Ivane, a combinação de calmantes sintéticos e naturais não é perigosa, mas deveria ser feita com menos frequência. “Ela sente essa moleza porque todos os componentes ajudam a diminuir a pressão”, afirma a farmacêutica.


Em geral, quem utiliza a fitoterapia desconhece a procedência e não sabe qual parte da planta pode ser consumida com segurança. “É preciso ter cuidado. Os nomes mudam em cada região e o pedaço utilizado para terapia pode ser tóxico”, alerta Ivane. Francisco Ferreira, 73 anos, bebe um composto de picão-de-rama com água que ele mesmo bate no liquidificador. A planta foi indicada por um conhecido de Goiânia. Dulce Soares, 64 anos, por sua vez, fornece boblobló aos vizinhos que sofrem de dor de cabeça. Para Dâmaris Silveira, orientadora de Ivane, a pesquisa contribui com a divulgação da informação aos usuários que contarão com um atendimento de melhor qualidade no ambulatório do HUB.
 
A pesquisadora também responsabiliza os profissionais da saúde pela falta de informação dos pacientes. Para Ivane, médicos e enfermeiros deveriam perguntar sobre os tratamentos alternativos no primeiro contato com eles. “As plantas medicinais são pouco estudadas na faculdade e não contam com uma disciplina específica que aborde as interações”, alega.


Em 2006, o Ministério da Saúde criou o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos para incentivar o uso dos recursos naturais pelo Sistema Único de Saúde. A lei está em fase de regulamentação para implementar práticas complementares nos postos de saúde e evitar a contaminação (mau armazenamento, proliferação de fungos e bactérias).

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