Eric Zambon
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Uma corrente de pensamento norte-americana acredita que a busca por conhecimento vai aumentar, mas o número de universidades vai diminuir. O argumento de defensores da ideia como David Roberts, da Singularity University, do Vale do Silício, nos Estados Unidos, é de que “as únicas universidades que sobreviverão são as que têm um nome forte”, conforme respondeu em entrevista ao El País. As demais, segundo ele, sucumbirão às novas tecnologias e velocidade de informação.
“Se a universidade não for expansiva, vai atrair pouco público ou simplesmente formar imbecis”, concorda a estudante do 7º semestre de Letras da Universidade de Brasília, Carina Rodrigues Lobato, de 30 anos. Ela diz confiar na UnB como uma instituição diferenciada, mas sugere que a universidade aumente seu leque de atuação. “É muito voltada para formar pesquisadores. O modelo favorece quem prefere continuar e trabalhar na própria universidade”, diz.
Apesar disso, a estudante destaca o papel da instituição na formação de visão crítica dos jovens. “Se um curso for bem ofertado, é difícil a pessoa ficar apartada da realidade”, opina. Para ela, a ideia de que lugares não adequados à necessidade de humanizar a educação do aluno perderão espaço é verdadeira.
Paradigmas confrontados
Na entrevista ao El País, David Roberts salienta que a educação padrão no mundo todo segue um modelo criado há mais de 100 anos e, portanto, estagnado. “Ensinamos nas escolas o que os colonialistas ingleses queriam que as pessoas aprendessem: matemática básica para poder fazer cálculo, literatura inglesa… Hoje não faz sentido. Temos de ensinar ferramentas que ajudem as pessoas a ter uma vida gratificante, agradável e que as preencha”, argumenta.
O pós-doutor em Educação e Tecnologias, Gilberto Lacerda dos Santos, é mais comedido em sua análise, mas afirma existir uma crise global nos sistemas de ensino. “No mundo inteiro ele sofre mudanças de formato, internacionalização, novos modos de ensinar e aprender a serem cultivados etc. É uma demanda mundial”, diz.
Para ele, a previsão sobre a extinção de universidades mais convencionais é um exagero. “Uma coisa é uma universidade com o contexto industrial do Vale do Silício ao redor. Outra coisa bem diferente é uma na zona rural do Tocantins, por exemplo. A demanda com certeza será bem distinta”, exemplifica. Nesse contexto, portanto, faculdades com intuito “apenas” de colocar profissionais no mercado seriam até mais desejáveis.
Fora das salas de aula
O especialista Gilberto Lacerda dos Santos lembra que o formato atual de algumas universidades, focadas mais no nome e nos números referentes a seus alunos, é uma resposta à própria demanda industrial. “O mercado sempre diz que os alunos não saem prontos da universidade, que gastam tempo aprendendo a atuar no mercado de trabalho. Eles podem até ter razão, mas a universidade tem um modo próprio de funcionar e é preciso entender”, explica.
O estudante do 3º semestre de engenharia da computação, Matheus Feitosa de Castro, 19, acredita que sempre vai existir mercado para as faculdades concentradas apenas em diplomar profissionais para o mercado. No entanto, segundo ele, a funcionalidade do ensino começa nas escolas fundamentais. Matheus conta ter experimentado, antes de ingressar na universidade, aulas extremamente mecânicas de Sociologia e Filosofia, voltadas apenas para o vestibular. “Caberia estimular o pensamento e fazer as pessoas terem novas visões de mundo”, defende.
Saiba mais
A Singularity University, com sede na Califórnia, estado dos EUA, funciona desde 2009. Ela tem a proposta de criar uma “comunidade global com mentalidade, habilidades e conexões para alavancar tecnologias exponenciais e criar um futuro abundante para todos”, conforme a página oficial da instituição.
Apesar do intuito disruptivo e comunitário, a mensalidade da universidade é uma das mais caras. Um curso básico de até 10 semanas na SU pode custar US$ 30 mil, valor comumente pago pelos norte-americanos por anos de educação “convencional” no país.
O Brasil ainda engatinha em propostas para educação disruptiva e comunitária.
O brasileiro Clayton Christensen, professor da Harvard Business School, por exemplo, critica que os empreendedores e empregadores querem soluções imediatas e não se atentam a outras formas de se obter conhecimento.