João Paulo Mariano
Especial Jornal de Brasília
Os alunos de Ciências Ambientais da Universidade de Brasília começaram o fim de semana com uma surpresa nada agradável. Funcionários da Prefeitura da UnB destruíram grande parte do Sistema Agroflorestal chamado Gaia (Grupo de Integração Interdisciplinar em Agroecologia), que funcionava há quase sete anos atrás do Centro Acadêmico do curso. Os últimos dias foram de discussões entre os alunos, para saber como reconstruir o projeto, e de conversas com a Reitoria da universidade, para entender o que houve.
No sábado de manhã, os novos alunos do curso chegaram às 9h ao Centro Acadêmico para uma apresentação do projeto, como ocorre todo o início de semestre. Porém, o que encontraram os assustou bastante: árvores frutíferas, plantas rasteiras e quase tudo que havia sido plantado no local estava cortado e empilhado no chão.
A conversa que os alunos ouviram foi que aquilo era uma determinação da prefeitura que tinha de ser cumprida. A ação só parou depois de uma das alunas, que estava grávida, conversar com quem teria comandado a situação.
Consternados, os estudantes só conseguiram empilhar tudo o que foi destruído e se reunir para decidir quais são os próximos passos. Um deles, com certeza, será a reconstrução do espaço utilizado para aulas práticas de vários cursos.
O estudante Caio Macedo, 27, diz que o intuito do projeto não era produzir agricultura, mas desenvolver uma forma alternativa de as pessoas estudarem a produção agrícola.
Segundo o colega Ítalo Veras, 24, além das árvores frutíferas – limão, laranja, amora e banana –, havia plantas nativas do Cerrado – como a copaíba, o baru, o ipê e o mogno – que não deveriam ser retiradas, pois há legislação que as protege.
Ítalo lembra que, como um espaço de construção coletiva utilizado até por outros cursos, havia bancos, caminhos organizados entre as plantações e jardins montados, o que deixa claro que tudo estava sendo cuidado.
“Tinha sinalização feita com recursos próprios. Não existe autorização para um projeto como esse. A formalidade pode até não existir, mas havia registro de professores e até de reportagens dos veículos de comunicação da UnB que falavam do projeto”, diz Ítalo. Há também publicações acadêmicas que falam do trabalho desenvolvido no local.
O estudante defende que não havia nada irregular no espaço. A torneira colocada foi um pedido feito pelo CA, com autorização da prefeitura do campus, para que a irrigação do plantio fosse feita. Essa teria sido a primeira interação negativa entre estudantes e prefeitura, já que, anteriormente, havia até a limpeza das áreas próximas e a utilização de material de compostagem pelos funcionários.
“Não houve ordem da reitoria”
O professor da área de Avaliação Ambiental da UnB, Thomas Ludewigs, espera que os alunos não desistam do projeto e que demandem infraestrutura do campus. Ele já fez atividades no local com cursos e o define como um “laboratório a céu aberto para aprender e praticar agroecologia”, além de reforçar o senso de ação coletiva. Ele espera que tudo se resolva.
De acordo com Pedro Zuchi, atual coordenador de Ações Estratégicas e Sustentáveis da UnB e ex- coordenador do curso de Ciências Ambientais, houve falta de comunicação entre as partes envolvidas – reitoria, prefeitura e estudantes. Mas ele garante: “Não houve ordem da reitoria para eliminar ou retirar a atividade dos estudantes”.
Ele explica que há uma grande ação de limpeza no campus, numa tentativa de diminuir a vegetação, afim de trazer mais segurança aos que transitam pela universidade. “Infelizmente, a vegetação estava elevada, e o desconhecimento interno de que aquilo não era uma simples vegetação elevada, mas atividade do centro acadêmico, levou ao ocorrido”, completa.
Zuchi diz que a situação não vai ficar como está e que é um momento de reconstrução. O plano é identificar espaços que possam estar sendo usados sem o conhecimento formal da instituição, para evitar que o problema se repita.
“Não buscamos culpados nem punições. Nós queremos efetivamente que esses fatos não ocorram novamente. Vamos registrar, delimitar área, colocar localização e montar critérios para que isso não ocorra”, assegura.
No início da tarde de hoje, haverá uma reunião entre estudantes e reitoria para saber de que forma o problema vai ser solucionado.