Daniel Cardozo
Especial para o Jornal de Brasília
Apesar das recentes mortes em acidentes de trânsito, os motoristas do DF não aprenderam a lição. O Detran, o DER e a PM abordaram 221 condutores que insistiram em dirigir bêbados no fim de semana. Houve aumento de 54% nos flagrantes de embriaguez ao volante se comparados os números de 2016. Acidente que envolveria essa mesma combinação, o suposto racha na L4 Sul tem as investigações cada vez mais perto do indiciamento dos motoristas.
A insatisfação com a apuração do crime foi exposta pela família das vítimas do suposto pega, ocorrido no último dia 30. Em depoimento à Polícia Civil, os parentes das duas vítimas se queixaram do fato de os suspeitos responderem ao processo em liberdade, da falta de contato com os investigadores e da ausência de exame de corpo de delito. As autoridades pretendem pedir novas perícias nos veículos para tentar determinar a velocidade no momento da colisão.
Centenas de imprudentes
- Entre os 221 motoristas bêbados autuados no último fim de semana, 11 foram levados a delegacias por apresentarem concentração de álcool acima de 0,3 miligrama por litro de ar, o que é considerado crime. Foram apreendidos 169 veículos.
- De janeiro a abril de 2017, 6.864 condutores foram flagrados na Lei Seca. No mesmo período do ano passado, o total chegou a 4.449 autuações. Houve aumento de 54%.
A batida que matou Cleuza Maria Cayres, 69, e Ricardo Clemente Cayres, 46, ainda está em fase de depoimentos. Os investigadores já ouviram 12 testemunhas, entre pessoas que presenciaram a colisão e os ocupantes dos três carros envolvidos. Já existiriam três relatos de que houve um racha que culminou nas mortes.
Os sobreviventes da tragédia, Osvaldo Clemente Cayres, 72, e Elberton Silva Quintão, 37, estiveram ontem na 1ª DP (Asa Sul). Em duas horas de depoimento, eles falaram sobre as circunstâncias da colisão. A capotagem foi rápida e, por terem sido atingidos na traseira, os dois afirmaram não assimilar o que de fato aconteceu. Abalados, decidiram não dar entrevista.
A viúva de Ricardo Clemente Cayres, Fabrícia Gouveia, revelou indignação com o desdobramentos do caso. Ela comparou as prisões de motoristas que atropelaram e mataram pessoas nos últimos dias, no Park Way e no Jardins Mangueiral. “Mataram meu marido e minha sogra. Então não há perícia que vá desmentir isso. Por que pessoas que cometeram atropelamentos com menor gravidade chegaram a ser presas e as que mataram meu marido estão em liberdade? Estamos desamparados pela Justiça”, criticou.
Apesar de acreditar na culpa dos suspeitos, a defesa por enquanto não pretende entrar com pedido de prisão preventiva ou qualquer medida parecida. O advogado da família, Tiago Pugsley, afirmou que aguardará o desdobramento das investigações para analisar uma possível ação. Mesmo assim, para ele, não restam dúvidas de que Eraldo José Cavalcante Pereira, 34 anos, motorista do VW Jetta, e Noé Albuquerque de Oliveira, 42, condutor da Land Rover Evoque, tenham fugido do local por temerem ser presos.
Saiba mais
- A militar do Exército Fabiana Albuquerque de Oliveira, 37 anos, irmã de Noé, também estava no local da colisão e foi a única a continuar ali, mas não teve participação confirmada no suposto racha. Por isso, não deve ser indiciada.
- Uma mulher que dirigia um Fiat Uno vermelho e teria ajudado Eraldo a fugir do flagrante negou qualquer ação nesse sentido, apesar de testemunhas relatarem o contrário.
‘Não teria fugido se não tivesse culpa’
Para o advogado Tiago Pugsley, a fuga dos envolvidos foi, no mínimo, uma assunção de culpa. “Se (Eraldo) fosse o autor do acidente e não tivesse nenhuma culpa, teria prestado socorro e ficado no local. Cada um sabe responder por si e a fuga é um indício de que ele tinha alguma culpa. Noé permaneceu, mas depois se evadiu também”, avaliou o defensor da família das vítimas.
Uma suposta omissão de socorro por parte de Eraldo também deve ser apurada pela Polícia Civil, já que ele deixou a L4 Sul e abandonou o carro no local do acidente. Já Noé chegou a acompanhar o trabalho dos bombeiros, mas, quando mencionada a possibilidade de exame do bafômetro, o suspeito também foi embora.
Existe a expectativa de uma nova perícia nos carros dos motoristas envolvidos no suposto racha. Pode haver inclusive contato com as fabricantes dos veículos para que os dados de GPS sejam analisados e, assim, sejam determinadas as rotas e a velocidade que os veículos estavam durante a batida. O Jetta e o Evoque continuam apreendidos.
Tanto o delegado João de Ataliba quanto a Comunicação da Polícia Civil afirmaram que não vão se manifestar antes do fim da conclusão do inquérito, o que deve acontecer em 20 dias. O advogado dos suspeitos não concedeu entrevista.