A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), reagiu com firmeza no início da noite desta quarta-feira (20) aos ataques e às pressões vindas da cúpula do MDB e do ex-governador Ibaneis Rocha. Em uma resposta direta ao vídeo publicado pelos emedebistas, a chefe do Executivo local sublinhou sua autonomia política e mandou um recado claro ao seu antecessor: “sucessão não é submissão”.
“Todos sabem que sucessão não é submissão. O DF me conhece porque eu já tenho quatro mandatos. Eu tenho consciência que fui leal durante todo o tempo que fui vice dele”, afirmou a governadora.
Celina reforçou que o cenário político mudou e que sua prioridade, no momento, é a gestão administrativa, e não o calendário eleitoral. “Hoje eu não sou mais vice-governadora, eu sou governadora”, pontuou. Ela justificou as recentes medidas duras adotadas em sua gestão citando a herança financeira que recebeu ao assumir o Palácio do Buriti. “Todos sabem que assumi com uma crise grave no BRB e um tombo bilionário nas contas públicas. Eu tenho trabalhado dia e noite para resolver esses problemas, tomando decisões que desagradam a muitos.”
Ao final, a governadora alfinetou a pressa do grupo político rival, afirmando que seguirá trabalhando enquanto “muitas pessoas estão preocupadas com a campanha”.
Estopim
A forte reação de Celina Leão ocorre poucas horas após a divulgação de um vídeo em que Ibaneis Rocha, ladeado pelo presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, pelo presidente regional da sigla e da CLDF, Wellington Luiz, e pelo deputado federal Rafael Prudente, criticou abertamente os rumos do atual governo.
Ibaneis subiu o tom e cobrou fidelidade ao projeto político que iniciou o mandato. “Nós apostamos na governadora Celina como um governo de continuidade daquilo que nós plantamos e de onde tiramos o desastre que era o Distrito Federal. Nos últimos dias temos tido muitas decepções”, atacou o ex-governador. Apesar do tom duro, ele ponderou que o movimento “não quer dizer rompimento, mas um realinhamento de posições”. “O MDB é um partido grande e vamos nos manter como um partido grande. Não vamos abrir mão das prerrogativas do MDB e daquilo que construímos e reconstruímos”, completou.
A fala de Ibaneis encontrou eco imediato nas lideranças do partido. Wellington Luiz destacou a entrega do MDB à frente do Executivo e do Legislativo nos últimos oito anos para justificar o tamanho da legenda na chapa. Já o presidente nacional, Baleia Rossi, foi ainda mais incisivo e ameaçou retirar o apoio à governadora caso o protagonismo do MDB seja reduzido: “Damos toda autonomia para os estados, mas não há chance do MDB não participar da chapa majoritária pela sua história, pelo que fez nos últimos anos. Como todo partido grande, queremos ter candidato a governador, mas essa é uma decisão do partido e terá todo o apoio do MDB nacional”, alertou Baleia Rossi.
Bastidores: Cores da logo, demissões e a disputa pelo Senado
Por trás das declarações públicas, a fervura nos bastidores do DF se divide entre disputas por espaço na máquina pública e a montagem do palanque para as eleições deste ano.
Segundo fontes ouvidas por nossa reportagem, o desconforto de Ibaneis Rocha começou com a decisão de Celina de alterar as cores da logomarca oficial do governo e de exonerar secretários que eram considerados da cota pessoal do ex-governador. Outro ponto de atrito é a estratégia de comunicação da governadora. “Tem incomodado o governador o tom de que ela está resolvendo os problemas de Brasília, como se ele não tivesse feito nada disso, e que ela está colhendo os frutos sozinha”, relatou um interlocutor.
No entanto, o principal nó político está na vaga para o Senado Federal. Interlocutores do MDB confirmam que o objetivo central da investida é forçar Celina Leão a declarar apoio público e irrestrito à candidatura de Ibaneis ao Senado.
Até o momento, a governadora vinha evitando se comprometer com nomes para a composição de sua chapa. O recuo ou o avanço de Celina é cirúrgico, visto que ela sofre forte pressão do PL para acomodar na mesma disputa a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e a deputada federal Bia Kicis — o que transforma a composição da chapa majoritária em um complexo jogo de xadrez no Distrito Federal.