Jéssica Antunes
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Naquela sexta-feira, quando chegou em casa, ela tremia, chorava e mal conseguia contar o que havia passado momentos antes. Era 23 de junho quando a adolescente de 15 anos foi surpreendida no caminho da escola por um estuprador, que a levou para um local abandonado e arrancou o botão da calça. A conjunção carnal não aconteceu, mas o trauma do abuso fez a vida da menina mudar: ela se sentia culpada. Quarenta e três dias depois, a jovem sorriu, aliviada, ao reconhecer o homem preso.
“Ela não queria ir à polícia. Tinha medo. O homem a ameaçou, disse que sabia onde morava, que a ‘esfolaria’ e faria tudo o que não fez. E ela se sentiu culpada e com medo. Parou de se arrumar, não queria colocar short, mostrar as pernas, deixou de ir à escola e só queria ficar no quarto. Ela demorou a entender que a culpa não era dela”, revelou a mãe da vítima, uma mulher de 37 anos. Neste ano, 486 pessoas foram vítimas do crime no Distrito Federal – um crescimento de 28,2% em relação a 2016 – e nenhuma delas tem culpa.
“É culpa da legislação, que permite uma pena branda a um crime dessa gravidade. Se não tivesse solto, não teria feito dessa menina mais uma vítima”, afirma o delegado Pablo Aguiar, da 27ª Delegacia de Polícia, no Recanto das Emas, onde o crime ocorreu. O homem foi identificado como Daniel Alves Rodrigues. Aos 33 anos, ele cumpria duas penas por estupros ocorridos Ceilândia em 2012. Há dois meses, o condenado conseguiu progressão de pena e cumpria prisão domiciliar.
“Quero ficar preso”
Na delegacia, Daniel confessou o crime. À polícia, disse ter sido vítima de abusos do pai na infância, entre os 9 e 13 anos. “Eu não consigo me controlar. Tem esse risco (de voltar a cometer o crime)”, afirmou, em prantos, quando apresentado à imprensa. “Eu não quero machucar ninguém, tenho vergonha. Peço perdão à sociedade por todo o mal que eu causei. Eu não quero liberdade, quero ficar preso e quero ajuda. É um mal que não quero que esteja em mim”, continuou.
Foi o próprio homem quem procurou a polícia, no fim de semana, para se entregar. “Quando ocorreu o crime, focamos em diligências nas proximidades, o que pressionou o estuprador para que se entregasse. Ele foi reconhecido pela vítima e, na madrugada de domingo, conseguimos a prisão. Ele se julga como compulsivo. A solução que vejo é que seja mantido encarcerado”, conta o delegado. Daniel morava perto da vítima e conhecia a região, tanto que cometeu o crime a pé.
Saiba mais
Segundo a Secretaria de Segurança Pública, 30% dos estupros registrados mês passado ocorreram na rua, e 70%, em locais fechados, como casas e locais de trabalho das vítimas. Ceilândia, Samambaia, São Sebastião e Brasília concentraram 45% do total de registros de violência sexual.
A coordenadora de Políticas para Mulheres da Secretaria de Estado de Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, Miriam Pondaag, relativizou o aumento de 28,2% das ocorrências de estupro. Para ela, há relação com a mudança de legislação. Com a alteração, além da conjunção carnal, outros tipos de abusos sexuais passaram a ser classificados também como estupro.
Punição traz alívio à família
“Não acredito em doença e não acredito nesse arrependimento. A pessoa que tem coragem de fazer isso é criminosa. Ele não merece perdão. Não merece ser chamado nem de ser humano”, afirma, emocionada, a mãe da vítima. Para ela, nada que tenha acontecido na infância do suspeito justifica o crime.
Agora, com apoio psicológico, a menina começa a voltar à rotina. Retornou à escola e consegue sair de casa – o que antes só acontecia se acompanhada. Emocionada, a mãe diz que sente-se aliviada pelo fato de o homem ter sido preso. “Finalmente vi minha filha voltar a sorrir. Graças a Deus passou. Que ele fique preso e não seja solto tão cedo”, pede a mãe.