Daniel Cardozo
Especial para o Jornal de Brasília
O esgoto tomou conta de galerias de águas pluviais no Parque do Guará. Peixes morreram e córregos secaram onde antes havia preservação. Em vez de servir para escoar água da chuva, uma tubulação tem sido usada clandestinamente para a passagem de dejetos. Chacareiros suspeitam que venha do Park Sul.
Há pelo menos três anos, uma mudança brusca tomou conta do cenário do Parque Ezechias Heringer. A construção dos prédios de luxo nas proximidades do SOF Sul foi responsável pelo cenário diferente, segundo os moradores. Quanto mais se aproxima das galerias de água de chuva, mais forte e incômodo é o cheiro. A água tem aspecto pastoso e, antes corrente, agora fica mais empoçada.
O prefeito comunitário do Parque do Guará, Altamirando Nóbrega, afirma que a pressão imobiliária nas proximidades trouxe esse tipo de consequência. “Nunca vi fiscalização da Caesb aqui. Anos atrás, essa água era limpa e nós até tomávamos banho com nossos filhos. Isso começou a secar depois da construção do metrô. Antes tinha peixe e era possível ver olhos d’água e nascentes”, lamentou.
Para ele, o interesse na região tem afetado a preservação. Apenas cinco dos 90 chacareiros que ocupavam a área persistem, por meio de liminares judiciais. “Foram eles que conservaram o que ainda existe. Se não estivessem aqui, o parque já teria acabado”, afirmou.
Em nota, o Instituto Brasília Ambiental garantiu fiscalizar a área e retirar gradativamente as invasões. Além disso, a licença ambiental do Park Sul existe e, portanto, o lançamento de esgoto não poderia ocorrer ‘in natura’. A Caesb respondeu que o esgoto da região é encaminhado à estação da Asa Sul.
Saiba mais
A Agefis desocupou uma área entre o SOF Sul e o Parque do Guará nesta semana. Nos últimos meses, os chacareiros tiveram casas derrubadas e a presença constante dos fiscais tem deixado claro que os ocupantes serão removidos. Quem continua na região se apoia em liminares judiciais.
Ocupantes cobram conservação
Um dos chacareiros que lutam para continuar no local é o aposentado Calixto José Pereira, 85, que afirma ter chegado há 45 anos na região. Recentemente, ele teve a casa derrubada em uma ação da Agefis, mas contesta as ações na Justiça. A batalha consiste em provar para o GDF que não foi indenizado na época da construção do metrô, que passa entre as chácaras.
“Eles vieram aqui, causaram um transtorno enorme e indenizaram meus filhos que tinham barracos no lugar da construção com uma mixaria. Agora vieram falar que havia provas de que eu tinha recebido dinheiro para desocupar minha chácara. Nunca recebi um centavo, mas alguém deve ter embolsado esse dinheiro”, disse.
Onde havia a casa de Calixto restaram destroços da construção e uma grande variedade de plantas. “Plantei mudas em volta do córrego para evitar erosão, mas em alguns lugares o esgoto tomou conta. Não estou morando aqui, mas venho todos os dias para cuidar”, afirmou.
A necessidade de fiscalização existe, já que é visível que a qualidade da água piorou. Essa é a opinião do coordenador do curso de Engenharia Ambiental da Universidade Católica, Marcelo Resende. “Na rede do Guará existem separadores de águas pluviais e esgoto, então o que pode ter ocorrido é uma ligação clandestina. Nesse caso cabe fiscalizar. Um lançamento como esse pode causar redução na taxa de oxigenação da água pelo aumento de matéria orgânica despejada. Peixes podem morrer e mesmo ser afugentados em direção ao Lago Paranoá”, opinou.