Um documento interno da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), elaborado pelos servidores recentemente afastados sob suspeita de operar um esquema de espionagem ilegal na Casa, revela a estratégia utilizada pela Diretoria de Tecnologia da Informação (DMI) para justificar a presença de softwares de monitoramento nos computadores de parlamentares e funcionários.
O documento foi apresentado em plenário pelo deputado Gabriel Magno (PT), que ressaltou o risco aos dados de servidores, deputados e visitantes. “Essa é uma denúncia grave, que precisa ser exaustivamente investigada. Uma suspeita dessas não pode prevalecer dentro do parlamento da Capital da Republica.”
O Memorando-Circular no 1/2026-DMI, assinado por Walério Oliveira Camporês (então Diretor da DMI) e Pedro Cunha Rêgo Célestin (Chefe do Seinf), tentava tranquilizar os gabinetes sobre o aparecimento de um ícone estranho nas áreas de trabalho: o programa “Stunnel”. No texto, os servidores — agora alvo de investigação — garantiam categoricamente que a ferramenta servia apenas para proteção de dados e que “não monitorava dados pessoais”.
“É fundamental esclarecer, de forma categórica, que nem o Stunnel, nem a solução Elastic Cloud. Enterprise, ou qualquer outra ferramenta implementada pela DMI, monitora os seus dados pessoais. […] preserva todas as informações pessoais e garante que todos os dados sensíveis sejam transmitidos de forma segura, à prova de interceptações.”
O documento utiliza uma linguagem didática, comparando o tráfego de internet a uma “rodovia pública” e descrevendo o Stunnel como um “túnel blindado e invisível” para o tráfego de informações de segurança. Entretanto, para os investigadores, o que era apresentado como uma “central de inteligência e disponibilidade” (o sistema Elastic Cloud Enterprise – ECE) pode ter sido a porta de entrada para o acesso não autorizado a comunicações privadas de deputados distritais.
No memorando, Camporês e Rêgo chegavam a citar a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) para reforçar a legitimidade das ações, afirmando que o foco era “exclusivamente na segurança” e na detecção de vírus que sistemas antigos não identificavam. Eles orientavam que os usuários não precisavam “clicar ou interagir” com o ícone, pois o software trabalharia sozinho “nos bastidores”.
“O papel da Tecnologia da Informação é garantir que você tenha um ambiente de trabalho seguro […] Você não precisa clicar ou interagir com o ícone do Stunnel. Ele trabalha sozinho”, diz o texto assinado pelos investigados.
A revelação deste documento coloca sob nova luz as atividades da DMI nos meses que antecederam o afastamento da cúpula de TI da Casa. O que os servidores chamavam de “evoluções importantes” e “preparação para o futuro” está agora no centro de um inquérito que apura se as ferramentas foram desviadas de sua finalidade técnica para fins de monitoramento político e quebra de sigilo.
Investigação
Nesta terça-feira (12), o presidente da Câmara Legislativa, Wellington Luiz (MDB), anunciou que o caso será enviado para a Polícia Civil do Distrito Federal, para que seja feita a investigação do caso.