Manuela Rolim
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Ele só precisava de alguém disposto a estender a mão. Chamá-lo para almoçar. Convidá- lo a deixar a rua. Encorajá-lo a largar o vício. Proporcionar-lhe um lar. E, talvez a melhor das ofertas: ter compaixão pela sua história. Personagem principal deste enredo, o padeiro e confeiteiro Manoel de Freitas Ribeiro, de 51 anos, ganhou, exatamente na ordem descrita, uma oportunidade. O ex-morador da Rodoviária do Plano Piloto, que relatou o drama da sua vida ao Jornal de Brasília quando ainda não tinha um lar, foi resgatado. A reportagem foi publicada em janeiro deste ano.
Uma professora se comoveu com a situação e convenceu o homem a sair da rua e buscar amparo
Era um sábado comum. Passageiros lotavam o terminal. Vendedores ambulantes ofereciam seus produtos a quem passava perto. Ônibus chegavam e saíam a todo momento. E Manoel também continuava como nos últimos meses: alcoolizado em qualquer canto da rodoviária. Nesse mesmo dia, porém, a professora Mariza Eiras resolveu mudar essa realidade. Depois de conhecer e se comover com a situação do padeiro, ela o convenceu a sair da rua e buscar amparo na Igreja Adventista do Sétimo Dia, em São Sebastião.

Manoel foi para as ruas devido à dependência de álcool. Foto: Kleber Lima
“Mariza não o conhecia, mas contou que sentiu vontade de chamá-lo para almoçar. Desde então, começaram a criar uma amizade. Toda vez que ela passava pela rodoviária, fazia questão de encontrá-lo. Até que um dia ele resolveu aceitar ajuda”, detalhou o vendedor Gerry de Carvalho, 38 anos. Frequentador do templo religioso que recebeu o morador de rua, ele também ficou sensibilizado com o caso e passou a fazer parte da recuperação de Manoel.
“Trouxemos-o para tomar um banho na minha casa. Depois, o levamos para fazer a barba e assistir ao culto. Mais tarde, a Mariza o levou à igreja outra vez. O problema é que não tínhamos um lugar para o Manoel passar a noite. Depois de pedir ajuda para o pastor, conseguimos algumas doações e, com o dinheiro arrecadado, alugamos um cômodo para ele ficar. Tudo isso aconteceu em um único dia. De fato, foi o sábado que mudou a vida dele”, relatou o vendedor.
Mariza ainda ficou pagando o aluguel sozinha depois que as doações acabaram.
Na madrugada do dia seguinte, no entanto, o padeiro teve uma crise de abstinência que o fez parar na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade. Manoel teve convulsões e alucinações durante a noite, mas recebeu alta depois de ser medicado. “Disse que nunca mais iria beber e assim fez até agora. Além disso, não falta a nenhum culto na igreja”, comemorou o amigo.
Noite inteira com a mão na massa
Manoel se emocionou ao encontrar a reportagem do JBr. de novo. Dessa vez, na sua casa. “Tive uma oportunidade única na vida. Encontrei pessoas abençoadas. Aquilo não era vida para ninguém. Estou muito feliz de não ter mais que dormir no chão”, disse.
Profissionalmente, o ex-morador de rua também está realizado. Há pouco mais de um mês, ele conseguiu um emprego em uma padaria no Sudoeste. “Meu sonho era voltar a fazer meus pães. Consegui depois de distribuir meu currículo na cidade”, acrescentou.
Atualmente, ele entra no serviço às 17h e fica até as 6h do dia seguinte. “É puxado, mas ocupa a mente e isso é ótimo. Passo a noite inteira com as mãos na massa. Produzo cerca de dois mil pães por dia. Aos poucos, a vida está começando a se ajeitar. A coisa mais gratificante foi quando recebi meu primeiro salário de novo”, alegrou-se.
Há 18 anos no DF, o cearense da cidade de Paraipaba viveu na Rodoviária do Plano Piloto durante oito meses. Antes, morou em São Sebastião com uma companheira, que o deixou por causa do alcoolismo. Manoel já soma 38 anos de profissão e seu último emprego foi em uma padaria na W3 Sul.
No Ceará, deixou um filho de 28 anos, que nunca conheceu. “Queria dizer para ele que sou seu pai, que gosto dele. Eu iria fazer um pão para o meu filho. Tomar um café com leite com ele”, finalizou o morador de rua, visivelmente emocionado.
Amizade
“Sinto que fui mais ajudado do que ele e que ganhei um grande amigo. Passei a enxergar os moradores de rua com respeito, independentemente do cheiro, da roupa e da aparência”, orgulha-se o amigo Gerry de Carvalho.
Para o vendedor, o momento mais emocionante foi quando eles o levaram para cortar o cabelo. “Os olhos brilhavam e o sorriso não cabia no rosto. Acho que foi um encontro consigo mesmo. Ele olhou no espelho e se reconheceu outra vez”, lembrou Gerry, que também já teve o álcool como inimigo.