Raquel Martins Ribeiro
Especial para o Jornal de Brasília
Discussões sobre a pobreza, e como a questão ambiental interfere diretamente nas questões sociais marcaram o segundo dia do 18º Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), nesta quinta (18). A mostra competitiva, realizada no Cinemão, na Cidade de Goiás – (GO), provou porque é considerada a maior da América Latina com essa temática, em um dia com sete produções singulares. Dessas, três documentários – o média-metragem indiano Phum Shang; e os longas, o mexicano Café (Cantos de Humo) e o alemão, La Supplication –, têm grandes chances de conquistar prêmios no festival.
Umas das principais peculiaridades do Fica é a possibilidade de conhecer realidades tão diferentes das que vivenciamos. Descobrir histórias que possivelmente não seriam vistas em nenhum outro lugar. Dirigido por Haoban Paban Kumar, o documentário de média-metragem indiano Phum Shang é um desses casos. A obra apresenta o drama de uma comunidade de pescadores que se vê obrigada a deixar as choupanas flutuantes onde vivem, no lago Loktak, em Manipur (Índia). Sobre o pretexto de despoluir o lago, o governo local queima as casas, feitas de biomassa, e expulsa seus moradores, que resistem firmemente as investidas das autoridades.
“Eu soube do que acontecia lá, e entendi que essa história precisava ser contada do ponto de vista desses pescadores e suas famílias”, explica Haoban Paban Kumar que levou três anos para finalizar o documentário. “Não foi uma tarefa fácil conquistar a confiança e o respeito deles. Precisávamos disso para que eles aceitassem a nossa presença e deixassem que filmássemos o seu cotidiano. Com o tempo eles foram perdendo a timidez. A realidade deles foi retratada de maneira bem natural”, revela o diretor em entrevista ao JBr.
O cineasta ressalta o caráter ativista do documentário, que deixa claro como o governo local culpa injustamente os pescadores, enquanto todo o lixo produzido pelo centro urbano é despejado no lago. “É evidente que a poluição que mora no rio não é o problema, mas o governo escolheu o jeito mais fácil de lidar com isso. Sem se preocupar com as vidas que seriam afetadas”, conclui.

Café/ Reprodução
Esperança
Tocando em temas como o aborto, o longa Café, de Hatuey Viveros Lavielle, narra a trajetória de uma família de Nahuati, nas montanhas de Puebla (México). Jorge, um jovem criado pelos avós, e está prestes a se formar em direito. Ele pensa em deixar sua casa e ir em busca de uma carreira profissional. Com um enredo que dá ares de ficção à produção, o documentário gira em torno das dificuldades do cotidiano pobre e sem muitos recursos da família de Jorge, passa pelas lembranças do pai, morto há dois anos, e pela gravidez da irmã aos 16 anos.
Jorge é o primeiro em gerações a conquistar um diploma de nível superior, e usa sua vitória pessoal para ajudar, sem nada cobrar, pessoas de Nahuati. Jorge é a esperança de dias melhores para todos que o cercam. Delicado, o filme não apresenta logo no início para o que veio, é preciso que o espectador vá descascando suas camadas. E cena a cena mergulhando na simplicidade e emoção de Café.
Dor radioativa
Em La Supplication, documentário de Pol Cruchten, pela primeira vez um filme retrata o desastre nuclear da usina de Chernobyl, na Ucrânia, a partir da visão das pessoas que tiveram suas vidas devastadas para sempre, por gerações e gerações. Baseado no livro da bielo-russa Svetlana Aleksiévitch, ganhador do prêmio Nobel de Literatura, o filme traz relatos chocantes sobre a catástrofe. Sobreviventes contam como eram seu cotidiano antes e depois da radiação.
Cada história parece um soco no estômago de quem assiste. É impressionante perceber que 30 anos depois, os detalhes que envolvem Chernobyl permanecem tão obscuros. São muitas perguntas e poucas respostas. E em meio a nebulosidade que envolve a tragédia, estão as pessoas afetadas pela radiação. “Nós não somos como todo mundo. Não vivemos como todo mundo. E não vamos morrer como as outras pessoas. Estamos sós”, afirma uma das testemunhas vivas.