Com apenas 15 dias de vida, o pequeno Davi Luís Saldanha Cardoso ensinou aos pais, irmãos e amigos da família que se deve lutar por uma saúde pública melhor. Apesar de toda a persistência da família para tentar conseguir um leito na UTI para o recém-nascido, o bebê não foi contemplado com uma vaga na unidade, mesmo com decisão judicial favorável. O recém-nascido não resistiu e morreu no Hospital Regional do Paranoá (HRPA). Marcado pela dor da família, o velório do bebê aconteceu no início da manhã de ontem.
Uma missa foi celebrada na paróquia que a família frequenta, no Paranoá. Depois, a despedida. Na capela 4 do Cemitério de Sobradinho, parentes e amigos prestaram as homenagens à criança. Em uma cerimônia singela e reservada a poucas pessoas, a emoção falou mais alto. Um terço foi rezado momentos antes do sepultamento. Músicas católicas também foram entoadas em alusão à fé.
Antes do cortejo, o pai do bebê, Osmar Ribeiro Cardoso, 49 anos, se despediu com um beijo carinhoso no pequeno, o sexto filho de um casal humilde. O caixão branco foi carregado por dois amigos da família. À frente, um homem segurava a cruz de Cristo. Visivelmente abalada, a mãe de Davi, Marta Lanuzia, 46 anos, não conteve as lágrimas no momento do enterro. Ela deixou deixou rosas brancas no caixão do filho. O exemplo foi seguido por uma das filhas pequenas.
Liminar
Pai da criança, Osmar tentou de tudo para salvar o filho, que nasceu em 27 de maio. O porteiro recorreu à Defensoria Pública e ao Tribunal de Justiça, mas viu uma liminar não ser cumprida pela Secretaria de Saúde. “É uma metade de mim que está indo embora. A dor é muito grande. Faltou uma assistência da Secretaria de Saúde. Mesmo com poucas chances de vida, se houvesse empenho, meu filho poderia estar vivo. Essa era a nossa fé”, diz.
Osmar explica que depois de recorrer à imprensa, o paciente chegou a ser transportado dois dias antes do óbito ao Instituto do Coração (Incor). O porteiro esclarece que uma viatura equipada fez o transporte da criança do HRPA para o Incor. Para o pai, as chances de vida do recém-nascido já tinham aumentado em razão do tratamento.
“A tendência era só melhorar e eu perdi meu filho sem mais nem menos. Isso é muito dolorido. Para sempre, o Davi vai ser a minha sexta criança. Ele seria meu segundo ‘homenzinho’. Tenho quatro mulheres e seriam dois homens, mas o meu bebê foi um anjo”.
A batalha ainda não terminou
Quando veio a notícia da morte de Davi, uma outra preocupação surgiu: os custos do enterro. A família, então, precisou recorrer aos órgãos públicos de assistência social, que doaram um caixão para o corpo da criança.
A família afirma que vai continuar na batalha pelos seus direitos, em virtude do descumprimento da decisão judicial que determinava a internação imediata de Davi em uma Unidade de Terapia Intensiva. Durante os dias em que o bebê esteve internado, o pai bravamente ia diariamente ao hospital visitar o filho. A mãe também acompanhava a criança pessoalmente, depois de receber alta.
“Pagamos tantos impostos e ainda não temos o direito de uma saúde digna. Levaram meu filho o mais rápido que podiam. Perdi minha riqueza, mas tenho fé em Deus que Cristo o aliviou de um sofrimento ainda maior”, aponta. “O período dele aqui foi passageiro, mas serviu para dar exemplo às outras pessoas que estão esperando também por uma vaga na UTI”, emenda.
A irmã mais velha de Davi, Luana Saldanha, 25 anos, não escondia o abalo estampado no rosto. A dona de casa ressalta que a família está se consolando na fé que tem em Deus para superar a perda.
“É uma tristeza inconsolável, mas temos muita fé e isso que é o importante. Deus é melhor remédio para tudo, principalmente em situações como essas”, ressalta.
Anjo no céu
Amiga da família, Kelly Anne, 32 anos, também já sentiu a dor de perder um filho ainda nos primeiros momentos de vida. A mulher, que trabalha como apoio operacional, relata que aos oito meses de gestação, constatou a morte do filho ainda no ventre. Depois disso, ela conseguiu realizar o sonho de ser mãe, mas não se esquece da dor que viveu.
“Passei o que a mãe do Davi está passando e sei o que é a perda de um filho. Dói nas entranhas, pois uma mãe sonha em criar, educar, dar amor e ensinar a fé ao seu filho. Agora, eles tem um anjo no céu e precisam de força”, aponta.