Jéssica Antunes
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O coração de Maria Fernanda parou de bater após 70 dias internada na UTI neonatal do Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib). A garotinha nasceu com 27 semanas, antes do sétimo mês, com 29 centímetros de comprimento e 580 gramas. Fernando dos Santos, autônomo de 34 anos, e a esposa ainda tentam lidar com a dor da perda da primeira filha, sentimento compartilhado por outras três famílias de bebês prematuros que morreram no mesmo local e no mesmo dia. A Secretaria de Saúde fala em coincidência e descarta infecção, surto ou bactérias.
“É uma triste, grande e infeliz coincidência. Até fiquei preocupado de o hospital ter responsabilidade, de ser alguma doença espalhada, como uma superbactéria”, afirmou o pai, emocionado e abalado, enquanto aguardava a liberação do corpo da menina para o enterro. Com exclusividade ao Jornal de Brasília, ele contou que a gestação foi complicada. Alguns problemas com a placenta, dificuldade de receber nutrientes e pré-eclâmpsia (hipertensão arterial específica da gravidez) fizeram o parto ser prematuro.
“Estava tudo bem. A bebê estava bem, sem dificuldades, já desentubada, mas teve uma complicação de domingo para segunda. Teve uma pneumonia forte e, por volta das 12h30, morreu. Minha mulher ficou o tempo inteiro no hospital, nem foi em casa. Ela está arrasada. Agora é só dor”, lamenta.
Fernando diz não ter do que reclamar do atendimento na unidade médica, mas critica a atitude de profissionais de saúde circularem pela rua com jalecos usados na UTI.
Memória
- A bactéria Serratia contaminou pelo menos três bebês em março deste ano na UTI Neonatal do Hmib. Os recém-nascidos precisaram ser isolados e um deles morreu. No mesmo período, outras duas crianças morreram, mas a contaminação pela bactéria foi descartada.
- A situação restringiu o atendimento por algumas semanas. A assistência no Centro Obstétrico ficou reduzida a casos emergenciais e os pacientes de baixo risco foram direcionados para os hospitais regionais do Paranoá, da Asa Norte e de Samambaia.
- Em janeiro, problemas com fornecedores levaram o Hmib a suspender partos. De acordo com a empresa que abastece as caldeiras da instituição, o governo não tinha pago uma dívida de R$ 200 mil, referente às faturas de outubro e novembro do ano passado.
Mortes não têm relação
Subsecretária de Atenção Integral à Saúde, Marta Vieira descarta a possibilidade de doença em comum causada por agente infeccioso ou transmissível. Não há, segundo a gestora, qualquer risco ambiental e os quatro óbitos registrados na segunda-feira não têm relação direta, apesar de ter chamado a atenção a piora dos quadros no mesmo dia e nessa quantidade.
“Eram bebês com evolução complicada devido a problemas da própria condição crítica da prematuridade. A única coisa comum entre eles era que estavam dentro de uma UTI neonatal, onde há recém-nascidos em casos graves, que, às vezes, já nascem em condições ruins de sobrevivência”, explica. As crianças tinham entre três dias e dois meses. “Não faltou nenhum tipo de assistência, eles infelizmente perderam a batalha”, garante Marta Vieira.
“Não existe motivo para alarde”
A Secretaria de Saúde lembrou que Hmib é a unidade referência no atendimento de alta complexidade para pediatria e ginecologia e que os pacientes internados na UTI geralmente estão com quadro de saúde grave e complexo. “A situação é de normalidade. Não houve motivo para alarde porque não é raro acontecer óbito dentro da unidade”, ressaltou a subsecretária. As crianças internadas contariam com assistência ininterrupta.
“Sempre tem um descaso”, revelou Talita dos Anjos, estudante de 21 anos. A irmã, Alice, de quatro meses, nasceu prematura e ficou dois meses internada na mesma UTI em que os quatro bebês morreram na segunda-feira. De acordo com ela, algumas crianças não têm tanta assistência quanto precisam. “Poderia ter sido com minha irmã, apesar de ter sido bem cuidada. A gente sempre desconfia”, observou.
Apesar de a pasta garantir que não há anormalidade no hospital, a notícia da morte dos bebês causa desconfiança os pais. “Se soubesse, jamais teria trazido meu filho. Não tem como não ficar com o pé atrás”, disse a empresária Lijiane de Oliveira, de 29 anos. Ela passou a noite de segunda com o filho internado por fortes dores abdominais.