Foi debruçada nas pias da cozinha para observar a desenvoltura das avós no forno e fogão, ainda criança, que a chef Renata Carvalho se recorda das primeiras vezes em que pensou em seguir a carreira da gastronomia. Na verdade, não chegava a pensar, mas admirava a habilidade das duas referências maternas ao unir as investidas dos sabores à afetividade.
“Minhas avós cozinham até hoje e eu nasci praticamente na cozinha. São mulheres que organizaram a família. Quando você representa essa afetividade na cozinha, o entendimento de família fica mais completo. E é o que eu tento trazer para a minha vida: tratar o meu cliente com afeto”, diz, entusiasmada.
A inspiração familiar deu mais que certo. Proprietária de dois estabelecimentos conhecidos na cidade – Loca Como Tu Madre e do vizinho Ancho Bistrô de Fogo -, Renata Carvalho alcançou um cobiçado posto: é uma das únicas chefs no Brasil a aliar a rusticidade da cozinha de fogo à alta gastronomia. E enfrenta altíssimas temperaturas na parrilla em dias de grande movimento. “É inevitável que o contato constante com o fogo acabe em algum tipo de cicatriz. Mas minha paixão é maior que isso”, orgulha-se.
O amor pelas altas temperaturas surgiu na Argentina, quando estudou no Instituto Argentino de Gastronomia. Foi lá também que ela se aproximou do chef argentino Francis Mallmann, respeitado internacionalmente pela culinária de fogo. Renata Carvalho decidiu, então, reverenciar as chamas em todas as formas de utilização na cozinha, em uma mistura de rústico, sofisticado e contemporâneo.
Sem glamour
A carreira, que hoje é reconhecida, não é alimentada apenas pelo glamour. “Não tem Natal, Dia dos Namorados, Dia dos Pais, Dia das Mães… É tudo dedicado ao cliente. Estamos trabalhando para que os outros se divirtam. É uma abnegação, mas que sempre vale à pena”, conta.
Mas todo o empenho profissional da chef de cozinha hoje é refletido em números. Aos 33 anos, Renata comanda uma equipe de cerca de 90 pessoas diretamente, além de gerar empregos indiretos. “Oitenta porcento deles são homens. É um mercado predominantemente masculino”, lamenta.
Ela conta que na cozinha tem o apoio de outras mulheres, mas que, na maioria das vezes, ficam bem distante da parrilla. “Elas preferem o fogão convencional e as guarnições. O calor assusta um pouco, realmente”, confessa.
Com dez anos de estrada, Renata Carvalho diz que encontrou poucas mulheres pela trajetória profissional. “Não é fácil o caminho. Sempre digo para quem queira seguir o meu caminho: rale muito. É uma trajetória de esforço e dedicação, daquele tipo de iniciar a carreira na pia, lavando louça, até a oportunidade acontecer”, orienta.
Reconhecida no meio profissional, Renata Carvalho coleciona, além de elogios, muita experiência. Depois de ter trabalhado no famoso Café Vinilo, em Buenos Aires, e no programa de TV Cozinha Caseira, do Canal Fox, a chef atuou ainda como curadora da Feira Internacional de Turismo (Fitur), realizada em Madri (Espanha) em 2012. “O mais importante de tudo é que toda essa bagagem que adquiri na vida hoje é refletida para o meu cliente. Mas sem dúvida, a cozinha afetiva é a melhor das heranças que recebi”, finaliza.