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Brasília

Quando o "vício" extrapola o limite

Arquivo Geral

02/05/2015 6h00

Jurana Lopes

Especial para o Jornal de Brasília


Com a  tecnologia em alta e a internet em grande parte dos celulares, muita gente não desgruda dos smartphones. Entretanto, o uso do telefone de maneira excessiva pode comprometer as atividades no trabalho. Algumas empresas autorizam a utilização, enquanto outras proíbem por completo, alegando   diminuição na produtividade. E essa discussão   tem ganhado força, formalmente, via convenção coletiva das categorias. 

Maria (nome fictício) passou por apuros na hora de ser atendida em um hospital particular de Taguatinga. Ela procurou ajuda porque estava com infecção de garganta e relata que, durante a consulta, a médica passou o tempo todo com o celular na mão, trocando mensagens no WhatsApp. Depois, receitou uma injeção de Benzetacil, medicamento que pode causar alergia em alguns pacientes. Ela diz que a  médica não perguntou se Maria já havia utilizado o remédio antes e o resultado foi uma alergia.

“Tive uma péssima reação. Fiquei com uma mancha roxa   e não resolveu o meu problema. No outro dia, tive que ir a outro hospital. Tudo isso foi porque a médica estava com o celular na mão e não me deu atenção, não fez um bom atendimento”, conta, indignada. Segundo a paciente, a reclamação feita na ouvidoria do hospital foi tratada com descaso.

De acordo com o Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde  (Sindsaúde- DF), não existe   regra  que proíba o uso do celular. Mas  é recomendado que  seja moderado e, de preferência, nos horários livres.

Puxão de orelha

O critério de uso é definido, na maioria das vezes, pelo empregador. A assistente administrativa Joana Timbó, 30 anos, trabalha em uma empresa do ramo de Tecnologia da Informação que não proíbe o uso do aparelho. Porém, ela já  teve   a atenção chamada por isso. “Eu ficava muito tempo no celular e, um dia, meu patrão me chamou para conversar e solicitou que eu me policiasse mais quanto ao   telefone. Depois disso, diminuí o uso e, dependendo do que estou fazendo, nem pego no celular”, revela.

Comércio apela para o bom senso

O assunto tem repercutido no comércio do DF. Por causa de  reclamações recebidas de lojistas, o Sindicato do Comércio Varejista do DF (Sindivarejista-DF) resolveu se reunir com a diretoria do Sindicato dos Comerciários no DF (Sindicom-DF) para colocar o assunto na pauta da Convenção Coletiva 2015.

De acordo com o presidente do Sindivarejista, Edson de Castro, o motivo do debate, que ocorrerá neste mês, são as reclamações dos lojistas. “Recebemos queixas por telefone e e-mail de vários comerciantes que estão tendo problemas com os funcionários, que deixam de atender o cliente para mexer no celular. Não podemos proibir o uso, mas tentaremos restringir a prática em nome do bom senso. Deve haver moderação onde há excessos. Tudo isso é para que as vendas e o atendimento de clientes não sejam prejudicados”, explica.

Moderação

Segundo Castro, o Sindivarejista- DF defende o uso do celular,   desde que seja de maneira moderada. “É proibido manter o funcionário incomunicável, mas o que queremos orientar é que os trabalhadores deixem os celulares guardados e passem o telefone da loja para a família. O que tem faltado é bom senso, as pessoas ficam desatentas  quando vão responder mensagens no WhatsApp ou ligar para alguém. Através das câmeras de segurança, os lojistas têm comprovado que os funcionários estão deixando o cliente de lado para usar o celular”, afirma. 

O presidente do sindicato  informa ainda que o uso do celular tem contribuído para o aumento de furtos em lojas de rua e destaca que estão ocorrendo muitas demissões no setor devido ao uso excessivo de celular.

Em nota, o Sindicato dos Comerciários   declarou ser contra a proibição do uso de celular em local de trabalho, conforme posição defendida pelos sindicatos patronais. Na avaliação do Sindicom-DF, o uso do  celular não prejudica a produtividade, tampouco a qualidade dos serviços prestados.

“Ao contrário disso, o uso, com moderação,  propicia melhor ambiente de trabalho e qualidade de vida, uma vez que o trabalhador pode  manter-se informado sobre seus familiares e assuntos que dizem respeito à   vida profissional e pessoal”, diz o texto. 

O Sindicom-DF considera leviana e irresponsável a afirmação de que o comportamento do trabalhador ao usar o aparelho é responsável pela redução de produtividade e/ou qualidade do atendimento ao cliente.

Zélio Vargas, dono de um restaurante no Sudoeste, conta que não proíbe os funcionários de utilizar o celular, mas pede que o uso seja moderado, de acordo com o movimento do local. 

“Nunca tive problemas com o uso excessivo de celular. Tanto é  que a senha do wi-fi é liberada para eles. Não acredito que o celular interfira na produtividade dos funcionários”, avalia.

Construção Civil proíbe uso nos canteiros

Desde setembro de 2014,  o setor da Construção Civil   proíbe o uso do celular nos canteiros de obras do DF. O descumprimento da orientação acarreta  em advertência. Em caso de reincidência, os trabalhadores recebem as mesmas punições dadas por não fazer  uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) – a máxima é    demissão por justa causa. 

A proibição foi acordada entre o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Brasília (STICMB) e o Sindicato da Indústria da Construção Civil  (Sinduscon-DF), via Convenção Coletiva de Trabalho,   e tem como objetivo prezar pela segurança dos operários. Durante 90 dias, o setor desenvolveu atividades educativas nos canteiros de obras.

Proteção a riscos

Para o diretor de Política e Relações Trabalhistas do Sinduscon, Izidio Santos, a rotina dos canteiros pede um cuidado especial aos profissionais. “No DF, são mais de 90 mil trabalhadores. O uso do celular é unânime na sociedade moderna. A construção civil tem um cotidiano atípico, que pede esse cuidado. Essa proibição não busca privar o trabalhador de se comunicar, mas protegê-lo dos riscos que seu dia a dia profissional oferece”, destaca.

Segundo Santos, o celular é um dos causadores de acidentes, pois tira a atenção do trabalhador. Por causa disso, se o funcionário precisar utilizar o aparelho, ele pede para o chefe do setor e vai a um local apropriado. “A restrição   é voltada somente para proteger o trabalhador, assim como os equipamentos de proteção individual”, conclui.

Sala de aula

Os celulares estão por toda parte: nas obras, nas lojas e… nas salas de aula.  O professor Dyago Lima, 24 anos, explica que, apesar de usar muito o smartphone, quando entra em sala, esquece que o aparelho existe. “Coloco no silencioso e guardo. Só pego no horário do intervalo, até porque eu cobro que os meus alunos não usem o  celular. Então, tenho que dar o exemplo”, conta. A orientação também é passada pela direção aos professores.

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