O que parecia tão difícil, só pra usar as palavras de Juliana, mostrou-se possível: recuperar o tempo perdido. Na próxima quinta-feira, às 19h, a coroação da conquista. Os adolescentes, do CED 04 do Guará, estarão no auditório da Administração Regional da cidade, para a solenidade de formatura do Ensino Médio.
A oportunidade de entrar nos trilhos chegou com o Programa Vereda, parceria entre a Secretaria de Educação e a Fundação Roberto Marinho, que busca corrigir a distorção idade/série. Neste semestre, 5.436 estudantes concluíram o Ensino Médio por meio do Vereda, em todo o Distrito Federal. Somente no Guará, são 259 formandos.
“O Vereda é um show de bola, porque além de resolver a distorção, combate o abandono escolar, que hoje é um dos principais problemas da educação brasileira”, avalia o secretário de Educação, José Luiz Valente. “A tendência de o estudante desistir quando se vê em aula entre os colegas mais novos é muito grande. Ele começa a se achar incapaz, desenvolve baixa autoestima, perde o interesse”, prossegue Valente.
Para o secretário, o poder público não pode simplesmente voltar as costas para esses adolescentes e jovens. “Hoje, o acesso à educação está resolvido, mas isso não significa que não devamos nos preocupar com aqueles que, mesmo tendo esse acesso, pararam no meio do caminho”, afirma. “Se o estudante apresenta dificuldade, é obrigação do Estado descobrir o porquê e encontrar meios de mantê-lo ou trazê-lo de volta para a vida escolar.”, analisa.
Três histórias
Marivane Souza dos Anjos, 19 anos, foi reprovada na 1ª, mas não consegue lembrar o porquê. Na 5ª série, bomba de novo, só que ela recorda-se muito bem. “Morava em Coribe, no interior da Bahia, em uma fazenda, onde o diabo perdeu as botas”, conta a jovem, referindo-se à pequena cidade a 940 quilômetros de Salvador, no extremo oeste do estado.
“Só pra pegar um ônibus pra ir à escola, caminhava três quilômetros por uma estrada de chão”, relembra. Nesta época, a família veio para o Distrito Federal e Marivane conseguiu prosseguir com os estudos. Trabalhando em uma sorveteria, planeja prestar vestibular para enfermagem ou nutrição “porque nestes ramos, pra quem é bom, não falta emprego”.
Jonathan Santos, 18 anos, perdeu a 6ª série do Ensino Fundamental e o 1º ano do Ensino Médio. Da primeira vez, o motivo foi a mudança da família, que saiu do Paranoá e foi para a Estrutural no meio do período letivo. Da segunda, a razão foi menos nobre. Faltava demais e quando aparecia em aula mais brincava do que estudava.
“Não cheguei a querer desistir, mas eu me arrependi de não ter levado a sério e o Vereda deu um empurrão, pra me recuperar”, afirma o rapaz. Atualmente trabalhando em uma lan house, Jonathan pretende estudar para concursos públicos e tentar o vestibular de Educação Física.
Juliana Rodrigues, 18 anos, perdeu a 1ª série do Ensino Fundamental, em Anápolis, interior de Goiás, onde morava, e o 1º ano do Ensino Médio, já no Distrito Federal. “No começo, quando entrei pra escola dava conta de aprender em aula e fazia os deveres, mas esquecia tudo depois e fiquei com nota baixa”, conta a estudante. “Quando cheguei no Ensino Médio, tomei pau porque era tudo difícil demais, muito diferente da 8ª série”, completa.
A jovem ainda não está procurando emprego. Primeiro, quer concluir o curso de computação que começou, para poder obter uma colocação melhor. Outro projeto é fazer faculdade de administração de empresas que, segundo se informou, é “boa e dá dinheiro”.
Professor, peça fundamental para o êxito
Outro fator de desistência nestes casos é a diferença de interesses entre estudantes de faixas etárias diferentes. A convivência entre uma criança de dez anos, por exemplo, e um adolescente de 14, na mesma sala, é complicada. Enquanto uma ainda brinca, a outra já pensa em namoro, ir a festas, ganhar seu próprio dinheiro.
É quase impossível, para o professor das classes regulares, administrar a situação sem acabar dando mais atenção a quem está na série adequada para a idade, que sempre é maioria. Mas e lidar com as turmas dos programas de aceleração de fluxo, como o Vereda, onde cada um tem uma história de vida que o levou a ficar para trás, dificuldades específicas e, muitas vezes, vontade de largar tudo de mão?
Para a professora Cláudia Regina Martins dos Santos, o segredo é amar a educação como um todo. Querida pelos estudantes, leciona Língua Portuguesa, Artes e Sociologia para o projeto. “Existe mais humanidade nas turmas do Vereda em relação às turmas regulares, porque a gente começa a conhecer o outro, a descobrir o que está acontecendo e, com o tempo, o estudante vai adquirindo confiança no professor”, afirma Cláudia.
“Outras características importantes são gostar de desafios, ser flexível e ter muita paciência, afinal, o adulto da história é o professor e ele precisa ter consciência disto”, prossegue. “Se o estudante não está participando, não está se interessando, alguma razão ele tem e nunca podemos fazer pré-julgamentos a respeito deste comportamento”, avalia a professora.
Metodologia
O Programa Vereda começa com a preparação dos professores. Em um curso de 180 horas, eles vivenciam o que o estudante terá pela frente. Os componentes curriculares são apresentados como se eles fossem estudantes do Vereda. A tática amplia os horizontes do docentes e dá uma nova dimensão ao papel do profissional que, algumas vezes, já se esqueceu do que é ser adolescente e estudante.
Em sala, antes de entrar nos conteúdos, professores e estudantes passam por uma preparação de 20 dias. Neste período, são realizadas dinâmicas em grupo e conversas individuais, para que estudantes e professores possam se conhecer melhor e a chegar a um nível de convivência e confiança que viabilize o desenvolvimento do projeto.
Os componentes curriculares são os mesmos das turmas regulares do Ensino Médio, mas são apresentados no decorrer de um ano e meio, divididos em quatro módulos e cada um deles é trabalhado de forma transversal:
* Mod. I – língua portuguesa, biologia, filosofia e educação física;
* Mód. II – inglês, matemática, educação física e artes (voltada para música);
* Mód. III – química, geografia, sociologia, educação física e artes voltada para o teatro;
* Mód. IV – física, história, educação física e artes plásticas.
Além da relação professor/aluno, o diferencial está no material pedagógico, composto por DVDs do Telecurso 2000, CDs e livros didáticos. Outro está no número de alunos por turma, em média 25 contra 40 no ensino regular. Depois de assistir os vídeos e ouvir os CDs, os estudantes aprofundam os conteúdos por meio dos livros e da orientação dos professores.
Uma das estratégias em sala é valorizar os trabalhos em grupo, que correspondem a 90% das atividades. Os assuntos abordados partem da curiosidade dos estudantes, mas, ao mesmo tempo, sem fugir dos temas programados e buscando não só a assimilação dos conteúdos e sim desenvolver a capacidade de aplicação dos conhecimentos.
Em língua portuguesa, por exemplo, os estudantes costumam questionar porque a linguagem culta é diferente da coloquial e porque não se pode usar sempre esta última, até mesmo para escrever. Em matemática, querem saber qual a utilidade para o dia-a-dia de aprender operações complexas.
Para participar do Programa Vereda, o estudante do Ensino Médio precisa ter 17 anos ou mais e estar matriculado no 1º ou no 2ª ano do Ensino Regular. Já para ser aprovado, deve ter 75% de freqüência escolar. Quanto às avaliações, 50% são realizados por meio de provas e testes. O restante compõe-se de trabalhos em grupo, pesquisas individuais e em grupo, seminários e participação em sala de aula.
Programas de Aceleração de Fluxo
Ao todo, a Secretaria de Educação desenvolve três programas de correção de fluxo.
Para completar o Ensino Médio por meio do Vereda, o estudante deve ter 17 anos ou mais e estar matriculado na 1º ou na 2º ano.
O Programa Vereda também atende estudantes do Ensino Fundamental com defasagem idade/série. Para ser beneficiados, devem ter 15 anos ou mais e estar matriculados em classes regulares de 5ª a 8ª série.
O Acelera DF, parceria entre a Secretaria de Educação e o Instituto Ayrton Senna, atende estudantes com defasagem idade/série entre 9 e 14 anos, matriculados nos anos iniciais do ensino fundamental, para que possam entrar na 5ª série.
O terceiro programa é o Se Liga DF, para estudantes não alfabetizados dos anos iniciais do ensino fundamental, também fruto de uma parceria com o Instituto Ayrton Senna. Juntos, o Acelera e o Se Liga atendem 7.400 estudantes da rede pública.
De acordo com o Censo Escolar de 2008, na segunda etapa do Ensino Fundamental, a taxa de distorção idade-série varia de 34,56% (8ª série) a 44,77% (5ª série). No Ensino Médio, oscila de 37,81% (3ª série) a 36,04% (1ª série).