João Paulo Mariano
Especial para o Jornal de Brasília
Adeficiência de Danilo (nome fictício), 30 anos, é moderada. Abandonado pelos pais ainda bebê, ele passou a infância e adolescência em abrigos até completar 18 anos. Ninguém nunca conseguiu saber o paradeiro de seus genitores. Viciado em crack, o homem é um exemplo do drama vivido por muitos deficientes intelectuais que mergulharam no mundo das drogas, problema mostrado pelo Jornal de Brasília na semana passada. Danilo, porém, é um dos poucos casos em que a internação para tratamento se tornou possível.
Internado pela segunda vez no Centro de Reintegração Deus Proverá (CRDP) – desta vez há cinco meses, ele tenta sobreviver às crises de abstinência e às dificuldades de relacionamento. Na primeira internação, em 2015, permaneceu só parte do período aconselhado – sete meses.
O tempo sem as drogas durou poucos meses. Com três meses fora de da clínica, voltou em outubro e virou o ano ali. Agora, pretende fazer todo o tratamento. A assistente social Sheila Pereira Oliveira, da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae- DF), entende que a questão da droga para Danilo tem a ver com a necessidade de se enturmar, de “estar incluído no meio”. “Embora da pior forma, seria uma maneira de se sentir parte do grupo”.
Recuperação
O homem já trabalhou em supermercados antes de cair no uso constante do crack. A equipe de assistência da Apae soube do vício após uma visita à casa que ele havia alugado. Danilo estava com dívidas de droga. Traficantes já o haviam ameaçado e ele precisava fugir. A partir desse momento, começou a peregrinação por clínicas que aceitassem acolhê-lo. Só em 2015, ele entrou e saiu de quatro casas por falta de adaptação ao ambiente.
O pastor Ramalho Medeiros, diretor do CRPD, topou o “desafio”. Para ele, há uma grande dificuldade quando se olha para a pessoa com deficiência, pois o vício não é a doença primária, mas secundária. A Apae cuidaria da parte intelectual para que a casa de recuperação trabalhasse a dependência em si.
“A nossa análise em relação ao uso é voltada para dependência que o corpo passa a ter da droga. Como não é a doença primária, aprendemos juntos, pois há um déficit de informações sobre o assunto”, diz Medeiros. O trabalho no centro com deficientes é feito há três anos e já tratou outras pessoas com os mesmos problemas.
Desafio constante
“Danilo é uma pessoa com quem aprendemos muito. Existem algumas especificidades devido à deficiência. Está tudo certo e, de repente, dá tudo errado mesmo seguindo a lógica do tratamento com as pessoas sem deficiência”, analisa o pastor Ramalho Medeiros. O diretor do CRPD vê o homem como um caso de sucesso e acredita que ele vai conseguir permanecer firme.
O CRDP e a Apae-DF fazem reuniões interdisciplinares para discutir as dificuldades enfrentadas por Danilo e tentar fazê-lo sentir-se mais enturmado. A esperança é de que ele saia em maio e se restabeleça no mercado de trabalho.
Apesar da falta de dados, os profissionais que trabalham com os deficientes intelectuais envolvidos com drogas sentem-se desafiados a avançar na tentativa de reaproximá-los do convívio familiar. Porém, como apresentado pelo JBr. na semana passada, as dificuldades são grandes devido à falta de políticas públicas para tratar os usuários. O governo, porém, assegura que faz o atendimento a pacientes com transtornos psicológicos em qualquer unidade da rede, em especial na atenção primária.
De acordo com a Diretoria de Saúde Mental da Secretaria de Saúde, cerca de 12 mil pessoas são atendidas por problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas nos sete Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e outras Drogas (Caps-Ad). Eles ficam no Guará, Sobradinho, Santa Maria, Itapoã, Samambaia, Ceilândia e Setor Comercial Sul (as três últimas unidades com funcionamento 24 horas).
O atendimento dos que têm até 16 anos incompletos é feito nos Caps infanto-juvenis instalados no Recanto das Emas, Sobradinho e Asa Norte. A secretaria informa que o tratamento inclui atendimentos de psiquiatria, psicologia, serviço social, enfermagem e terapia ocupacional, em grupo ou individuais, dependendo da necessidade.
A internação no próprio centro ou em hospitais especializados ou gerais é indicada em último caso, depois de todas as possibilidades terem fracassado. Uma das críticas da assistente social da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais do Distrito Federal (Apae-DF), Sheila Pereira Oliveira, é que não se encontram locais para um tratamento efetivo. A internação nos Caps ocorre por 15 dias, que, na avaliação da profissional, é um período insuficiente para a desintoxicação.
Sheila afirma que a dificuldade de se trabalhar esses casos é grande, inclusive devido à falta de literatura voltada ao assunto. “Até mesmo quem trabalha com recuperação tem dificuldade de lidar com esses casos. As casas de recuperação entendem de drogas, e a gente entende do deficiente. Para nós, é um desafio”, salienta. Ela faz visitas constantes em um dos locais onde deficientes intelectuais estão internados.