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Brasília

Polêmica: um novo caminho com a doutrina inclusiva

Arquivo Geral

09/05/2013 10h50

Viver a plenitude da fé sem abrir mão do que você verdadeiramente é. Esse é um dos principais anseios enfrentados pelos homossexuais ao tentarem aliar a doutrina cristã à orientação sexual. Mesmo com os frequentes estímulos dos dispositivos legais, livros, filmes e novelas que tratam da homossexualidade como um fato da vida, os gays ainda encontram grandes barreiras ao assumirem sua condição.

 

Como o Jornal de Brasília vem retratando nos últimos dias em suas reportagens, muitas igrejas oferecem tratamento contra a homossexualidade, confiantes de que existe cura para a condição. No entanto, muitos homossexuais não acreditam no suposto tratamento, e se veem marginalizados quanto à religião.  Com isso, alguns passam por um doloroso processo de não aceitação e são levados a sentirem culpa por sua orientação sexual. Mas há exemplos de quem deu a volta por cima.

 

O pastor Marcos Gladstone conhece bem o drama de ser induzido a acreditar que a homossexualidade é um desvio de conduta e de ser sentir-se obrigado a mudar sua orientação sexual. “Sou evangélico desde os 14 anos e a resposta que a igreja me dava era que a homossexualidade era ruim e eu precisava de cura. Fui vivendo essa dor durante anos. Esperava que o Senhor me ‘curasse’ daquilo e não tinha resposta”, diz.

 

Decidido a alcançar a “cura” e deixar a homossexualidade para trás, Marcos   iniciou um relacionamento heterossexual, que só reforçou sua verdadeira opção. “Aos 23 anos, comecei a namorar uma moça e fiquei noivo durante quatro anos. Eu realmente esperava que algo acontecesse. A rejeição que eu   sentia me fazia muito mal”, conta.

 

Com o tempo, Marcos  desistiu da possível cura e revoltou-se contra a religião. “Fui percebendo que nada mudava, e em determinado momento tomei a decisão de abandonar tudo. Saí da igreja e terminei o meu relacionamento”, relata.

Segundo ele, a mudança trouxe mais infelicidade à sua vida. “Foi a pior coisa que me aconteceu. Fiquei alguns anos longe da doutrina e decidi me dedicar aos estudos bíblicos”, diz.

 

De acordo com o pastor, a verdadeira transformação ocorreu quando ele deu início aos estudos sobre metodologia inclusiva. “Ela estuda a condição dos homossexuais na igreja. Então, percebi que a Bíblia condena o a promiscuidade e não a  homossexualidade”, declarou.

Com o novo entendimento adquirido e aceitando sua própria orientação sexual, Marcos decidiu fundar a Igreja Contemporânea, que tem como objetivo pregar o evangelho de forma livre de preconceitos. “Fundei a igreja em 2006 e foi uma grande surpresa. Hoje, são oito igrejas:   seis  no Rio de Janeiro, uma em Belo Horizonte e uma em São Paulo”, detalha.

 

A liberdade de expressão é um dos principais valores que norteiam todas as ações do Jornal de Brasília. Por isso, e de forma análoga, somos um veículo aberto a todas as manifestações comportamentais de nossa sociedade, sejam elas de cunho cultural, espiritual, sexual, entre outras. O leitor que acompanha o Jornal de Brasília tem encontrado em nossas páginas reportagens as mais diversas sobre as várias abordagens da questão da sexualidade, assunto este que tem tido amplo espaço em toda mídia.

 

Acreditamos, e sempre defenderemos isso, que  todo o ser humano deve ser respeitado e tratado de maneira séria e responsável. A este veículo, cabe mostrar ao seu público as várias vertentes e discussões sobre um tema que só diz respeito a cada cidadão.

 

O pastor Fábio Inácio de Souza, 33 anos, viveu por muito tempo entre o amor ao ofício e a culpa por não seguir os padrões que acreditava serem inadequados. Integrante da igreja Universal do Reino de Deus, ele passou grande parte de sua vida lutando contra a própria orientação sexual. “Fui criado no ambiente evangélico, mas sempre soube da minha verdadeira orientação. Por isso, vivia em um conflito muito intenso. Me perguntava como eu podia ser pastor sendo homossexual”, explica.

Ele conta que um episódio foi decisivo para que a sua vida se transformasse. “Em um atendimento, um fiel veio pedir ajuda porque era homossexual. E eu pensei: como posso ajudá-lo, se eu também sou?”, questionou. Diante da situação, Fábio   tentou dizer ao jovem que ele não precisava de “cura”.

 

ANGÚSTIA

 

Segundo o pastor, após esse episódio, a sua sensação de angústia tornou-se ainda maior. Abandonei a igreja com muita revolta.  “Pensava que se Deus não me aceitava, era porque ele não me amava. Comecei a me prostituir e a usar drogas”, relata.  Para ele, mudar a orientação sexual é o mesmo que tentar transformar a própria essência. “É o mesmo que alisar o cabelo. Por mais que ele fique liso um tempo, em algum momento ele volta ao normal”, declarou.

 

Após determinado tempo, o pastor relata que a própria aceitação chegou. “Descobri a Igreja Contemporânea e me encontrei. Lá conheci o Marcos, me apaixonei e estamos a frente desse ideal. Somos casados e temos três filhos”, diz.

 

Segundo Marcos, a teologia inclusiva faz a releitura de trechos polêmicos usados por pastores. “Eles usam esses trechos para condenar os homossexuais. Além disso, existem alguns livros que nos auxiliam ter um embasamento maior, como o Seminário Bíblia sem preconceito”, relata.

 

Criada em 1968, a Teologia Inclusiva é um ramo da teologia tradicional voltada para a inclusão, prioritariamente, das categorias socialmente estigmatizadas. São exemplos disso os negros, as mulheres e os homossexuais. Conforme as explicações a respeito do tema, seu pilar central encontra-se no amor de Deus pelo homem, amor que, embora eterno e incondicional, teria sido negado pelo discurso religioso ao longo de vários séculos.

 

A Teologia Inclusiva se propõe a contemplar uma lacuna deixada pelas estruturas religiosas tradicionais do Cristianismo, pois, por meio da Bíblia, compreende que todos os que compõem a diversidade humana, seja ela qual for, têm livre acesso a Deus.

 

A Igreja Contemporânea, criada pelos pastores gays no Rio de Janeiro, segue esses conceitos. Ela  conta com 1.880 integrantes cadastrados.

 

O suposto tratamento aos gays por psicólogos seria possibilitado por meio de projeto de lei que tramita na Câmara dos Deputados. Segundo o conselheiro do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Celso Tondil, os argumentos presentes na proposta  foram desmontados. “A ideia sustentada é que a heterossexualidade é a única forma de viver, e isso não tem fundamento”, declarou.

 

Em nota, o CFP destaca ainda que não visa cercear a atuação profissional de psicólogos, uma vez que não impede o atendimento, tampouco proíbe o profissional de acolher o paciente que procura orientação. “A resolução visa evitar que pacientes sejam submetidos a uma terapia experimental, sem comprovação de efetividade científica”, diz o texto.

 

Para o militante das causas de homossexuais Evaldo Amorim, apesar das acaloradas discussões, o preconceito vem diminuindo. “A sociedade está mais informada e esclarecida e aceitação está maior. A prova disso é a recusa do deputado Marco Feliciano a frente da Comissão de Direitos Humanos”, declarou.

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