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Brasília

Peso da passagem compromete orçamento de quem depende do transporte público no DF

Estudo da UnB aponta que famílias gastam, em média, R$ 260 por mês com ônibus; valor representa 18,4% do salário mínimo e reacende debate sobre tarifa zero

Isabele Mendes

01/07/2026 14h11

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Foto: Paulo H. Carvalho/ Agência Brasília

Todos os dias, antes mesmo do amanhecer, a empregada doméstica Ana Maria Pereira, de 59 anos, deixa a casa onde mora, no Lago Azul, região do Entorno, para enfrentar uma longa viagem até o trabalho, em Brasília. O percurso inclui um ônibus até o Gama e outro em direção ao Plano Piloto. Há quase quinze anos, essa rotina se repete de segunda a sábado e custa cerca de R$ 21 por dia, um gasto que pesa no orçamento da trabalhadora.

“É um dinheiro que faz muita falta. Se eu pudesse economizar esse valor, compraria mais alimentos e teria um pouco mais de tranquilidade no fim do mês. A gente trabalha para pagar passagem e contas”, relata Ana Maria.

A realidade vivida por ela reflete o cenário apontado por um estudo elaborado por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB). Segundo o levantamento, as famílias do Distrito Federal desembolsam, em média, R$ 260 por mês com passagens de ônibus, o equivalente a 18,4% do salário mínimo. Em um ano, a despesa chega a R$ 3.120.

O estudo foi desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Ciência Política (IPOL), do Grupo de Pesquisa Geopolítica e Urbanização Periférica (GeoUrb) e do Núcleo Brasília do Observatório das Metrópoles. Para chegar aos resultados, foram cruzados dados da Pesquisa Nacional de Mobilidade (Pemob 2024), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e das operadoras de transporte coletivo das 27 capitais brasileiras e respectivas regiões metropolitanas.

Os pesquisadores defendem que a tarifa do transporte coletivo não deve ser analisada apenas como um custo da mobilidade urbana, mas também como um fator que interfere diretamente na distribuição de renda das famílias. Segundo o estudo, a adoção da tarifa zero poderia redistribuir cerca de R$ 2,78 bilhões por ano para moradores do Distrito Federal e da Região Integrada de Desenvolvimento (Ride-DF).

Orçamento apertado

Para o economista César Bergo, o transporte está entre as despesas que mais pressionam o orçamento doméstico, ao lado da moradia e da alimentação. Segundo ele, o impacto é ainda maior para quem mora longe dos centros de emprego e depende exclusivamente do transporte coletivo.

“O ideal seria que uma família comprometesse, no máximo, 10% da renda com transporte. Quando esse percentual chega próximo de 20%, sobra menos dinheiro para alimentação, saúde, educação e praticamente nada para lazer. Além do custo financeiro, existe também o tempo perdido nos deslocamentos, que afeta a qualidade de vida e a produtividade do trabalhador”, explica.

Bergo afirma que esse cenário contribui para ampliar as desigualdades sociais. “Quem possui renda maior consegue absorver esse custo com mais facilidade. Já quem depende do transporte público acaba sacrificando outras necessidades básicas. Por isso, políticas públicas voltadas à melhoria do transporte, tanto em preço quanto em qualidade, são fundamentais.”

Tarifa zero enfrenta desafios

O debate sobre a implantação da tarifa zero voltou a ganhar força no Distrito Federal após a ampliação do programa Vai de Graça, que garante transporte gratuito aos domingos e feriados.

Na avaliação do pesquisador em mobilidade urbana Artur Morais, a gratuidade pode trazer benefícios importantes, principalmente para trabalhadores informais e famílias de baixa renda, mas depende de um modelo de financiamento sustentável.

“A tarifa zero pode incentivar parte da população a deixar o carro em casa, principalmente quem recebe vale-transporte em dinheiro e utiliza esse recurso para abastecer o veículo. Mas só reduzir o preço não basta. Também é necessário melhorar o conforto, a regularidade e a qualidade do serviço oferecido”, afirma.

Segundo Morais, atualmente existem cerca de 140 cidades brasileiras que adotam tarifa zero, a maioria com menos de 50 mil habitantes. O principal desafio continua sendo garantir recursos permanentes para custear o sistema.

População mais afetada

O levantamento da UnB também mostra que o peso da tarifa recai principalmente sobre pessoas de baixa renda. Dados do IBGE indicam que 40,8% da população do Distrito Federal vive com renda domiciliar per capita de até um salário mínimo.

Além disso, pesquisas apontam que mulheres negras estão entre as que mais dependem dos ônibus para trabalhar e acessar serviços públicos. Para os pesquisadores, eliminar a cobrança das passagens teria potencial para reduzir desigualdades e aumentar a renda disponível dessas famílias.

Atualmente, as tarifas do transporte público no DF variam entre R$ 2,70 e R$ 5,50, valores que permanecem sem reajuste desde janeiro de 2020. A Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob) informou que mantém estudos para ampliar as gratuidades e avaliar o custo do programa Vai de Graça. Segundo a pasta, o trabalhador formal arca com até 6% do salário por meio do vale-transporte, enquanto o restante é custeado pelo empregador, conforme prevê a legislação federal.

Enquanto as discussões sobre novos modelos de financiamento seguem em andamento, trabalhadores como Ana Maria continuam enfrentando longos deslocamentos e fazendo contas para que a passagem não comprometa ainda mais o orçamento.

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