Jéssica Antunes
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Rachid Racheq não consegue marcar exames nos hospitais públicos do Distrito Federal. O marroquino de 47 anos chegou ao Brasil há mais de duas décadas e lamenta o que chama de “quebradeira da saúde”. Ele esperava que o sistema eletrônico da rede voltasse a funcionar para que ele e a filha conseguissem atendimento ambulatorial. Não bastassem os encaminhamentos manuais, faltam insumos e reagentes. Ontem, servidores ocuparam a direção do Hospital de Base e hoje a situação pode piorar: terceirizados sem salário podem paralisar os serviços.

“Não sei para onde vão nossos impostos. Cadê o dinheiro para investir aqui?”, Rachid Racheq, 47 anos, no Hospital de Base. Foto: Breno Esaki
“Não sei para onde vão nossos impostos. Cadê o dinheiro para investir aqui?”, questiona o africano com os encaminhamentos médicos em mãos. Ontem, apenas três das dez especialidades dos ambulatórios do Hospital de Base estavam funcionando: otorrinolaringologia, oftalmologia e mastologia. A promessa é remarcar as consultas.
Maior unidade da rede na capital do País, o HBDF tem média de 900 atendimentos ambulatoriais diários. “Os médicos estão escrevendo no papel porque não tem sistema. O pior é que isso vive acontecendo, além de termos que pagar por exames porque não tem reagente”, reclama a empregada doméstica Elizabete Oliveira, 52 anos, que tentava marcar audiometria.
Problema é mistério
A Secretaria de Saúde afirma que, desde segunda-feira, técnicos de informática trabalham para restabelecer o sistema Trakcare, usado para abrir prontuários, fazer a classificação de risco e emitir pedidos de exames para os laboratórios, entre outras ações. Sem ele, servidores precisam improvisar. “Peritos de outras áreas também foram acionados para ajudar na detecção e solução do problema”, informou a pasta, em nota.
As unidades, segundo o governo, “estão se adequando” ao empecilho e o atendimento será normalizado quando for possível preencher formulários à mão. Do lado de fora, porém, pacientes sofrem. Ontem, em Santa Maria, formou-se uma longa fila. “A situação é de calamidade. Atendemos os pacientes sem condições de trabalho, sem estrutura básica”, revelou um ortopedista.
A rede distrital tinha um contrato de manutenção do sistema com a empresa que o desenvolveu e pagava R$ 5,6 milhões anuais. “Na renovação do contrato, a empresa sugeriu um reajuste do valor para R$ 30 milhões, o que foi considerado excessivo pela secretaria. A empresa reduziu, então, para R$ 7 milhões. Tais valores estão sendo negociados”, explicou a Saúde. De acordo com a Intersystem, o contrato venceu em outubro de 2016 e não foi renovado. O sistema foi suspenso em janeiro.
Enquanto isso, no fim da tarde, o cenário se mantinha no ambulatório do Hospital de Base. Moradores da Candangolândia, os estudantes Jaime Melo Gomes, 27 anos, e Tatilorany Babosa Gomes, 24, foram surpreendidos pela falta do serviço. Por volta das 18h, o casal procurou o ambulatório para marcar com um alergista, mas voltou para casa sem a consulta. “Viemos mais cedo para a emergência, onde fui atendido por um oftalmologista. De lá, o médico me encaminhou para o ambulatório. Disse que eu precisava de um acompanhamento mais detalhado, mas, agora, só vou conseguir marcar na próxima terça-feira”, lamenta Jaime.
Saiba mais
- O atraso no pagamento da conta deixa unidades de saúde sem telefone e internet há cerca de oito meses. A pasta diz que analisa as faturas para pagamento e que tem feito todos os esforços para restabelecer o serviço.
- Um contrato emergencial para que o serviço de telefonia seja restabelecido o mais rápido possível foi elaborado pela pasta, mas não há prazo para que o serviço seja normalizado.
- Apesar de a Saúde não ter repassado o valor atual da dívida, em janeiro o montante ultrapassava os R$ 28 milhões.
Protesto termina em invasão
Após aprovação do projeto que propõe criar o serviço autônomo Instituto HBDF pela Comissão de Transparência e Controle da Câmara Legislativa, cerca de 40 servidores ocuparam o gabinete do diretor da unidade, em protesto. O tema será analisado hoje na Comissão de Educação, Saúde e Cultura (Cesc) antes de ir a plenário.
“Entendemos que isso é uma terceirização mascarada. Se a mudança ocorrer, as gratificações serão retiradas e os funcionários perdem a estabilidade”, afirmou Marli Rodrigues, presidente do Sindsaúde.
O deputado distrital Wellington Luiz (PMDB) visitou as dependências do hospital. “É inaceitável que entreguemos isso à iniciativa privada. É um assalto aos cofres públicos. O modelo não faliu, o que faliu foi a gestão”, disparou o presidente da CPI da Saúde.
Em nota, a Secretaria de Saúde manifestou “total repúdio quando tais direitos de manifestação extrapolam os limites e passam a comprometer ou mesmo prejudicar o atendimento à população”. E disse esperar que o sindicato “respeite o patrimônio, a integridade física das pessoas e a garantia de atendimento à população”.
Trabalhadores
A situação precária dos hospitais pode ser ainda pior hoje. Os vigilantes prometem cruzar os braços por conta de atraso de salário. O governo diz que não foi notificado oficialmente, mas afirma que “está tomando todas as providências necessárias para que o pagamento seja realizado o mais breve possível”.
Uma paralisação também foi prometida pelos terceirizados da limpeza, pelo mesmo motivo.