O jornalismo esportivo brasileiros deve muito – muitíssimo! – a uma família pernambucana, que teve o casal Mário e Maria Esther Falcão gerando os desportistas Mário Filho, Augusto, Paulo Roberto, Nélson, Irene e Maria Clara.
Seguinte: com o presidente Getúlio Vargas de volta ao poder, em 1951, o jornalistas Samuel Wainer montou o diário carioca Última Hora, contando com o apoio financeiro daquele e dos magnatas Horácio de Carvalho, Walther Moreira Salles, Ricardo Jafet, Euvaldo Lodi e até de Juscelino Kubitscheck, que era o governador de Minas Gerais.
Lançado o seu hebdomadário, Samuel ofereceu a Augustinho Rodrigues quatro vezes mais do que ele ganhava em O Globo, para comandar as suas páginas esportivas. E o carinha levou junto os irmãos Paulinho (repórter), e Nélson (redator).
Tempinho depois, as irmãs dele, Irene e Maria Clara, engrossavam a editoria, com a primeira cobrindo torneios de tênis e a outra, inclusiva, viajando ao exterior, com delegação esportiva nacional. Muito provavelmente, elas foram as primeiras mulheres jornalistas esportivas brasileiras, pois, em nenhuma revista ou jornal anteriores, de circulação nacional, encontra-se matérias assinadas por outras.
Quando o jornal foi para as bancas, em 6 de junho daquele 1951, Nélson Rodrigues já havia lançado duas peças teatrais, “A mulher sem pecado” e “Vestido de noiva”, e estava estreando a sua terceira, “Valsa número 6”. Portanto, já era famoso como dramaturgo.
Passados quatro temporadas, em novembro de 1955, com Juscelino Kubitscheck eleito presidente da república e irradiando mensagens de otimismo para o país, o empresário Adolpho Bloch acreditava no que o JK prometia. E, no embalo daquela onda, aceitou a ideia de Mário Filho, de lançar a revista Manchete Esportiva.
Mais uma vez, os Rodrigues encabeçaram um grande projeto da imprensa esportiva brasileira, com Augusto dirigindo a semanária, Paulo Roberto chefiando a reportagem, Mário escrevendo uma coluna de página inteira e Nélson sendo o redator principal.
Com espinha dorsal à base dos Rodrigues, o editor Augusto reforçou a equipe buscando Arnaldo Niskier na revisão da revista principal dos Bloch, a Manchete, e tirando os repórteres Ney Bianchi, do Jornal dos Sports, e Ronaldo Bôscoli, de Última Hora. Para a fotografia, contou com os “cobras” Jáder Neves, Ângelo Gomes. Jankiel Gonczarowska, Hélio Santos e Juvenil de Souza.
Manchete Esportiva tinha um timão de jornalistas e fotógrafos, fazia a melhor cobertura possível, ainda hoje é modelo para muitas revistas do gênero, mas não empolgava aos anunciantes. O texto, a diagramação e as pautas eram moderninhas, deixando a milhares de quilômetros de distância o recado das revistas antecessoras.
As crônicas de Nélson Rodrigues sobre os seus personagens da semana e as histórias contadas por Mário Filho, por exemplo, encantavam. Para uma época em que a tecnologia fotográficas nem passava perto das máquinas atuais, eram impressionantes as imagens captadas pelas feras da publicação.
Foi, também, por aquela época, que Manchete Esportiva lançou a primeira mulher escrevendo apologias sobre mulheres desportistas. Assinava por Meg, era portuguesa e as fotos em suas matérias saíam, sempre, coloridas.
Comparando-se Manchete Esportiva com as suas principais antecessoras de circulação nacional, via-se nela requintes de intelectualidade, o que era demais para o torcedor da época. Por isso, não foi além de 1959.
A edição semanal, em tamanho grande, saiu de campo, mas, tempinho depois, lançou edições com menos de 20 centímetros de altura, contendo fotonovelas enfocando a vida de craques do futebol brasileiro – Pelé, Didi, Gilmar, Julinho Botelho, Orlando Peçanha – e dos campeões Eder Jofre, do boxe, e Maria Esther Bueno, do tênis.
Quem quiser conhecer como foi o início da preparação da Seleção Brasileira rumo à Copa do Mundo de 1958, seguramente, não pode deixara de ler a cobertura do repórter Arnaldo Niskier, que deixou, mais tarde, o jornalismo esportivo e, entre outros anotações em seu currículo, está a de membro da Academia Brasileira de Letras.