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Orgulho de ser porteiro

No Dia do Porteiro, conheça o casal Dona Ciné e Sebastião. Com dedicação, eles trabalham como zeladores há mais de 30 anos no mesmo prédio

Foto: Vitor Mendonça/ Jornal de Brasília

“Tenho muito orgulho de ser porteira e não me imagino fora daqui, fazendo outra coisa. Sou uma pessoa realizada”, afirmou Maria do Patrocínio, 58 anos, conhecida como dona Ciné no prédio residencial do bloco A e também em toda a quadra 106 da Asa Norte, onde trabalha. Ela é a primeira mulher a ocupar o cargo no Distrito Federal e atua como zeladora do edifício. Ciné e o marido, Sebastião Viturino, 71, trabalham e moram há 30 anos no local.

Sebastião tem ainda mais experiência – trabalhou em quatro empregos em Brasília, todos como porteiro, e nunca foi demitido. Ao todo, foram 18 anos na Asa Sul na função, sendo, portanto, 48 anos na profissão. Há 20 recebeu o direito à aposentadoria, mas não consegue ficar em casa e continua trabalhando. “E tem que gostar da profissão. Se não gostar, não aguenta. Qualquer profissão que você ganha honestamente, é digna”, destacou.

Hoje, dia do porteiro, os dois conhecem de perto os desafios da profissão e são referência na cidade quando o assunto é a gestão de um prédio residencial. Para eles, a atividade ainda não recebe a devida valorização, uma vez que ainda acontecem episódios de agressão moral – e às vezes física – aos trabalhadores. Um dos mais marcantes aconteceu há cerca de um ano e meio, quando o ex-deputado federal Laerte Bessa agrediu o funcionário do prédio onde morava.

Durante os 30 anos de trabalho no bloco A da 106 Norte, Ciné e Sebastião tiveram seu primeiro carro, um Kadett, completamente arranhado com um prego por um dos moradores do local à época, um dia após a compra. Ciné até quis fazer uma denúncia na delegacia, mas, pela possibilidade de perda do emprego, desistiu e arcou com os custos do conserto e pintura. Antigamente, segundo ela, era mais difícil comprovar os assédios recebidos.

“Ser porteiro é muito difícil. Hoje em dia se tem uma grande ferramenta, que são as redes sociais. Vejo vários casos de porteiros sendo agredidos e humilhados por síndicos – não é coisa recente. Mas, graças a Deus, hoje existe uma pessoa que grava com o celular ou tem uma câmera de segurança que filma. Já sofremos muito com preconceito e de muitas outras formas”, declarou Ciné.

Foto: Vitor Mendonça/ Jornal de Brasília

O ano de 2012, segundo ela, foi o mais difícil e o pior da vida dos dois, quando houve a troca da gestão para um síndico desrespeitoso. O Sindicato dos Trabalhadores em Imobiliárias e Condomínios do DF (Seicon) precisou intervir à época para verificar os assédios sofridos diariamente pelos dois, principalmente por Ciné.

A entidade enviou uma pessoa para vigiá-los e ter provas daquilo que acontecia. Chegou-se ao ponto dos próprios moradores, após descobrirem os assédios morais, irem à Delegacia Regional do Trabalho (DRT) para denunciar os abusos, expulsando-o do cargo de síndico em seguida.

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“Essa pandemia serviu para mostrar que não adianta alguém ter dinheiro e outro não ter. Não adianta morar em uma mansão ou morar em um casebre, porque essa doença deixa todos de igual para igual. Todo o tipo de assédio que você puder imaginar, eu passei. Ao ponto do síndico não me dar um uniforme por achar que eu era gorda. Eu recebia advertência porque eu não podia ir ao banheiro”, contou.

Apesar dos episódios, estes são fatos isolados, segundo Ciné. “Hoje nos tratam com muito respeito, graças a Deus. Agora trabalho com garra e com vontade. Não há nada melhor do que ser valorizado. Me sinto assim hoje. Respeitada pelos moradores e pelo síndico. Passamos por muita coisa, mas estamos aqui para contar histórias. Temos muito orgulho e somos gratos a Deus por tudo.”

Pandemia e assédio

De acordo com Afonso Lucas Rodrigues, presidente do Seicon, a categoria ainda é muito desrespeitada na capital, principalmente após a pandemia da covid-19. Uma vez que a maioria das pessoas passou a ficar mais tempo dentro dos apartamentos, o maior contato com os respectivos porteiros dos condomínios aumentou a quantidade de atritos com eles. “Casos como o do Laerte Bessa ficaram mais explícitos. Acontece muito assédio. Mas a entidade sindical está em contato com o Ministério Público [MPDFT] e atendendo na medida do possível”, destacou. 

“Tem moradores que não querem usar máscara, tem outros que chegam ao condomínio que acham ruim quando o porteiro não os atende imediatamente. Quando chegam visitas, não querem que elas sejam identificadas. A demanda é maior com as pessoas em casa, e isso acarreta lá na portaria”, afirmou Afonso.

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Outro problema é que nos pilotis do Plano Piloto, no período noturno, onde não há como impedir transeuntes, há maior incidência de violência e assalto aos porteiros. Na madrugada, com as ruas desertas e os moradores dormindo, o socorro para alguma ocasião é mais difícil.

Além disso, também há discordâncias com outra classe trabalhadora, de fora dos residenciais. “Hoje temos um conflito de trabalhador contra trabalhador, que são os entregadores de comida por aplicativo. Muitos não entendem que o porteiro cumpre ordens e nos afrontam. Deveríamos, na verdade, estar trabalhando juntos”, disse o presidente do sindicato.

Pau-de-dar-em-doido

De todo o tempo de trabalho, somente em uma ocasião Sebastião precisou de um atestado médico e não trabalhou, em decorrência de duas hérnias de disco. “O médico me deu 40 dias de atestado, mas com 12 dias eu já avisei a ele que eu não conseguia ficar parado e que ia voltar a trabalhar. Ele me examinou e disse que eu estava ótimo – só não podia pegar muito peso. Foi a primeira vez. Nunca matei um dia. Tanto é que as pessoas falam que eu sou pau-de-dar-em-doido [pessoa perseverante e lutadora]”, disse o homem, conhecido em toda a quadra 106 como Seu Tião.

As conquistas vieram conforme os anos passaram. A única filha se formou em Odontologia com a ajuda e o esforço dos pais em uma faculdade particular da capital. “As amigas dela achavam que ela era ‘filhinha de papai’ por morarmos na 106 Norte – não acreditavam que éramos porteiros. Mas elas nos conheceram e gostaram bastante da nossa história”, disse o pai. Ela agora mora no mesmo edifício.

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“Eu sou uma pessoa realizada, porque tudo o que temos foi com a força do nosso braço, não teve ajuda nenhuma de governo. Trabalhei muito e fiz de tudo. Passava o dia todo aqui nesse condomínio, à noite fazia faxina nos apartamentos, e quando eu chegava em casa, fazia uma bacia de salgados para vender no outro dia. Era para a faculdade da minha filha. Hoje ela é proprietária da clínica dela, que também ajudamos a comprar com muito esforço”, destacou Ciné.

Para os dois, não há outra opção de vida. No bloco A, criaram a filha e agora acompanham o crescimento da neta, que também mora no prédio. Em muitos passeios, são reconhecidos por filhos de antigos moradores, que os têm como parte da infância. “Muitas vezes os pais saíam para trabalhar e, depois que as crianças chegavam da escola, desciam durante a tarde para brincar aqui debaixo do bloco. Já fizemos muita pipoca para eles [filhos de moradores]”, contou Sebastião.

Apesar do longo tempo de trabalho no local como porteiros, as alegrias são maiores que as tristezas, o que ainda os mantém na 106. Quem os levou à quadra ainda mora no local, assim como outros residentes de 30 anos atrás. Ali, funcionam como uma grande família e todos confiam no trabalho realizado por Ciné e Sebastião.

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