Jéssica Antunes
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Ameaças, agressões, drogas e roubos não deveriam fazer parte da rotina de uma instituição de ensino. Mas, no Paranoá, uma escola se tornou refém do crime que acontece dentro e fora dos muros. Não é segredo. Alunos, pais, professores e vizinhos conhecem a situação preocupante do local e o policiamento, considerado fraco, é criticado. Na escola, atividades extracurriculares buscam fortalecer a segurança.
No Centro de Ensino Fundamental 1, onde há alunos do primeiro ao nono ano, os estudantes evitam portar celulares ou andar com acessórios de marca. “Nada é seguro”, disse ao Jornal de Brasília um grupo de estudantes.
As brigas, por outro lado, “são garantidas” e casos de assalto, comuns do lado de fora. No mês passado, um tiroteio entre gangues na frente da escola levou todos ao pânico.
“Costumam marcar brigas quase toda semana na frente da escola. Também acontece de haver informantes dentro da sala, que avisam aos bandidos os alvos ao fim da aula, e até uso e venda de droga nos banheiros. Chegaram a colocar chiclete na câmera de segurança”, contou um adolescente de 13 anos, do último ano.
Há menos de um ano na unidade de ensino, uma garota de 14 anos já foi ameaçada com um canivete e assaltada. “Na primeira semana de aula, uma menina me ameaçou. Meu pai veio à escola e resolveu o problema: ela me deixou em paz. Depois, eu descia da parada de ônibus até a escola quando uma pessoa, de bicicleta, segurou minha bolsa. Levou a mochila e o celular, mas deixou os materiais espalhados no chão. Aqui, os bandidos atuam livremente. A gente tem medo”, admitiu.
Um dia foi suficiente
Uma adolescente de 13 anos frequentou a escola por apenas um dia. Matriculada na quarta, saiu traumatizada da sala de aula na quinta-feira. A novata disse ter passado por ameaças de roubo.
“Disseram que havia muitos ‘mãos leves’ e que ela corria o risco de sair sem nada. O diretor chegou a recomendar que ela sempre fosse uniformizada, porque já teria acontecido de entrarem armados para acerto de contas”, contou a mãe, dona de casa de 30 anos, que, por medo, não quis se identificar.
A família se mudou para a região recentemente, após ser beneficiada pelo Minha Casa, Minha Vida para o Paranoá Parque, onde a reclamação por falta de vagas é constante e crescente.
“Dormi na fila da regional de ensino e consegui a vaga. Foi ótimo quando deu certo, mas tive que tirar no dia seguinte. Graças a Deus consegui que ela estudasse na Asa Norte. Ali ela não poderia ficar”, afirmou a mãe.
Opiniões de vizinhos e conhecidos corroboram para a sensação. “Dizem que é a pior escola”.
Versão oficial
De acordo com a Polícia Militar, 30 viaturas do Batalhão Escolar patrulham diariamente percursos preestabelecidos das escolas do DF no período das 12h às 15h – horários de saída do turno matutino e entrada do vespertino. Na região do CEF 1, são duas viaturas do Batalhão Escolar, além de outros veículos e motocicletas da área. “É impossível manter uma viatura, simultaneamente, na porta de cada uma das mais de mil escolas do DF”, assume a corporação. Em relação ao uso e tráfico de drogas, a PMDF afirma que abordagens são realizadas quando observada movimentação, mas “muitos deles acabam por retornar aos locais de consumo de drogas”. Palestras auxiliariam na implementação de uma cultura de paz dentro do ambiente escolar.
Reflexo do ambiente
“A escola não é violenta, ela é vítima”, define Rosilene Corrêa, diretora do Sindicato dos Professores. A situação do Paranoá, diz, é um exemplo do que acontece em toda a capital. “Não é um problema periférico. No próprio Plano Piloto se vive essa realidade”, garante.
“O ambiente violento é resultado do crime. Adolescentes são usados por criminosos e problemas de fora inevitavelmente acabam dentro da escola”, acredita a sindicalista. A qualidade do ensino, desta maneira, fica prejudicada: “Dar aula nesse ambiente é difícil, e alunos, preocupados com o risco que correm, ficam dispersos”.
“Como escola, temos a visão de que o que transforma qualquer realidade é a educação, mas é um investimento a longo prazo”, afirma Jenifer Dalcere, vice-diretora do CEF 1. De acordo com ela, são feitas atividades para que os alunos criem uma relação de pertencimento com a escola. Temas como preconceito, conservação de patrimônio público e bullying estão presentes. Uma comunicação estreita com as famílias também é a estratégia.
“Os alunos se sentem inseguros dentro porque sabem que na entrada e saída podem ser roubados. A violência na cidade cresceu bastante. Hoje, dentro da escola, não temos violência e drogas como já aconteceu com frequência no passado”, conta.