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Brasília

Neoenergia tem decepcionado clientes no DF

Problemas no fornecimento de energia e outras dificuldades com a empresa quebram a confiança de parcela da população da capital

Vítor Mendonça

11/12/2023 12h12

Foto: Divulgação/Neoenergia

O fornecimento de energia no Distrito Federal não tem agradado muitos consumidores da capital. Durante o período de chuvas, moradores destacam constante instabilidade na rede elétrica e risco de queima de eletrodomésticos durante recorrentes quedas de energia – diárias, muitas vezes.

A corretora de imóveis Manuela Vasconcellos, 42 anos, enfrenta problemas constantes com o fornecimento de energia elétrica no Altiplano Leste, região ao lado do Jardim Botânico. Ela destaca que as quedas no condomínio onde mora, um dos principais da localidade e próximo ao comércio, acontecem com frequência, principalmente no período de chuvas. “Nunca sabemos se passaremos o Natal à luz de velas”, disse.

Desde 2016, quando se mudou para a região, todo ano encara a mesma dificuldade, segundo ela. A queda de energia mais recente aconteceu na última terça-feira (5), ficando ela e os outros moradores do condomínio sem o fornecimento da rede elétrica por aproximadamente duas a três horas no período da tarde. Em outro condomínio, segundo relataram os moradores a ela, a energia só foi restabelecida por volta das 22h.

“Eu estava em home office e com pouca bateria. Tive que recorrer à bateria do carro para conseguir carregar meu celular. Então fiquei trabalhando de dentro do carro”, relatou Manuela. Nos primeiros minutos do apagão, a instabilidade na rede elétrica fazia com que a energia caísse e voltasse repetidamente num pequeno intervalo de tempo.

A estratégia nesses momentos, semanais segundo ela, é desligar a chave geral da casa para evitar que os eletrodomésticos queimem – e assim o fez na última terça (5). “Fui monitorando no grupo do condomínio quando a energia iria voltar. […] Tem permanecido sempre a incerteza se ficaremos sem luz assim que começa a chover. E muitas vezes ficamos. Quando chega a chuva, é certeza que vai acabar [a energia]”, destacou.

Durante a correria para se readaptar à falta de energia, a corretora e todo o condomínio se movimentam para abrir chamados na Neoenergia, a fim de evidenciar a urgência da necessidade da manutenção para restabelecer a luz na região. Manuela tenta tanto pelo telefone, pelo 156, quanto pelo Whatsapp pelo atendimento virtual da empresa.

Além da dificuldade com a estabilidade da energia na região, ela destaca que outro problema ainda não solucionado pela empresa é a da poda das árvores na região, que estão próximas aos fios de média tensão – os comuns nos postes das ruas – e que, caso entortem ou caiam durante uma ventania, também podem interromper o fornecimento de energia elétrica.

“Temos que ligar para a Neoenergia dependendo da distância em que o galho está [dos fios], porque é ela que tem que vir para cortar, com EPIs [Equipamentos de Proteção Individual]. Pelas reclamações que eu estou escutando, eles não estão conseguindo cumprir com a demanda de cortar árvores. E aí elas começam a cair na fiação”, disse.

Segundo a avaliação de Manuela, os investimentos na região do Altiplano Leste não acompanham o ritmo de crescimento da localidade. “A prestação de serviço era ruim [com a CEB] e continua ruim [com a Neoenergia]. A área do Altiplano cresce cada vez mais, e o número de condomínios também. Com a pandemia, houve um crescimento muito grande para se morar em casas”, analisou.

Reclamações além da energia

Na capital, as reclamações gerais registradas na Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) contra a Neoenergia chegaram a aumentar 40,7% em 2023. Enquanto em 2022 foram registradas 331 reclamações, neste ano, até a última quarta-feira (6), foram 466 queixas no Procon. Dessas, segundo o órgão, 159 “não dizem respeito a falhas no serviço e sim em relação a pedidos de renegociação de dívidas oriundos dos mutirões propostos pelo Procon e pelo governo federal”.

Portanto, com relação ao fornecimento de energia, as reclamações dentro do Procon caíram 5,5%. Entretanto, para alguns consumidores, os motivos para reclamações vão além da falta de energia. O primeiro ano da companhia em Brasília foi o que registrou o menor número de reclamações, sendo 309 insatisfações registradas junto ao órgão em 2021.

Para Fernando Linhares, 51, engenheiro que vai se mudar para a nova casa na quadra 715 da Asa Sul, o problema está no atendimento dos técnicos e na demora para estabelecer a conexão de energia adequada na casa em que irá morar. Após dois meses com sete protocolos abertos com pedido para aumentar a capacidade energética da residência, terá de se mudar sem nenhuma resolução da questão, com conexões obsoletas de uma das antigas casas da cidade.

A primeira dificuldade com a empresa começou ainda em julho, quando Fernando pediu para a Neoenergia passar o medidor da casa para o nome dele. Um problema antigo de endereço da casa impediu que a transferência fosse feita, vindo a ser resolvido após três meses, em cartório. A partir daí, só restava a adaptação para aumentar a capacidade da nova casa, acima dos 50 amperes.

Fernando cumpriu com o que era preciso: foi até o Na Hora da Rodoviária e preencheu os documentos solicitados pela empresa. No dia seguinte, um técnico apareceu na nova casa para avaliar o que seria necessário para a adaptação. O técnico indicou alterações para a nova conexão, que foram resolvidas no dia seguinte. Ele precisou ir novamente ao Na Hora para pedir novamente a visita de um dos técnicos.

“Quando voltei lá, não precisei preencher nenhuma papelada e a atendente disse que bastava eu ter ido lá para que o novo técnico fosse chamado. Um segundo técnico foi lá e pediu novas exigências. E ficou nesse vai e volta. Eu ia no Na Hora e um novo técnico indo e pedindo outras coisas. Nessa brincadeira já se foram dois meses desde quando eu pedi para fazer a alteração da potência”, reclamou o engenheiro. “Cada vez vai um técnico diferente que fala algo diferente e que o anterior não entendia de norma ou outros protocolos.”

De acordo com Fernando, como a Neoenergia é a única empresa de distribuição de energia elétrica no DF, ele não tem nenhuma outra alternativa a não ter paciência de que o problema será solucionado em algum momento. Em razão da demora e ineficiência apontada por ele, fez três reclamações no portal do consumidor.gov.br e na Ouvidoria da empresa, mas não houve uma resolução do problema até o momento.

A última exigência, segundo ele, foi para que ele abrisse uma caixa de inspeção subterrânea, a aproximadamente dois metros da caixa onde já passava a fiação anterior da CEB. “Com isso, eles me disseram que eu teria que fazer um projeto para conectar uma coisa que já está conectada, e que vão me cobrar por isso”, disse.

A consequência, segundo ele, é que a mudança será para uma casa com ligações de energia provisórias, que eram da antiga estrutura da casa. “Uma ligação que só Deus sabe de quando é, da década de 60”, afirmou. “Provavelmente vai cair o disjuntor da casa, vai desarmar o DDR [Disjuntor Diferencial Residencial que possui proteção contra sobrecargas], entre outros problemas por conta da instalação provisória.”

Por algumas vezes, a reforma que estava fazendo na casa precisou parar porque o disjuntor não aguentava a exigência das máquinas utilizadas e caía. “Tudo isso trava a minha vida. E o que me irrita é que quando o técnico for lá, ele vai falar algo que está faltando sem nenhum laudo e dizer que o técnico que foi lá anteriormente não entendia do assunto. E cada vez é um motivo diferente para não fazer a ligação”, pontuou.

Para ele, o serviço oferecido não passou confiança e não foi aprovado como sendo de qualidade. “Da primeira vez, considero que eles estavam certos de não ligar, porque realmente não estava pronto. Agora todas as outras vezes, não tinham razão. […] Vou ter que tomar o cuidado de não ligar nenhum aparelho que possa desarmar a casa inteira”, destacou.

“Vou ter ar-condicionado, mas não vou poder ligar. Está um calor absurdo e não vou poder trabalhar de casa com o ar-condicionado. Terei que achar algum outro local com ventilação e vai gerar uma série de transtornos também com clientes por conta de uma incompetência da Neoenergia, que não consegue resolver e passar uma simples solução por escrito”, finalizou.

Posicionamento

Procurada pelo Jornal de Brasília, a Neoenergia informou que desde que chegou ao DF, assumindo a distribuição de energia elétrica na capital em dezembro de 2020, tem feito “investimentos robustos para melhorar o fornecimento de energia”. Segundo a empresa, foram investidos cerca de R$ 750 milhões em tecnologia e modernização da rede elétrica em pouco mais de dois anos.

“Esses investimentos refletem nos indicadores de qualidade da energia. Após a chegada da Neoenergia, quando comparado com a empresa anterior, foi registrada uma redução de 21% no tempo das interrupções de energia em todo DF. Em relação à quantidade de interrupções, houve redução de 22% em comparação ao mesmo período”, destacou a empresa.

Com relação ao número de reclamações no Procon, a empresa afirma que ressalta as 159 que não se referem à falhas no serviço prestado pela distribuidora, de fornecimento de energia elétrica, conforme apontado pela reportagem.

“Destacamos, também, que esse número [de reclamações] é de apenas 0,046% quando comparado com o universo de mais de 1,1 milhão de clientes da distribuidora no DF”, finalizou em nota.

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