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Nascidos sob o mesmo céu e no mesmo avião

Vítor Mendonça e Mayra Dias

Brasília completa mais um ciclo de vida e conta hoje com 61 anos de história, marcada, principalmente, por quem viveu na cidade desde o princípio. Mesmo antes de 1960, ano da inauguração, os primeiros habitantes chegaram, a fim de dar forma ao antigo sonho de construção da nova capital do país, cumprindo a promessa de interiorização. A cidade contava com cearenses, paulistas, goianos, mineiros e tantas outras regionalidades, mas os brasilienses, porém, ainda estavam por vir.

Um dos primeiros a receber a nomenclatura dada aos novos residentes da cidade foi Márcio Cândido de Jesus, 60 anos, nascido em 21 de novembro do mesmo ano de origem da capital. Hoje professor de matemática no Centro Educacional 1 do Guará e funcionário da Vigilância Sanitária, o filho de pioneiros chegados em 1958, Benedito Cândido de Jesus, em 1960 com 24 anos, eletricista, e Ireni Rosa de Jesus, com 22, dona de casa, nasceu no Hospital de Base de Brasília.

“Eu tenho orgulho de ter nascido aqui em Brasília. Muito orgulho. Daqui saíram muitas pessoas importantes, bandas… E gosto daqui porque é a cidade onde eu cresci, fiz meus amigos e família”, afirmou Márcio ao Jornal de Brasília, segundo filho de seus pais. Atualmente Márcio vive na quadra 1 do Park Way, ao lado das casas dos filhos Márcio e Marcus Vinícius.

A primeira moradia, porém, foi uma casa de madeira, construída em uma das ruas do Acampamento Pacheco Fernandes, nos primórdios das avenidas da Vila Planalto, cidade pioneira no Plano Piloto. “Meu pai viu uma oportunidade e veio para Brasília trabalhar como pioneiro. Ele era eletricista e arranjou um emprego na CEB [Companhia Energética de Brasília], e inclusive se aposentou pela empresa. Eles vieram de Carmo de Paranaíba, em Minas Gerais, tanto meu pai quanto minha mãe. Eles se casaram e vieram para cá para formar família aqui. Todos os meus irmãos nasceram aqui em Brasília”, relatou o brasiliense.

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Os anos iniciais da formação educacional se deram na antiga escola pública da Vila Planalto, antes em funcionamento em frente à igreja Nossa Senhora do Rosário de Pompeia – paróquia que pegou fogo em 5 de março de 2000 e, posteriormente, foi reconstruída. Foi também na congregação que Márcio completou seus anos de catequese na infância. “Lembro que a professora ficou espantada porque eu já sabia ler. Acho que foi minha mãe quem me ensinou. Sempre fui muito bom em aprender”, comentou Márcio na visita ao local junto com a reportagem.

A vida e os estudos na Vila Planalto duraram pouco. Em 1967, o patriarca, Benedito, decidiu que a família passaria a viver nas primeiras quadras do Guará I. Para a garantia do lote, porém, era necessário que a residência anterior fosse desconstruída – aquela era a condição para construir no novo bairro. A madeira da Vila serviu, portanto, de viga de sustentação para a nova casa na quadra 5 da nova cidade, em alvenaria.

“Meu pai ganhou um lote, mas eles tinham que construir em estilo mutirão. Todos iam para lá e faziam uma casa, depois passavam para outra”, disse. Os estudos passaram a ser então na Escola Classe 1 do Guará e depois na Escola Classe 5, no mesmo bairro. Depois, estudou também no Ensino Fundamental 2 do Guará. A formação na faculdade foi em Matemática, pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB).

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Na quadra 5, Márcio morou até o casamento com a mineira Mariflor Maia Bezerra de Jesus, hoje com 56 anos. Os dois se conheceram na primeira vez dele na praia, em 1980. “Eu estava acampado com uns colegas, com o padrinho do meu filho, e de repente ela apareceu lá, conversando e tal, a gente ficou conversando e depois, a partir daí, eu comecei a ligar para ela, mandar cartas. Ela morava em Ponte Nova, Minas Gerais. Aí casamos e ela veio morar aqui e meus dois filhos nasceram em Brasília”, contou. A partir de então, viveu por dois anos na quadra 30 do Guará II e depois na quadra 38. A mudança de bairro só aconteceu novamente em 2011, quando foi para o Park Way na residência atual.

Márcio Cândido de Jesus, nascido em 1960 na Vila Planalto no antigo Acampamento Pacheco Fernandes. É professor de matemática e fiscal da Vigilância Sanitária.

Tempos de liberdade

Uma das características da cidade que o brasiliense mais sente falta é a liberdade experimentada nos anos de sua juventude na capital. Ele lamenta o fato das brincadeiras de rua não serem tão frequentes que eram frequentes como anteriormente. “A gente jogava queimada, futebol, pique-pega – tudo isso a gente fazia de forma tranquila, essas eram as brincadeiras que a gente tinha na época”, relembra. “Hoje em dia ninguém pode mais ficar na rua, né. Você está na porta de casa e a pessoa que passa, te rouba, com você apenas sentado em algum lugar.” Situação como essa aconteceu com o filho Marcus.

“Quando faziam festa, a gente chegava e as portas sempre estavam abertas. Você entrava e se divertia. Saía e nunca tinha confusão. Não é como hoje em que as portas são fechadas. Antigamente, não precisava nem convidar, era só chegar no lugar. […] Hoje em dia você não tem tanta tranquilidade como tinha antes no início de Brasília”, lamenta.

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Na Vila Planalto, um dos eventos e entretenimentos mais memoráveis de Márcio eram as lutas de telecatch – lutas livres encenadas, muito aclamadas entre os anos 60 e 80. “Ah, a gente brincava muito. Tinha um ringue que a gente ia para assistir o pessoal lutando – foi o início das lutas livres. O pai de um amigo meu tinha esse ringue de telecatch lá, então a gente ia para ver”, contou.

“Lembro que a gente soltava pipa também, lembro que soltava com meus tios quando iam para lá, meus primos. A gente brincava muito. Era muito tranquilo. Era perto do Motonáutica [clube na orla do Lago Paranoá]. Às vezes a gente descia a pé para o clube ou ia para a beira do lago para pescar, nadar; isso era muito bom na época. Hoje em dia, poucas pessoas conseguem fazer isso com os filhos, né? Ficam mais no quintal de casa, ou [saem apenas] quando vão para um shopping. As brincadeiras de rua praticamente acabaram para muita gente.”

Vida difícil

As alegrias da infância e juventude, porém, eram divididas com o senso de responsabilidade criado por Márcio desde os 10 anos de idade, quando começou a trabalhar para ajudar a mãe Ireni, recém separada do marido. Além da ajuda na limpeza dentro de casa, ele também a ajudava a vender doces e galinhas em uma banca na feira do Guará que a matriarca conseguira. Para colaborar ainda mais, também prestava serviço na banca de outras pessoas, com vendas de verduras.

“Às vezes também aparecia um caminhão cheio de tijolo e os caras falavam: ‘olha, toma um trocado aqui para descarregar’. E eu ia. Também engraxava sapatos com uma caixa que minha mãe fez para mim”, compartilhou. A história do brasiliense também se confunde com este veículo. “Também vendia jornal nos clubes, porque tinha uma kombi do Jornal de Brasília que pegava a gente [os rapazes trabalhadores, em suas casas ou pontos previamente combinados] na época. Então nós colocávamos um macacão amarelo – todo mundo gostava de competir para ter o macacão – e íamos para o clube para vender jornal. Isso era muito bom na época”, contou.

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Quando os pais de Márcio se separaram, a mãe começou a trabalhar também como servente de empresa e passou a limpar prédios da cidade. Certa vez em que ela precisava tirar uma joanete do pé, ela o enfaixou e foi trabalhar com ele machucado, conforme contou o brasiliense. A empresa em que Ireni trabalhava ganhou uma licitação na Câmara dos Deputados, ela foi trabalhar lá e soube de um concurso no qual prestou e passou como técnica administrativa.

“Ela aposentou na Câmara dos Deputados como funcionária de lá. Tudo pelo esforço dela, ela batalhou bastante por isso. Independente de estar cuidando de quatro crianças. Na época ela estava solteira e cuidava da gente, com os filhos de 11, 10, 8 e 6 anos de idade. Ela ficou cuidando sozinha praticamente”, relembra Márcio.

Paisagem deslumbrante

Das características de Brasília, os monumentos históricos são os que menos lhe chamam a atenção. Esta admiração ele deixa para os parentes e amigos turistas que costumava receber em sua casa [antes da pandemia da covid-19]. Com humildade, o que mais lhe salta os olhos são as paisagens verdes que se espalham pela capital, como na orla do Lago Paranoá e entre os Eixos que cortam o centro da cidade. “Gosto de lá [do Eixo] com o gramado dos dois lados, com árvores frutíferas espalhadas por todas as ruas. Isso é o mais interessante de Brasília, que eu gosto muito. Principalmente na época que tem manga, as pessoas podem pegar e levar para casa, assim como a jaca também”, afirmou.

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“Isso foi uma coisa muito interessante que fizeram em Brasília – colocar avenidas largas e muito gramado e árvores, principalmente frutíferas. Já peguei bastante manga no pé. Lembro que costumava parar perto da Vila Planalto, na Avenida das Nações, onde tem muita mangueira. Eu ia e pegava manga, e às vezes chupava lá mesmo, só para chupar debaixo do pé”, recorda.

Normacy e o milagre da vida

Porto-seguro. É assim que Normacy dos Reis Amorim Souza, mesmo tendo morado em tantos lugares, enxerga Brasília, sua cidade natal. Nascida no dia primeiro de junho de 1960, a brasiliense estava ‘presente’ no evento de inauguração da cidade, dentro da barriga de sua mãe, Normândia Cândida dos Reis. “No dia da inauguração, ela foi assistir ao evento estando grávida, com um barrigão. 40 dias depois, eu nasci”, compartilha.

Fruto do amor entre o servidor do exército aposentado Darcy dos Reis, que chegou em Brasília com a missão de atuar na guarda do presidente, e de dona Normândia, Normacy – ou Norma, como é conhecida -, foi recebida pelas mãos do médico Isaque Barreto Ribeiro, no primeiro hospital da cidade, o Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira (HJKO).

“Papai veio para Brasília no primeiro batalhão do exército. Ele ajudou tanto na construção quanto na guarda do presidente, no Catetinho. Já mamãe veio com os pais”, conta. “Eles moravam em Taguatinga, e se conheceram na igreja, na primeira Igreja Batista de Brasília. Se casaram aqui, no ano de 1958”, acrescentou. No núcleo Bandeirante, os pais de Norma tiveram a sua primeira casa. De acordo com o que ouvia de sua mãe, a moradia era um barraquinho, bem pequenininho e de madeira, envolto pela lama de um Núcleo Bandeirante ainda não asfaltado.

Composto por 23 edificações de madeira, o HJKO foi inaugurado em 6 de julho de 1957. O local foi construído em apenas dois meses e com caráter temporário, apenas para atender à urgência da cidade na época, que precisava de um lugar para atender os operários acidentados nas construções, assim como os partos, crianças e donas de casa que precisavam de atendimento ambulatorial. A unidade foi desativada em 1974, após o surgimento do Hospital Distrital, atual Hospital de Base. Hoje, 64 anos depois, o local abriga o Museu Vivo da Memória Candanga, inaugurado em 1990, às margens da BR-040, próximo ao Núcleo Bandeirante e à Candangolândia.

Do seu nascimento, ela relata ter ouvido do pai um relato de fé. “Papai conta que, no dia que nasci, minha mãe passou muito mal. Ela teve eclâmpsia e o médico falou para o meu pai pedir à Deus pela vida da esposa, pois ele iria tentar salvar a criança”, expõe. De acordo com a história contada à filha, Darcy teria ido para trás do hospital, se ajoelhado, e pedido pela vida das duas. “Graças a Deus deu tudo certo e nós duas sobrevivemos. Mamãe lutou muito”, considera, cheia de gratidão.

Normacy dos Reis nasceu no Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira (HJKO) – hoje Museu Vivo da História Candanga – apenas 40 dias após a inauguração da cidade. Em sua juventude na capital, gostava de frequentar o Parque da Cidade e das antigas lanchonetes, onde ia com os amigos.

O bom filho à casa torna

A designer de interiores, que se formou no Centro Universitário Euro Americano (Unieuro), declara que, mesmo tendo morado em diferentes estados do país, ela tem um apego especial pela cidade onde nasceu, se formou, conheceu seu marido e construiu sua família, hoje formada por dois filhos e uma neta de apenas 4 meses.

“Sempre foi uma alegria voltar para a nossa terra, para a minha cidade natal. Meus avós moravam aqui, junto com minhas tias, e eu me lembro que adorava andar de bicicleta na rua, e era muito tranquilo e gostoso”, relembra Normacy que, com 4 anos de idade, foi com os pais morar em Recife, para o senhor Darcy estudar Teologia e, em seguida, seguiu para Belém, por mais 1 ano e meio, quando o pai foi convocado pelo Exército para ser capelão.

Aos 15 anos de idade, a brasiliense retornou para sua cidade berço. “Nos estabilizamos aqui quando meu pai se tornou pastor da primeira Igreja Batista de Brasília, após o falecimento do fundador. Brasília sempre foi nosso porto-seguro”, relembra Normacy. Foi nessa época, que ela conheceu o pernambucano Joélio de Amorim Souza, com quem, em 1978, aos 18 anos de idade, se casou.

“Tivemos dois filhos, Jonatas e Geane”, pontua. Foi com ele, que por quase 4 anos, Norma morou em Anápolis, local onde o marido abriu uma fábrica após deixar o posto de gerente de banco em Brasília, no ano de 1989. Devido à vontade de formar os filhos na capital, o casal retornou à cidade e construíram a casa onde moram até hoje, em Arniqueiras.

Da sua juventude na cidade, entre os 15 e 29 anos, Normacy tem muitas lembranças. “Eu estudei no CNB, em Taguatinga. Foi um período muito agradável, pois sempre gostei muito daqui. Sempre amei passear no Eixão, ir nas lanchonetes que tinham ali perto, no Eixinho. Parque da Cidade e Água Mineral também eram lugares que eu gostava muito de ir”, rememora, destacando a segurança da cidade naquela época. “Andávamos nas ruas e de ônibus tranquilamente, sem medo. Saíamos a noite, com o clubinho da igreja para fazer serenatas na casa dos amigos. Era tudo muito calmo e tranquilo”, descreve.

Localizado na Asa Sul, local onde Normacy e Joélio viveram os primeiros anos de casados, o Parque da Cidade Dona Sarah Kubitschek foi fundado em 11 de outubro de 1978. Com 420 hectares, o local é considerado o maior parque urbano da América Latina. “É muito bom passear por lá aos fins de semana com a família”, afirma a filha do pastor Darcy.

O espaço, que é patrimônio de Brasília, é um dos mais extensos e famosos locais de lazer ao ar livre na capital, recebendo, diariamente, centenas de pessoas interessadas em apreciar a paisagem ou utilizar as quadras, parquinhos, parque de diversões ou os lagos artificiais com amigos e família. Programas assim, não só eram, como permanecem sendo uns dos favoritos de Norma com e sua família.

A perenidade da história

Para o local onde nasceu, o principal desejo de Norma, no momento, é que a situação da pandemia se resolva. “Que todos melhorem e que a gente volte a ser livre, sem máscaras”, anuncia. Na avaliação da avó da Anjelinah, o que a capital merece, para os próximos anos, é a manutenção e a melhoria daqueles pontos que carecem, de modo que se preserve a história e a beleza que a região contempla.






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