Manuela Rolim
Especial para o Jornal de Brasília
Aquele atalho para agilizar a chegada, um retorno proibido ou até o uso da passagem de pedestres. Situações como essas são vistas diariamente no trânsito, protagonizadas por motociclistas, e podem render multa de R$ 880. Em um giro pela cidade, o Jornal de Brasília fez flagrantes do desrespeito às leis de trânsito e ouviu motociclistas, que reconhecem que a situação é comum.
As 2,7 milhões de multas emitidas no DF no ano passado, conforme mostrado nessa segunda-feira (27) pelo JBr., já incluem as infrações cometidas por motoristas e motociclistas. O Departamento de Trânsito (Detran-DF) não dispõe de dados específicos sobre o tráfego em local irregular, mas detalha outros tipos de infrações frequentes.
O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) prevê multa para o motociclista que for flagrado sem o capacete, por exemplo. Segundo o Detran, em 2018 foram registradas 513 infrações desse tipo. Além disso, 290 pessoas foram pegas transportando passageiro sem o equipamento de segurança. Já em 2017, foram computadas 637 penalidades pela falta do capacete e 231 motociclistas foram flagrados fazendo o transporte de passageiro sem o item obrigatório.
O CTB também penaliza os motociclistas que forem flagrados fazendo malabarismo, o que consiste em manobras como ficar em pé, deitado ou empinar a moto, por exemplo. Segundo o Detran, no ano passado, foram 177 pessoas foram autuadas por esse motivo. A incidência aumentou, uma vez que, em 2017, foram 112 multados. Tanto as infrações relativas ao uso do capacete, quanto aos malabarismos feitos em cima da moto são de natureza gravíssima, com multa de R$ 293,47 e suspensão do direito de dirigir.
Durante patrulhamento em Águas Claras, na madrugada do último sábado, uma equipe do Detran flagrou um motociclista pilotando em zigue- zague, “colocando em risco sua própria vida e a de outras pessoas que circulavam pela via”, segundo o Detran.
Na abordagem, os agentes perceberam que o homem transportava uma cadeira na moto e apresentava sinais visíveis de embriaguez, porém, recusou o teste do bafômetro. Após consulta ao sistema, a fiscalização constatou que o condutor não era habilitado para pilotar motocicletas. Além disso, estava com a CNH vencida desde 2012, acumulava 146 pontos em seu prontuário e já havia sido flagrado dirigindo alcoolizado outras duas vezes.
A moto tem o último licenciamento datado de 2017, soma 49 notificações e um débito de aproximadamente R$ 14 mil, sendo a maioria – R$ 13.300 – em multas.
Responsabilidade deve falar mais alto diante da pressão
Na ruas, até os próprios motociclistas admitem flagrar outros cometendo infrações diversas. “É comum vermos os colegas fazendo ultrapassagens perigosas, ‘gatos’, subindo em calçadas, avançando sinal fechado e muito acima da velocidade”, relata o motociclista João Teotônio da Silva Filho, 42.
João trabalha na área há 12 anos. Para ele, tem muita gente inexperiente no trânsito. “Com a onda dos aplicativos, muitas pessoas tiraram carteira de moto para começar a trabalhar e as entregas são feitas com rapidez. Nós, que já pilotamos há anos, somos mais cuidadosos”, afirma o motociclista.
Ainda assim, João também não nega ser imprudente às vezes. Recentemente, ele levou uma multa de quase R$ 900. “O trânsito estava parado e eu fui ultrapassar pelo acostamento. Foi imprudência total minha”, confessa. O motociclista conta que já gastou muito dinheiro com infrações, mas, atualmente, está cauteloso. “Não só pelo prejuízo, mas para evitar acidentes. Hoje, ando mais devagar e presto atenção nos pardais”, completa.
Márcio de Andrade, 36, também é motociclista há cinco anos. Ele confessa ter cometido infrações, principalmente por excesso de velocidade, mas, agora, se considera responsável. “Acho que a experiência me deixou mais prudente. Não vale a pena correr, é preciso pensar primeiro na nossa integridade física. Eu já sofri dois acidentes, sendo que em um deles eu fui parar no hospital. Isso sem falar o prejuízo com multas. Só no ano passado foram R$ 430”, conta ele.
Márcio trabalha como motoboy no Setor Bancário Sul. Quase sempre, ele flagra alguma imprudência na rua. “Eles andam na contramão, evitam retornos distantes e pegam o meio- fio”, detalha. O motociclista, porém, defende a categoria. “Nosso serviço requer agilidade, é muita pressão”, acrescenta.
Ponto de Vista
Para o especialista em trânsito e professor de engenharia de tráfego da Universidade de Brasília (UnB) Paulo César Marques da Silva, a solução para o excesso de infrações cometidas pelos motoristas deve levar em consideração três fatores essenciais: educação, engenharia e fiscalização rigorosa. “São os três pilares do trânsito, não adianta resolver somente um. Quando eu digo educação, não me refiro apenas ao processo de formação do condutor na prática, mas também ao fato de que todos eles deveriam conhecer o Código de Trânsito Brasileiro como um todo e praticar a cidadania. O trânsito nada mais é que um ambiente de convivência social”, explica o professor.
Com relação aos motociclistas, Paulo destaca um ponto que considera grave. “Muitos não são habilitados, portanto, não são afetados pelas penalidades aplicadas pelos órgãos fiscalizadores. Ou seja, tem uma série de infrações que fica mascarada. Por mais que a gente aprimore o processo de habilitação, esse tipo de motociclista não será pego. Por isso, insisto que as ações precisam ser conjuntas”, acrescenta o especialista, ressaltando a necessidade de fiscalização. “Quando a fiscalização é eficaz e dá resultados, a gente reduz o comportamento errado dos outros condutores”, conclui.