Manuela Rolim
manuela.rolim@jornaldebrasilia.com.br
A morte de Yasmim Rodrigues de Souza, atropelada próximo ao km 13 da BR-251 – estrada que liga Brasília a Unaí (MG) – no início da semana, trouxe à tona a insegurança às margens da rodovia. Aos seis anos, a menina soltou a mão do padrasto, correu para a via e foi arrastada por um veículo. Apesar da fatalidade, o óbito reacendeu uma série de reivindicações dos moradores. São elas: falta de sinalização na pista, de redutores de velocidade, paradas de ônibus e recuo de veículos. Isso porque,
próximo ao local da tragédia, está o Centro de Ensino Fundamental Nova Betânia, onde a vítima estudava.
No portão do colégio, cartazes com desejos de mudança foram colocados na quarta-feira passada e, desde então, permanecem na entrada da unidade. Alunos, professores e funcionários pedem “paz no trânsito”, “transporte adequado” e “segurança no embarque e desembarque das crianças”. No mesmo dia, conhecidos de Yasmim fizeram um ato no ponto exato da batida. Atualmente, a instituição recebe 740 alunos, detalha o vice-diretor Luciano Garcia.
- Myke Sena/Jornal de Brasília
- Myke Sena/Jornal de Brasília
- Myke Sena/Jornal de Brasília
- Myke Sena/Jornal de Brasília
- Myke Sena/Jornal de Brasília
- Myke Sena/Jornal de Brasília
- Myke Sena/Jornal de Brasília
- Myke Sena/Jornal de Brasília
- Myke Sena/Jornal de Brasília
- Myke Sena/Jornal de Brasília
- Myke Sena/Jornal de Brasília
- Myke Sena/Jornal de Brasília
- Myke Sena/Jornal de Brasília
“Nós perdemos uma menina muito especial devido à falta de respeito do governo, ainda que ela tenha corrido para a BR. No dia atropelamento, o ônibus escolar parou do outro lado da pista, onde não tem parada e o acostamento é curto. A realidade é que não temos estrutura alguma aqui e o descaso é total”, afirma Garcia. Segundo ele, os coletivos são da empresa Faco Transportes, ganhadora da licitação para um contrato de dez anos. Os veículos, inclusive, seriam todos locados. “Os motoristas também são vítimas. Eles não recebem os salários em dia e ficam sem o vale-alimentação”, completa.
Versão oficial
Procurado pelo Jornal de Brasília, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) informou que “por se tratar de uma Rodovia não existe possibilidade de colocação de uma faixa de pedestre”. A autarquia, no entanto, disse que está em andamento um processo de licitação para a instalação de redutores de velocidade nas proximidades da KM-37 da BR. “Ressaltamos ainda que a sinalização da via está em perfeitas condições, porém ainda existe muita imprudência entre os motoristas”, concluiu. O Departamento de Trânsito (Detran), por sua vez, informou que a “via não é de responsabilidade do órgão”.
De acordo com o diretor, as principais reclamações são a ausência de placas informativas sobre o perímetro escolar e a precariedade das paradas. “Elas não têm cobertura. Quando chove, as crianças chegam molhadas. Temos estudantes desde a educação infantil até o 9o ano”, acrescenta. Ele lembra que o caso de Yasmim não foi o primeiro. “Há muitos anos atrás, outro aluno foi atropelado. Na ápoca, plantamos uma árvore em sua homenagem. Hoje, ela está enorme. Fora essas perdas, vemos possíveis situações de acidentes graves quase todos os dias”, conclui.
Para o diretor, a falta que a garotinha irá fazer será ainda maior. “Ela era um anjo. Vinha correndo me abraçar toda vez que eu chegava na escola. No dia do ocorrido, estava ansiosa pelo campeonato que acontecia na escola, ela adorava estar aqui. A família é muito carente, foi uma verdadeira tragédia”, lamenta. Garcia conta que a velocidade máxima da BR é de 80km/h. “O próprio motorista que atropelou Yasmim estava desnorteado. A culpa não foi dele, mas da falta de segurança no trecho”, declara.
Para o casal de aposentados Oliveiro de Almeida, 76 anos, e Vicentina de Brito, 75, a sensação de vulnerabilidade, é unânime. Avós de Gabriel, 9, e Giovana, 5, ambos estudantes da unidade, eles fazem questão de levar e buscar os netos quando os pais das crianças não podem. “É um absurdo não ter uma barreira eletrônica nas proximidades. Tenho certeza que, ao ver uma placa indicando a escola, o motorista iria diminuir a velocidade. A falta de bom senso é do governo mesmo”, afirma Oliveiro.
Padrasto de Yasmim, o fabricante de sinuca Alberto Figueiredo, 67, está devastado após presenciar o atropelamento da menina. “Meu amor por ela era de pai biológico. Não consigo dormir, nem comer. Tento cantar para espairecer, mas ela surge ao meu lado em pensamento. Todo dia, esperávamos o ônibus nessa parada. De repente, ela saiu correndo”, conta.
Entenda ocaso
Yasmim Rodrigues de Souza foi atropelada na última segunda-feira, por volta das 13h, na BR-251. Segundo o Corpo de Bombeiros, a vítima sofreu fraturas no fêmur esquerdo e nos dois braços, além de uma possível pneumatórax. Ela chegou a ser levada de helicóptero para o Hospital de Base, inconsciente e instável, mas não resistiu aos ferimentos e morreu no início da madrugada. O veículo envolvido no acidente era uma Mitsubishi Pajero branca. O motorista não ficou ferido.
Alberto relata ainda o último contato que teve com a garota após o impacto. “Ela abriu os olhos e a boca, mas não conseguiu dizer nada. Foi a pior cena da minha vida. Momentos antes, dei várias balinhas para ela, que me agradeceu inúmeras vezes. Quando me chamava de pai Beto, eu me derretia”, completa ele, emocionado.
O acidente foi presenciado por outros pais e alunos do colégio. “Estamos chocados. Minha filha, por exemplo, não conseguiu voltar a estudar porque está com medo de passar pela BR. Precisamos que olhem para o nosso problema, temos urgência por uma solução. Vale ressaltar ainda a falta de iluminação nessa estrada”, acrescenta a diarista Zilda Pereira, 45.
Para o diretor do Sindicato dos Professores do DF (Sinpro-DF), Samuel Fernandes, “o governo precisa providenciar com urgência paradas de ônibus, locais para embarque e desembarque de alunos, sinalização adequada e redutores de velocidade”. Ainda segundo ele, uma família está enterrando uma criança por omissão do governo, que não tomou as medidas de segurança necessárias para uma área escolar nas proximidades de uma BR.











