João Paulo Mariano
Especial para o Jornal de Brasília
A maior greve da história do metrô continua. Em assembleia na noite desta quinta-feira (18), 113 servidores se posicionaram favoráveis ao prosseguimento da paralisação, enquanto 52 preferiam dar fim ao movimento. Com isso, já são 68 dias paralisados. Para os usuários que precisam do transporte diariamente, o transtorno é grande, já que o funcionamento dos 24 trens só ocorre em horários de pico – das 6h às 9h e das 17h às 20h30.
Os metroviários reivindicam reajuste salarial, melhoria nas condições de trabalho e a contratação de servidores aprovados no último concurso. Eles criticam a existência de funcionários comissionados, que deveriam ser substituídos por concursados.
O processo de negociação se estende na Justiça há meses. Os dois lados não conseguem chegar a um denominador comum. A última tentativa de conciliação ocorreu com o intermédio do Tribunal Superior do Trabalho (TST), na terça-feira passada. E foi a que deu mais certo, segundo a direção do SindMetrô.
Saiba mais
O sindicato da categoria alega que existe um déficit de cerca de 800 funcionários no quadro do Metrô-DF, atualmente composto de 1,2 mil servidores.
Enquanto isso, há 900 aprovados no último concurso, aguardando convocação. Eles temem que o certame vença antes disso.
O governo alega que a Lei de Responsabilidade Fiscal o impede de fazer novas contratações.
O salário inicial de um agente de segurança da empresa é de R$ 2,9 mil, o mais baixo da empresa. O maior salário inicial é o de engenheiro – R$ 6 mil.
O governo tentou evitar a greve acionando a Justiça. Mas o Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região (TRT-10) decidiu que o movimento não é abusivo ou ilegal.
“O governo chegou intransigente, como sempre foi desde o início da greve. Mas a ministra Maria Calsing, do TST, fez uma condução brilhante, o que levou a instituição A flexibilizar bastante”, diz o diretor de Assuntos Jurídicos do sindicato, Júlio César Lima de Oliveira.
Negociação difícil
Os três pontos principais discutidos na assembleia foram o tratamento dos dias parados; o cancelamento do termo de cooperação técnica com o DFTrans relativo à venda de bilhetes do metrô; e que a empresa crie um grupo de trabalho que apure as condições laborais dos metroviários.
O primeiro assunto era um dos mais polêmicos, uma vez que, no início do mês, o Metrô não pagou parte dos funcionários grevistas sob a alegação de que a prioridade era arcar com os salários dos que estavam em serviço. Alguns trabalhadores chegaram a receber apenas 30% dos vencimentos.
Corte indevido
Mas o sindicato recorreu ao TST, que considerou a ação indevida e ordenou o pagamento, com possibilidade de multa de R$ 10 mil por funcionário. A assessoria de comunicação do Metrô-DF informou que uma folha de pagamento complementar foi feita e que, agora, tudo está em dia.
Discórdia na bilheteria
Um dos pontos de discórdia, o acordo de cooperação técnica foi retirado das negociações. Nele, o Metrô propunha que funcionários do DFTrans cuidassem da venda dos bilhetes. A função é feita atualmente por concursados. Para o sindicalista Júlio de Oliveira, essa era uma tentativa de terceirização e foi um dos motivos da greve.
“O DFTrans não tem funcionários para fazer venda de bilhetes. Ele contrataria uma empresa terceirizada. A Justiça já determinou que só servidor faz isso”, diz o diretor, que explica que já houve terceirização na bilhetagem, mas não deu certo. De acordo com a assessoria do Metrô, a intenção era colocar servidores do DFTrans na função.
Discussão ainda deve ir longe
A última questão trabalhada na conciliação foi a criação do grupo de trabalho que apresentará proposta em até 120 dias. Ele deve ser composto por funcionários da empresa e sindicalistas para que haja discussão das cláusulas financeiras e sociais ainda não acertadas.
A restrição do funcionamento do metrô prejudica muita gente que precisa dos trens para se locomover. O estudante de Direito Frederico Paixão quase ficou várias vezes do lado de fora da estação. O morador de Águas Claras afirma que a greve atrapalha muito a rotina, pois, na região administrativa, a dependência dos trens é grande. “Toda a nossa programação fica prejudicada. Com o fim, nossa vida voltaria ao normal”, diz.
A professora de inglês Polyanne Santos teve de mudar a rota e os horários. Ela trabalha em Águas Claras, estuda na L2 e mora em Samambaia. Com a greve, de casa para o trabalho, ela leva, em média, uma hora e 20 minutos. Quando há o metrô, leva apenas 45 minutos. Mas o pior é quando ela precisa ir da UnB, na L2 Norte, para o local de trabalho: são quase três horas, sendo que, em dias sem paralisação, não passa de uma. Por enquanto, a agonia continua.