Menu
Brasília

Leucemia: Falta de informação ainda é problema

Arquivo Geral

18/10/2016 7h00

Atualizada 17/10/2016 22h48

“Nós nunca estamos preparados para a morte. Eu ganhei uma nova chance de viver”, Aliamar Dias de Oliveira, enfermeira. Foto: Hugo Barreto

Jéssica Antunes
jessica.antunes@jornaldebrasilia.com.br

Mais de dez mil pessoas devem ser diagnosticadas com leucemia até o fim deste ano. No Centro-Oeste, este é o 11º câncer mais frequente, com índice de 3,62 casos a cada grupo de cem mil habitantes. Até a virada de 2016, 120 brasilienses podem passar a conviver com a doença, que afeta principalmente homens e não tem cura. No Distrito Federal, o tratamento gratuito é oferecido, mas há problemas com abastecimento de remédios e faltam exames.

Saiba mais

  • No Brasil, o câncer é a segunda maior causa de morte. O Inca estima 600 mil novos casos anuais. No DF, 3.940 diagnósticos de câncer devem acontecer até o fim do ano.
  • Segundo o Ministério da Saúde, 60,5% dos pacientes foram diagnosticados com câncer em estado avançado.
  • Atualmente, segundo a pasta, cerca de 200 pessoas já se identificaram como doadores compatíveis de medula óssea, mas aguardam leitos para fazer o transplante.

A leucemia é um dos três principais tipos de câncer no sangue, junto com mieloma e linfoma. Os tratamentos mais comuns incluem observação atenta, quimioterapia, imunoterapia, terapia-alvo e transplante de medula.

O Hospital de Base é referência no diagnóstico da leucemia, inclusive dos casos mais graves da doença. De acordo com o coordenador de Hematologia da Secretaria de Saúde, Alexandre Caio, quase mil pessoas passam por diagnóstico, monitoramento e tratamento de diversos tipos de leucemia pelo Sistema Único de Saúde na capital.
O especialista explicou que o diagnóstico, de modo geral, é feito a partir de resultados do hemograma, um exame relativamente simples, atendido na rede pública.

Os tratamentos acontecem pela rede pública. Recentemente, o DF passou a fazer transplante de medula óssea. No entanto, costumam acontecer problemas com falta de remédios para tratamento de cânceres. “Hoje temos medicamentos com desabastecimentos pontuais. Estamos conseguindo oferecer o tratamento desses pacientes na medida do possível”, revelou.

Confusão

Presidente da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia, Merula Steagall afirma que faltam informações a respeito da enfermidade. “Os sintomas são suaves e podem ser confundidos com as consequências da velhice. Isso faz com que as pessoas atrasem o diagnóstico e tratamento, e diminuam a expectativa de cura. Cerca de 60% dos casos são descobertos tardiamente, mas, quanto mais cedo, mais barato e menos agressivo é o tratamento”, esclareceu.

No Brasil, revelou, a média é de seis meses entre o diagnóstico e o início do tratamento. “Os pacientes não podem mais esperar e o sistema de saúde brasileiro e geralmente de toda a América Latina é lento, exige uma atenção mais rápida”, criticou.

Carlos Chiattone, professor da faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, coordenador do Núcleo de Linfomas do Hospital Samaritano de São Paulo e diretor da Associação Brasileira de Hematologia (ABHH), explicou, durante o II Congresso Ibero-Americano do tema, que a leucemia é uma doença incurável e com custo alto de tratamento. Ele destaca que o tratamento básico mais comum para cânceres em geral é pouco aplicado quando se trata da leucemia, o que provoca a necessidade da criação de drogas inovadoras e específicas para o tratamento da doença.

O especialista defende a imunologia. De acordo com ele, a estratégia provoca menos efeitos colaterais, permite que o tratamento aconteça por mais tempo, oferece maior controle e, consequentemente, mais qualidade de vida para o paciente.

Enfermeira acredita nova chance

“Nós nunca estamos preparados para a morte. Eu ganhei uma nova chance de viver e aprendi que não podemos deixar de fazer o que temos que fazer”, acredita Aliamar Dias de Oliveira, enfermeira de 50 anos que, há oito, descobriu uma leucemia mieloide aguda após um hemograma. Como sintomas, um cansaço extremo, que achava ser excesso de trabalho, manchas pelo corpo e sangramentos na gengiva e no nariz.

Ela ficou 30 dias internada no Hospital de Base. Por seis meses, fez a manutenção da doença. Durante três anos, a paciente ficou com os exames completamente limpos. “‘Estou curada’, eu pensava. E comecei a viver diferente de antes”, conta. No entanto, os sintomas voltaram em 2013 e o câncer era mais intenso. Precisaria de um tratamento mais forte e de transplante de medula.

“Fiquei completamente frustrada. Se você tem câncer em uma parte do corpo, há a opção de remover aquela parte. Como tirar a fábrica do sangue?”, questiona. Do novo diagnóstico ao transplante foram oito meses e já são mais de 90 dias sem alterações nos exames. Os médicos dizem que se um câncer não voltar em três anos, as chances de recidivas serão muito pequenas. Depois de cinco anos, poderá se falar em cura.

“Eu não vivia a minha vida, vivia em função dos outros. Trabalhava muito, não descansava, não parava. A leucemia foi uma lição. Acredito que todos nascemos com um objetivo e acho que eu não estava no caminho certo. Eu precisava dessa parada para continuar essa jornada, que não era apenas trabalho. Penso que isso foi Deus falando que precisava mudar o rumo da minha vida”, acredita Aliamar, que contou com a fé e apoio da família durante todo o tratamento.

Seja doador

  • Segundo orientações do Inca, qualquer pessoa entre 18 e 55 anos pode ser doadora de medula, desde que não tenha doença contagiosa ou incapacitante.
  • Basta procurar o Hemocentro, no começo da Asa Norte. Ali, um cadastro é preenchido e o sangue coletado para determinar características genéticas que sejam compatíveis com as do receptor.
  • Esses dados são armazenados em um sistema informatizado que cruza os dados de voluntários e pacientes.
  • A medula é retirada do interior dos ossos da bacia por meio de punção, procedimento de remoção por agulha, e se recompõe em 15 dias.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado