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Brasília

Inspirados em jogo polêmico, Baleia Vermelha estimula desafios do bem

Arquivo Geral

30/05/2017 7h00

Atualizada 29/05/2017 22h23

Foto: Ariadne Marçal

Manuela Rolim
manuela.rolim@jornaldebrasilia.com.br

Há quase duas semanas, o alarme do celular de Eric Vasconcelos dispara todos os dias. Desta vez, o toque não é para fazê-lo acordar ou lembrá-lo de algum compromisso. O alerta é para incentivá-lo a fazer o bem a si próprio e ao próximo. Aos 28 anos, o carioca é criador e usuário do aplicativo Red Whale – Baleia Vermelha -, baixado por quase duas mil pessoas no Brasil e pouco mais de 800 nos Estados Unidos em apenas sete dias. Contrariando o polêmico jogo da Baleia Azul, o app reúne mais de 40 tarefas simples e positivas a serem cumpridas diariamente.

Desde de que foi lançado, no último dia 17, o aplicativo vem ganhando cada vez mais adeptos. A repercussão entre jovens e pacientes diagnosticados com depressão, inclusive, têm sido surpreendente, destaca o fundador do programa. Administrador de formação, Eric trabalha como desenvolvedor de sites e aplicativos na capital e se identifica com a doença: “A ideia surgiu pouco depois que eu comecei a desenvolver depressão. Senti vontade de conscientizar as pessoas quanto ao problema. Não é frescura. Carece de tratamento como qualquer outra enfermidade”.

A ausência de um motivo específico também é comum, acrescenta Eric. “Eu mesmo sempre tive uma vida normal, com saúde, emprego, amigos e, ainda assim, me vi nessa situação. De repente comecei a chorar com frequência, quase que diariamente, sendo que nunca tive esse costume. Procurei meus colegas e uma ajuda profissional, mas queria fazer mais”, relata.

Em um sábado de folga, o desenvolvedor tirou o aplicativo do papel e o colocou em prática. Poucos dias depois, o utilitário já estava pronto para ser navegado e traduzido para o inglês. “Criei algumas tarefas e levei para a minha psicóloga pessoal analisar. Queria ter certeza de que não tinha efeito negativo aos usuários, em especial os com depressão”, detalha.

Eric explica que as atividades não seguem uma ordem, apesar de que as primeiras são mais simples e as seguintes exigem um esforço maior. “Depois de finalizada a tarefa, a pessoa marca aquele item como concluído e espera a missão do próximo dia. Recebi muitas mensagens, inclusive de professores que querem usar o Red Whale dentro das salas de aula”, afirma.

O criador do app ressalta que a intenção não é substituir um tratamento profissional. “O objetivo é mostrar que essas tarefas transformam não apenas o beneficiado, mas o dono da ação. Essa é a magia da caridade”, completa Eric, antes de eleger a atividade que mais lhe gratificou: “Como moro longe da minha família, dizer para a minha mãe que a amo fez muita diferença”.

Saiba mais

  • Criado na Rússia, o jogo da Baleia Azul deixou os pais em alerta ao propor 50 desafios, tendo como etapa final o suicídio. Desde então, jovens começaram a trocar mensagens pela internet com os chamados curadores, que ficam responsáveis por propor as tarefas. Assim que chegou ao Brasil, a disputa foi alvo de investigações policiais e tema de debates dentro das salas de aula.

Depressão é coisa séria

Usuária assídua do Red Whale, a estudante Josianne Santos, 20, baixou o aplicativo assim que foi lançado. Até a semana passada, ela já tinha concluído quase todas as tarefas. “Nunca tive depressão, mas também não encaro o problema como uma brincadeira. Inclusive conheço algumas pessoas que sofrem com a doença, mas, até a chegada do aplicativo, não sabia como ajudá-las. O retorno foi incrível e quase que imediato. Recebi mensagens de amigos comemorando o fato de ter dado um abraço em alguém. Achei a ideia genial”, conta.

Josianne ressalta o que mais lhe agradou na iniciativa: “Minha família mora na Bahia e o Red Whale nos aproximou. Com os meus pais eu já falo com frequência, mas tenho vários tios que eu não conversava há bastante tempo. São atitudes simples, mínimas, que passam batido ao longo do dia, mas que o aplicativo nos força a colocar em prática. Ajudar um mendigo também me tocou. No início, ele estranhou, mas depois agradeceu a atenção que dei a ele”, acrescenta a estudante. Para ela, o ato de doar roupas foi a atividade mais difícil. “Confesso que sou apegada, mas consegui separar algumas peças. Nessa época de frio, pensei nos moradores de rua”, completa.

Amigos do criador do utilitário, o servidor público Gustavo Albuquerque, 28, e a universitária Kelly Lira, 26, comemoram a repercussão. “Ele transformou a própria dor em um bem maior”, resume Gustavo. Já a estudante de Pedagogia destaca a importância da ação: “Sem perceber, Eric criou uma corrente, uma disputa do bem. Na faculdade, o jogo virou assunto. Eu já fiz algumas tarefas e, toda vez que concluo mais uma, tenho vontade de agradecer a pessoa que ajudei”.

Ponto de vista

Psicóloga e especialista em saúde mental, Juliana Cardoso analisa o aplicativo. “Vejo com bons olhos tudo aquilo que vai contra o jogo da Baleia Azul. No entanto, acho importante ressaltar que ele não substitui a responsabilidade dos pais no monitoramento das atividades virtuais dos filhos. O diálogo e o acompanhamento profissional, quando necessário, são imprescindíveis. Não basta deixá-los nas mãos de um jogo do bem, é preciso saber como foi o dia e quais são os medos daquele adolescente”, afirma. Juliana destaca ainda a parte lúdica do Red Whale. “É divertido, mas tem que fazer sentido para o usuário. Ele não pode encarar apenas como uma competição. Precisa entender o significado daquela ação, ou seja, a real importância de um abraço ou de ajudar um mendigo”, conclui.

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