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Brasília

História da vida de Seu Miguel se mistura com a da cidade que ele construiu

Arquivo Geral

20/05/2013 9h15

Quase 90 anos dedicados à literatura de cordel. Miguel Sales Franco nasceu na Paraíba e passou por vários estados, sempre utilizando a poesia como hobby enquanto trabalhava na construção civil. Hoje, aposentado, chegou a Brasília poucos dias após a inauguração e, morador de Sobradinho, se considera uma parte da cidade.

 

Com apenas três meses de estudo, Seu Miguel, 92 anos, aprendeu tudo que precisava para se dedicar ao cordel já que, para ele, o talento veio a partir do nascimento.

 

Infância 

 

O contato com a literatura, tão difundida no Nordeste, veio desde cedo. “Conheci o cordel com minha avó contando as histórias rimadas quando eu era pequeno”, relembrou. A partir daí, se interessou mais ainda pelo assunto. Lia os livretos pendurados em cordas nas barracas de feiras típicas.

 

Já um entusiasta do cordel, Seu Miguel começou a vender miçangas como ambulante. Ele usava uma estratégia incomum para atrair clientes: recitava cordéis para que fosse notado e, com isso, conseguia a atenção que precisava para comercializar seus produtos.

 

Com a idade, veio a vontade de sair do Nordeste. Chegando ao Rio de Janeiro, Seu Miguel foi trabalhar na construção civil. Lá, se matriculou em um curso de carpintaria, do Senai. Antes mesmo de acabar o curso, surgiu a oportunidade de vir para Brasília, que estava prestes a ser inaugurada.

 

Brasília

 

 

“Fiz só oito meses de curso e decidi vir com a construtora que trabalhou nas obras dos primeiros prédios da Asa Norte. Cheguei aqui e tive que ensinar os que chegavam porque a cada dia vinham vários caminhões do Nordeste com muitos imigrantes sem qualificação”, contou. A chegada ocorreu com a capital recém-inaugurada. 

 

Quando chegou a Brasília, pouco do que existe hoje em dia já havia sido construído. Ao passear pela cidade, Seu Miguel se sente parte da capital e fica feliz em ter participado do processo. “Só tinha os prédios da Esplanada prontos, a Rodoviária, o Setor Comercial Sul e prédios residenciais na Asa Sul. Na Asa Norte, não tinha quase nada”, lembrou. 

 

Desde então, Seu Miguel trabalhou em várias funções, em inúmeras obras no DF, até se aposentar, com 65 anos. A partir daí, o cordelista pôde se dedicar à poesia e, nas horas vagas, lê jornais e livros.

 

Temáticas são diversificadas

 

A família contabiliza mais de 500 cordéis escritos por Seu Miguel, mas ele mesmo já perdeu a conta de quantos são. Com o esforço dos parentes, já foram publicados vários livros que, inclusive, renderam dinheiro extra ao cordelista. Não existem limites para os temas abordados nos poemas, já que o autor escreve sobre tudo, desde as dificuldades enfrentadas pelos aposentados, até o trabalho dos rodoviários. “Qualquer coisa que seja interessante, eu escrevo”, afirmou.

 

Dom

 

Entre os cordéis já escritos por Seu Miguel, não existe um preferido. “É que nem filho, você não escolhe o que gosta mais”, brincou.

 

Para ele, ser um bom cordelista é um dom: “Também é preciso gostar de poesia e saber rimar. No meu caso, parece que já nasci com isso. Nunca tive dificuldade de fazer cordel”.

 

O casamento de cerca de 70 anos, com a dona de casa Maria Fidelis Franco rendeu oito filhos, dois falecidos. Entre netos, bisnetos e trinetos, já são 80 membros da família. 

 
 

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