Jéssica Antunes
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Em menos de três anos na gestão de Rodrigo Rollemberg, os professores fizeram duas greves com o mesmo período, mesmas sanções e resultados semelhantes. Tanto em 2015 como em 2017, foram 29 dias parados sem resposta às reivindicações que envolvem recursos financeiros. O governo diz que esbarra no limite da Lei de Responsabilidade Fiscal. Na próxima segunda-feira, após feriado de Páscoa, os docentes retornarão às salas de aula, segundo os sindicalistas, com sensação de desvalorização. A promessa é de que a reposição só ocorra com compensação dos dias parados.
Ontem, após endurecimento da penalidade judicial e enfraquecimento do movimento, a maioria de cerca de três mil docentes optou por retomar o calendário letivo mesmo descontente com as propostas do GDF. “O governo mantém a posição intransigente com o mesmo argumento de que não tem dinheiro. A categoria avaliou que não retirará o pleito, mas vai repensar a estratégia”, revelou Rosilene Corrêa, diretora do Sindicato dos Professores.
“Não há derrota. Se tem alguém derrotado é o governo, pois o nosso olhar para ele será cada vez mais distante e opositor, uma vez que deixa de cumprir leis”, dispara a sindicalista, que prevê impacto na qualidade do ensino.
De acordo com ela, quando um profissional se sente desvalorizado, isso compromete seu trabalho. “O retorno de uma segunda greve no mesmo governo sem resultados tem um efeito emocional muito forte”, afirma.
Reposição
De acordo com o Sinpro, na próxima semana deve acontecer nova reunião com o governo, agora para definir parâmetros da reposição das aulas perdidas. “Vamos discutir a retirada de parte do salário com o corte do ponto dos dias parados. Há compromisso de verificar como reverter judicialmente isso. Se não tiver negociação e o corte se mantiver, não haverá reposição”, promete Rosilene Corrêa. Na última proposta do GDF, porém, há o compromisso de arcar com os valores em folha suplementar.
No ano retrasado, como a greve ocorreu em novembro, a reposição se estendeu até a segunda quinzena de janeiro de 2016. Desta vez, o cumprimento do conteúdo perdido poderá afetar o recesso do meio do ano, previsto para duas semanas de julho, entre os dias 10 e 28. Procurada, a Secretaria de Educação não se pronunciou sobre reposição até o fechamento da matéria.
Bem longe do esperado
Os docentes pediam reajuste salarial de 18% e pagamento da última parcela do aumento concedido em 2013. Em vez disso, o Executivo prometeu estabelecer um prazo de quitação das pecúnias referentes às licenças-prêmio de servidores, pagamento integral da folha de março e a implementação das metas previstas no Plano Distrital de Educação.
A princípio, os sindicalistas rejeitaram a proposta, considerada igual ao que já havia sido apresentado, mas foi o suficiente para enfraquecer o movimento. Ainda durante a madrugada, parte dos professores que se mantinham acorrentados e em greve de fome em frente à Catedral deixou o local.
Outro golpe no movimento foi o endurecimento da Justiça. Apontando a greve como abusiva, ordenou que os docentes retornassem imediatamente às salas de aula e a multa diária por descumprimento passou de R$ 100 mil para R$ 400 mil. O Sinpro recorreu, mas foram 15 dias de desobediência – e 24 horas com o novo valor.
Antes de começar a assembleia que decidiu pelo fim da greve, professores protestaram de uma forma teatral. Um grupo encenou o que chamou de “A Paixão do Professor”, com direito a procissão e crucificação em frente à Catedral. A via-crúcis fez um paralelo entre a situação da categoria e a saga que Jesus Cristo enfrentou até o calvário.
Ponto de vista
Especialista em Educação e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), Célio da Cunha lembra que, mesmo com todo o esforço para reposição de aulas, a reordenação do calendário escolar afeta e prejudica o ensino dos alunos. “Ressalto a importância de uma negociação. Naturalmente é papel do sindicato defender os interesses mais sérios, mas é preciso compreender a crise que o País e o DF vivem em função de más gestões. Na mesa de negociação, é preciso tentar chegar a um acordo em benefício dos alunos e da própria classe docente, que, desvalorizada, prejudica a produtividade”, opina. Para ele, diálogo constante é fundamental.